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sexta-feira, 17 de julho de 2020

Anelito de Oliveira


       Anelito de Oliveira, editor e poeta, não se contenta com a própria inquietude e descortina, em recente produção, uma forma de expandi-la, no esforço de compreender a realidade brasileira contemporânea. E o faz, evidentemente, a partir da bagagem cultural que foi acumulando, como intelectual vigilante, consciente de que pode contribuir para fotografar a cidade, em especial “a cidade dos não-cidadãos, estranha terra dos deserdados da literatura” (“Manguidau Dois”). A experiência de edição é básica, aliás, ao integrar em A Menina Chinesa (2019) o que denomina “relatos”, registros em que se detetam traços de crônicas, poemas, contos, cantigas, reportagens. A ficção tem seus limites, suas convenções, o que sobejamente é de seu conhecimento. Nivelando homens a animais (cães e ratos), prioriza a militância da escrita e dedica-se a exercícios ficcionais, operando resíduos da realidade contemporânea, em discursos fragmentados, laboriosamente articulados em blocos intermitentes e vazados.



       Dentre os variados processos disponíveis, acionam-se coordenadas desconstrucionistas, para arquitetar um mural discursivo, em que dizer e não dizer surgem interligados, justapostos: a Menina Chinesa é preta, o urso polar vaga perdido no sertão, em meio a flashes focados em aspectos pontuais de uma terrível platitude polarizada, um país sindicalizado e assaltado. O balaio grotesco da política, num vale tudo populista em que o miserê se descreve de forma idealizada, engloba coisas díspares e índices intercambiáveis, em que grupos antagônicos se confrontam, em arremedo de ações supostamente redentoras. Coisas, combustíveis, greves e névoas sucedem-se, inclusive no intento de desconstruir evidências clamorosas, em tentativa de apagar movimentos sociais que, em tempo recente (as passeatas de 2013), tentavam extirpar a auréola de um contexto histórico marcado pela corrupção. Assim, a despeito da ambiguidade, atributo essencial de qualquer manifestação artística. Um deslize com o risco de deixar a marca de algo datado.
       Nem tudo, no entanto, é manipulação ideológica. Naquele relato que se inscreve como o ponto alto da literariedade, “As escrituras irreveláveis”, reencontramos o sumo da elaboração poética, a espessura enigmática dos bons textos, enfim. O discurso humanista busca legitimar-se através de referências à periferia, numa versão edênica. “Diviso o gosto de domingo que tem todo subúrbio. Não vejo gente pelas ruas, mas entendo que todos são felizes. A paz dos subúrbios!” Misturado à “filosofia da urina”, erigida como estratégia de mediação, o interesse ancora-se numa indignada, irônica e tímida proposta, - a “necessidade de uma hoje de uma literatura fétida, com sabor de urina?” Ainda que apenas sugerida, permanece, indecifrável, a figura humana, flagrada em sua busca atemporal: “Sem saber-lhes a alma, diviso meus irmãos que me divisam. Um é sorriso e outro é vulto. Sei que eles queriam me acenar na direção em que se encontra o que procuro, e de que até sinto o peso da falta.”


OLIVEIRA, Anelito. A Menina Chinesa. Belo Horizonte: Páginas Ed., 2019.

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