Recebo um livro de Caio Junqueira Maciel, Dia das mãos, no título. Associo, de imediato, maldosamente, a erotismo, a masturbação, algo assim. Mas estou equivocado, são crônicas ingênuas, saudosas algumas, outras evocativas, revivendo encontros de pessoas, livros, filmes, objetos, eventos e lugares. O autor é um sujeito enfeitiçado por Cruzília, Aiuruoca e terras montanhosas de Minas, imerso no "estoque de lembranças e outros brinquedos". Também pela poesia de Dantas Mota, da qual o autor se tornou um especialista. A propósito, dedica todo um capítulo sobre o bilboquê, aliás nada cândido. No limiar, o camarada deixa-se derreter pela doçura de Cruzília e suas famílias, motivando digressões inspiradas sobre nomes: "Os Leites se derramam nos Ribeiros, os Souzas adoram os Andrades e os Limas, além de aparecerem muitas vezes com Pereiras, normalmente são doces criaturas que se aproximam de Alves e de outras árvores. Majestosos são os Reis, os Noronhas não são ilhas dessa nossa cruz" (p. 41).
Na sequência, o andarilho esbarra nos segredos de Minas: "Feitiço mineiro está numa certa tonalidade do azul sobre as pedras de São Thomé das Letras; está no verde musgo ladeando as cachoeiras de Carrancas; está no vento que vem de Baependi e na lua loura que beija os cabelos de uma menina de Lavras" (p.57). Dentre as aventuras, deixando de lado os comentários lúcidos sobre livros, vem à tona os queixumes diante de vestígios de um passado que desapareceu: "Imóveis choram? // Acho que sim, comprovei agorinha, ao passar pela praça Raul Soares, em Belo Horizonte. Olhei pra as ruínas do Cine Candelária e captei duas lágrimas pingando daquilo que parecia ser um olho avariado.// Cine Candelágrimas" (p.134). E por aí vai, ou melhor, vão as notáveis mãos desse livro excepcional.
MACIEL, Caio Junqueira. Dia das mãos. Cotia: Urutau, 2022.

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