Nosso país possui rica produção poética, que se foi revelando desde os tempos dos árcades mineiros, passando por diversas correntes e agremiações. No Romantismo, tornaram-se decantados nomes candentes, cada um com sua dicção e temas próprios, o límpido Gonçalves Dias, o ingênuo Casimiro de Abreu, o arrebatado Castro Alves, o desequilibrado Fagundes Varela, o melancólico Álvares de Azevedo. No Simbolismo, vieram à tona figuras de proa, grandes virtuosos do verso, que encantaram pela musicalidade e fina sensibilidade de suas estrofes: Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, Emiliano Perneta, Onestaldo de Pennafort, Eduardo Guimaraens. No mesmo contexto, coexistindo com as tendências simbolistas, sobressaíram os renomados parnasianos, marcados pela forma exuberante e depurada, Olavo Bilac, Raimundo Corrêa, Alberto de Oliveira, Olegário Mariano. No último século, conturbados períodos assolados por guerras mundiais, avanços técnicos e científicos incalculáveis, graves crises de toda ordem não impediram o surgimento de poetas atentos, vigilantes e ousados, em cujos versos ficaram fixados as reflexões, as mágoas e os protestos de expressivos grupos sociais, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Cecília Meireles, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo.
Surgido no contexto temporal em que se cruzaram as práticas do simbolismo e do parnasianismo, o poeta José Albano (1882-1923) projetou-se como uma espécie de lenda em sua época. Sua importância ultrapassa os limites nacionais, tendo vivido a maior parte da vida na Europa, onde se formou (Inglaterra, França, Áustria, sempre em colégios religiosos). Regressa para Fortaleza em 1896, trabalha com o pai no comércio. Em 1902, segue para o Rio de Janeiro, para cursar Direito. O curso é interrompido em 1904, quando retorna ao Ceará, como professor de letras, ingressando no Ministério de Relações Exteriores, no ano seguinte. Serve no Consulado em Londres (1908 a 1912). Abandona o emprego, entrega-se a um longo périplo pela Europa e Ásia, até comprometer seriamente a saúde. Regressa ao Ceará para se tratar, recupera a razão abalada e volta para a Europa onde falece, cinco anos depois, em Paris. José Guilherme Merquior elimina qualquer ressaibo depreciativo: "Também está na época a lírica de José Albano, cujos sonetos religiosos são inigualáveis até Murilo Mendes, e cuja apreensão dos valores formais do poema é superior à grossa produção parnasiana do tempo" (MERQUIOR, 1965, 172).Para Manuel Bandeira, seria um simbolista: "Pela espiritualidade de sua inspiração, pela musicalidade de sua forma, pela sensibilidade por assim dizer outonal de seus versos, é dentro do quadro simbolista que melhor cabe a sua singular figura" (BANDEIRA, 1967, 167).
São conhecidos os argumentos de Andrade Muricy a respeito da necessidade de estudar e reconhecer os autores aparentemente secundários. “Na verdade, focalizar, no panorama, também os secundários, e os humildes das letras, não é coisa dispensável. Cada vez mais se tornam evidentes a importância documental, a significação sintomática expressiva dos secundários e dos epígonos” (MURICY, 1952, 14). José Albano podia se comparar a um personagem elegante e cosmopolita de Eça de Queirós. Um contemporâneo, Luiz Annibal Falcão, assim descreve um encontro com o poeta, na Europa: “Conheci-o por volta de 1919. Na confusão do após-guerra, nesse Paris invadido pelos estrangeiros, atraídos pelo franco barato, sequiosos de gozo e de prazer, naquele momento dramático de reajustamento geral da vida da cidade, José Albano vivia na bizarra serenidade do seu espírito doente. (…) E por entre a turba elegante e vaidosa, que enchia as ruas de La Paix e de Castiglione e os boulevards, Albano teso, importante, soberbo, considerava aquela humanidade leviana e fútil através do cristal do indefectível monóculo. Vestindo sempre um terno de veludo marrom, que me dizia ser a última moda em Londres, não dispensava as luvas, que de tão gastas lhe mostravam todas as pontas dos dedos, nem a bengala curva de falso junco” (Boletim de Ariel, 1932).
Transcrevo um poema de José Albano:
Cantiga I
Nestes sombrios recantos,
Nestes saudosos retiros
Desliza um rio de prantos
E corre um mar de suspiros.
Volta
Tenho na alma dois moinhos,
Um é de água, outro é de vento;
Ambos juntos e vizinhos,
Estão sempre em movimento.
E giros tantos e tantos
E tantos e tantos giros
Dão ao primeiro os meus prantos
E ao segundo os meus suspiros.
BANDEIRA, Manuel. Antologia dos poetas brasileiros. Poesia da fase simbolista. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967.
FALCÃO, Luiz Annibal. José Albano, o poeta louco. Rio de Janeiro, Boletim de Ariel, 1932, ed. 02, p. 33.
MERQUIOR, José Guilherme. Razão do poema. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1965.
MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista. Rio de Janeiro: Rio de Janeiro: Depto. Imprensa Nacional, 1952, Vol. I.

Olá Edgar, como vai? Sou Anne, da Editora UFMG e estamos precisando entrar em contato com você. Você poderia nos responder no direitosautorais@editora.ufmg.br, por gentileza? Agradeço!
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