Anelito de Oliveira, editor e poeta, não se contenta com a própria
inquietude e descortina, em recente produção, uma forma de
expandi-la, no esforço de compreender a realidade brasileira
contemporânea. E o faz, evidentemente, a partir da bagagem cultural
que foi acumulando, como intelectual vigilante, consciente de que
pode contribuir para fotografar a cidade, em especial “a cidade dos
não-cidadãos, estranha terra dos deserdados da literatura”
(“Manguidau Dois”). A experiência de edição é básica, aliás,
ao integrar em A Menina Chinesa (2019)
o que denomina “relatos”, registros em que se detetam traços de
crônicas, poemas, contos, cantigas, reportagens. A ficção
tem seus limites, suas convenções, o que sobejamente é de seu
conhecimento. Nivelando homens a animais (cães e ratos), prioriza a
militância da escrita e dedica-se a exercícios ficcionais, operando
resíduos da realidade contemporânea, em discursos fragmentados,
laboriosamente articulados em blocos intermitentes e vazados.
Dentre os variados processos disponíveis, acionam-se coordenadas
desconstrucionistas, para arquitetar um mural discursivo, em que
dizer e não dizer surgem interligados, justapostos: a Menina
Chinesa é preta, o urso polar vaga perdido no sertão,
em meio a flashes focados em
aspectos pontuais de uma terrível platitude polarizada, um país
sindicalizado e assaltado. O balaio grotesco da política, num vale
tudo populista em que o miserê se descreve de forma idealizada,
engloba coisas díspares e índices intercambiáveis, em que grupos
antagônicos se confrontam, em arremedo de ações supostamente
redentoras. Coisas, combustíveis, greves e névoas sucedem-se,
inclusive no intento de desconstruir evidências clamorosas,
em tentativa de apagar movimentos sociais que, em tempo recente (as
passeatas de 2013), tentavam extirpar a auréola de um contexto
histórico marcado pela corrupção. Assim, a despeito da
ambiguidade, atributo essencial de qualquer manifestação
artística. Um deslize com o risco de deixar a marca de algo datado.
Nem tudo, no entanto, é
manipulação ideológica. Naquele relato que se inscreve como o
ponto alto da literariedade, “As escrituras irreveláveis”,
reencontramos o sumo da elaboração poética, a espessura enigmática
dos bons textos, enfim. O discurso humanista busca legitimar-se
através de referências à periferia, numa versão
edênica. “Diviso o gosto de domingo que tem todo subúrbio. Não
vejo gente pelas ruas, mas entendo que todos são felizes. A paz dos
subúrbios!” Misturado à “filosofia da urina”, erigida como
estratégia de mediação, o interesse ancora-se numa indignada,
irônica e tímida proposta, - a “necessidade de uma hoje de uma
literatura fétida, com sabor de urina?” Ainda que apenas sugerida,
permanece, indecifrável, a figura humana, flagrada em sua busca
atemporal: “Sem saber-lhes a alma, diviso meus irmãos que me
divisam. Um é sorriso e outro é vulto. Sei que eles queriam me
acenar na direção em que se encontra o que procuro, e de que até
sinto o peso da falta.”
OLIVEIRA, Anelito. A
Menina Chinesa. Belo Horizonte:
Páginas Ed., 2019.

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