Sebastião Nery, político e um dos mais brilhantes jornalistas políticos do país, publicou dezesseis livros, muitos dos quais se tornaram best-sellers, os quatro volumes de Folclore político (1973, 1975, 1978, 1982), com histórias hilárias sobre importantes personagens da política nacional, Socialismo com liberdade (1974), As l6 derrotas que abalaram o Brasil (1975),O cavalo do carcereiro e o poder militar (1984), A história da vitória – Por que Collor ganhou (1990), Grandes pecados da imprensa (2002), A Nuvem, 50 anos de História do Brasil (2009).
Ninguém me contou eu vi recolhe artigos e ensaios que abordam fatos presenciados, alguns com sua participação, ocorridos em seis décadas (1953 a 2013). Desde a juventude, em função de franca militância em ações e práticas do partido comunista, o autor tem os passos controlados por institutos de segurança pública e de repressão. Amigo de alguns protagonistas dos eventos documentados, como Jânio, Jango, José Aparecido de Oliveira, Tancredo Neves, Magalhães Pinto, Fernando Collor, em cujo governo foi adido cultural em Paris, Sebastião Nery destaca-se como um jornalista vigilante, atento aos movimentos sociais e políticos de seu tempo, preocupado em assimilar o impacto de medidas adotadas por políticos na vida do povo. Seu foco é o do jornalista, dos episódios flagrados em sua origem, numa linguagem direta, ágil, com frequentes adereços literários. Falando de censura, diz: “A censura é sempre o último furo do cinturão que segura as calças dos regimes de arbítrio”(p. 389). A proximidade com Magalhães Pinto e o assessor José Aparecido revela um Brasil surreal, um candidato civil em plena ditadura de Geisel. Percebe-se a tendência em se aproximar de grandes líderes, não no momento glorioso, mas no seu reverso, no isolamento, no caso dos cassados políticos. De temperamento polêmico, impulsivo, teve atuação intransigente contra os desmandos da ditadura, o que lhe valeu cadeia e perseguição. Conheceu de perto os bastidores da política, o jogo de interesses e as falcatruas praticadas pelos poderosos de cada contexto. Jornalista experiente, conviveu com grandes nomes da política e da imprensa brasileira. Um dos pontos altos do livro, a longa entrevista com o jornalista Hélio Fernandes, profissional emblemático que atuou nos principais veículos de informação, (Tribuna da Imprensa, O Jornal, Correio da Manhã, as revistas O Cruzeiro e Manchete), traz importantes subsídios sobre a imprensa nas últimas décadas, o lobby de grandes empresas, os fundamentos financeiros de grandes campanhas ideológicas e políticas. Há páginas engraçadas, com um tempero de tensão, como o reencontro de Tancredo com o barbeiro, um ex-condenado pelo ex-promotor, nove anos depois, após aquele ter saído das grades, num salão vazio, em Andrelândia. Como, também, há páginas indigestas, em especial para uma dada facção partidária, como o capítulo “Lula: eu vi o mensalão nascer”. Não lhe contaram. Ele viu.
NERY, Sebastião. Ninguém me contou Eu vi. São Paulo: Geração, 2014.

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