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quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Marques Rebelo


Período vastamente registrado em obras literárias, os anos 40 em nossa literatura inscrevem-se como um privilegiado contexto, com produção marcante de autores, que se expressaram nos mais variados gêneros. Afonso Arinos M. Franco, Alceu Amoroso Lima, Augusto F. Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Ciro dos Anjos, Clarice Lispector, Cornélio Pena, Érico Veríssimo, Gilberto Amado, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Jorge de Lima, José Cândido de Carvalho, José Condé, José Lins do Rego, Josué Montello, Lúcio Cardoso, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Otávio de Faria, Rachel de Queirós, muitos protagonistas da saga Espelho partido, de Marques Rebelo são autores relevantes nesse período. A ditadura de Vargas, na segunda fase do Estado Novo, com a guinada nacionalista, incentiva os esforços de autonomia no plano econômico. Apesar da persistência do autoritarismo, consegue manter abertas as fronteiras do país, talvez assessorado pelo Ministro da Educação e da Saúde, Gustavo Capanema num período de intensa onda migratória. Levas de judeus, fugidos à perseguição nazista, encontram guarida no solo brasileiro.



O romance A guerra está em nós, de Marques Rebelo (1907-1973), lançado em 1968, destaca-se como precioso arquivo desta década. Escrito em forma de diário que recobre os anos de 1942 a 1944, a obra de Marques Rebelo elabora um mosaico arejado de uma grande cidade latinoamericana, flagrada em seus anseios e vetores coletivos, sem deixar de recortar os núcleos intensos de vida e pulsões individuais. O Rio de Janeiro pulsa majestoso e autêntico em suas páginas. Integra-se, nesse aspecto, na categoria das melhores experiências fictícias, no afã de registrar, com autonomia de linguagem, a substância da realidade urbana do país. Sobre os fragmentos em zigue-zague que compõem o romance, afirma o narrador, exatamente ao meio da empreitada, no afã de conferir seriedade a um projeto que poderia ser visto como algo esculhambado:

São manchas, algumas de bonita cor, o que eu escrevo e acumulo neste livro caudaloso, manchas soltas, sem contato, sem relação, sem unidade, ilhotas dum arquipélago entre sentimental e maledicente, dirão muitos leitores traídos pela ótica. //Perdão! Deem um passo atrás, um ou dois, e cerrem os olhos, tal como fazem os admiradores de pintura com um tique de ostentação. E, com surpresa, verão que os interstícios são ilusórios, pura habilidade do artista familiarizado com o pincel do pontilhismo, que as manchas, longe de se repelirem, se fundem coesamente num quadro só – o quadro que eu desejo! (REBELO, 2009, 297).

Ninguém se expressaria melhor: os intervalos são enganosos, os escritos assemelham-se aos traços feitos pelo pintor impressionista; os fragmentos, à primeira vista sem relação ou nexo entre si, integram-se coerentemente num esboço planejado: “longe de se repelirem, se fundem coesamente num quadro só”. No ano do lançamento, o autor contava 61 anos, esbanjando uma maturidade intelectual invejável, em plena fruição da capacidade criadora e reflexiva. O tempo focado no romance – os primeiros anos da década de 1940 – reporta obviamente a uma fase de vigor físico do autor. A combinação destes dois fatores – os anos de exuberância física retratados, o modo reflexivo como são vistos – acrescenta à empreitada um toque de mestre: os fragmentos (as manchas) se entrelaçam no relato, de acordo com o gosto estético do autor- “pura habilidade de artista”, “o quadro que eu desejo!”

A estrutura fragmentada, típica do gênero diário, entrelaça elementos de arquivo, em que as partes, os fragmentos datados, acabam por se agregar, em busca de uma autonomia, outorgada ao conjunto. A complexidade do universo urbano, o ar do tempo, os principais eventos da literatura e das artes plásticas, a urgência impactante da grande guerra (navios afundados, soldados brasileiros mortos), o ambiente de denúncia e sectarismo, a rotina do cotidiano carioca, a sensualidade das relações amorosas, tudo isso produz uma nítida impressão de que à literatura se direcionam as vozes dos humilhados e os gritos dos oprimidos.

Considerado superficial por uma parte da crítica, talvez em decorrência do teor zombeteiro de suas obras de ficção, Marques Rebelo deixou marcas na literatura. Nesse arcabouço de recordações, em que insignificantes objetos ou banais portadas de prédios desencadeiam descrições ardorosas de imagens, não rareiam páginas repassadas de pruridos conceituais: “A literatura é um prolongamento escrito de nós mesmos. Nela se refletem as nossas falhas e atavismos, nossos defeitos capitais e veniais, nossas incompreensões e frustrações, apesar do empenho que temos de encobri-los, disfarçá-los, atenuá-los ”(REBELO, 2009, 573). O exaltado talento verbal de Marques Rebelo, reconhecido em unânime pela crítica, encontra aqui sua vitrine especial. O escritor deixa transparecer a estirpe de sua oficina, calibrada pela astúcia narrativa, em longas leituras traquejada, afeita a acolher metáforas ousadas e modos inusitados, coloridos, sensoriais, de compor as cenas e dizer as coisas.

Cem metros além do nosso edifício termina a rua, sem saída, em ângulo quase reto com a montanha, que grimpa em súbito aclive. As edificações são poucas neste trecho, poucas e boas, ricas até, com cuidados jardins ou invejáveis parques que se somam à floresta espessa de lianas, fetos, trepadeiras, sarmentos e corimbos. Nos terrenos sem muros a mataria é um prolongamento da floresta – ipês, quaresmeiras, paineiras, umburanas, embaúbas, sapucaias, palmeiras, mangueiras, onde os caburés gargalham noite feita, jaqueiras, jequitibás, socadas de bananeiras cujos cachos Pérsio vai colher antes que os moleques os encontrem nas vadias incursões com atiradeiras e varapaus. (REBELO, 2009, 248).

Espremido em meio às centenas de personagens, avulta, no entanto, exíguo, o perfil do narrador: “Vagarosa, vagarosamente é que se vai dando forma nestas páginas sem pressa à estátua do homem pequeno que sou eu, limitado, insatisfeito, às vezes perplexo, outras esmagado. Cada dia uma bolinha de barro, mínima, insignificante, mal amassada, cada dia uma, barro ou lama, que redime as mãos impuras, que leva à noite do coração um pequeno raio de sol” (REBELO, 2009, 323).

Os ataques contra o Estado Novo, a princípio combatidos ferozmente pelos aparelhos do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), foram se tornando frequentes a partir da segunda metade da década. Antes, na imprensa do país, quando um entrevistado propunha eleições, ou clamava por uma nova Constituição, acabava sendo preso. Aos poucos, as pressões cresceram e ficou impossível reprimir a oposição, mostrando-se combalido o empenho repressivo do governo. O Congresso de Escritores, em 1945, preconizava que os “homens do pensamento” deviam se posicionar ante os problemas do tempo, ainda mais quando foi sendo notada, de forma mais nítida, a visível coloração fascista do Estado Novo.

A realidade histórica vivida por Marques Rebelo, transfigurada em muitas passagens da saga, confunde-se com a do exausto Mário de Andrade no final de seus dias, a mesma dos combativos e controvertidos Carlos Lacerda e Jorge Amado. Comunistas de um lado, integralistas de outro, políticos tradicionais apoiando as oligarquias rurais, simpatizantes vira-casacas infiltrados nos dois lados, a situação política da época oscilava entre posições extremadas, contraditórias e pontuais. Aos políticos, incomodavam as atitudes reticentes dos intelectuais, instalados aparentemente numa postura ideológica imprecisa. Aos intelectuais, molestavam os excessos de arroubo social de alguns políticos.

A visita do narrador a Mário de Andrade, figura emblemática do Modernismo brasileiro, será contada com sobriedade e vigilante cuidado, deixando transparecer o enlevo do jovem autor, a perplexidade diante de um dos nomes mais representativos da arte brasileira: “Recebeu-me de robe-de-chambre adamascado, numa fresca aura de água-de-colônia, o porte imenso, as mãos imensas, o riso grande e bom” (REBELO, 2009, 130). A variedade de registros, a amplitude do recorte, a fidelidade ao retrato realista, o viés irônico, a recolha de costumes, a consciência de que o novo emerge do uso crítico da tradição, todo um arsenal de recursos e efeitos são convocados numa obra que se pretende capaz de dar uma visão, ainda que distorcida, de um tempo marcado pelas notas sangrentas do extermínio.


Rebelo, Marques. A guerra está em nós. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.


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