Acabo
de ler uma obra-prima da ficção brasileira, Os tambores de São
Luís. Com mais de seiscentas
páginas, o romance de Josué Montello flagra um contexto alargado,
da segunda metade do século XIX, às primeiras décadas do século
XX. Visto em perspectiva desdobrável, recobre um arco temporal mais
distendido, procede de tempos mais retardados, dos anos sessenta do
século XVII até os dias de hoje. Três séculos de escravidão no
Brasil, revoltas,
vicissitudes e tragédias, o sofrido processo de assimilação
racial, em que o negro integra-se como indissociável componente da
cultura brasileira, com sua
indolente sensualidade. Em
cuidadosa reconstituição da época, apresenta-nos a cidade de São
Luís esplendente de vida colonial, sobrados azulejados e vibrantes
paixões. Com artérias de nomes saborosos, Rua das Cajazeiras, Rua
da Cotovia, Praia do Jenipapeiro, Rua do Horto, Largo do Quartel, Rua
do Navio, Beco das Crioulas. A
saga de Damião, um escravo que se torna, por conta do empenho
individual, síntese de todo esse sofrido processo.
Alguns
méritos do romance de Montello: a linguagem polida, elegante,
ajustada ao assunto, recuperando expressões pitorescas, antigas
formas de linguagem. Algumas expressões, bastante reiteradas,
tornam-se
enfadonhas, como “as
pálpebras apertadas” (p.
189), “sobrancelhas
travadas”(p. 194, p. 287,
p. 490), “sobrancelhas
contraídas” (p.316, p.
323), “travou de pronto as
sobrancelhas” (p.316)
“sobrancelhas crispadas”
(p.323) “preto forte,
espadaúdo” (p.181).
A
intriga evolui de forma lenta, assentada numa concepção um tanto
folhetinesca de narrativa.
Dentre as sentenças subsidiárias da moldura, delineia-se a nitidez
da visualidade: os cenários
recortam-se num enquadramento teatral. O suporte descritivo erige-se
com desdobrado
interesse pelos detalhes, em que os mínimos elementos e objetos se
nomeiam, dando relevo a uma espessura tátil e plástica: “… se
dispusesse melhor os bregueços e santos ali deixados, poderia abrir
a janela, arejando o aposento, e ter espaço para armar sua rede”
(MONTELLO, 1985, 160): “Na rua (…) via negros com máscaras de
flandres, e se apiedava deles. Mais revoltado se sentia, quando dava
com eles atados por uma corrente de ferro, a caminho da Praia
Grande” (MONTELLO, 1985, 235).
No
final do relato, relata-se o encontro auspicioso de Damião, o
líder dos negros, com a
figura emblemática da poesia maranhense do contexto simbolista, o
poeta Sousândrade: “Agora, ali estava, ainda intimidado pela
figura aristocrática, de mãos finas, cabelos lisos já grisalhos,
um lume de candura nas pupilas azuis” (MONTELLO,1985, 539).
Recorta-se, então, uma outra São Luís, a dos poetas, do
porte de Gonçalves Dias,
Odorico Mendes, não mais o lugar do sofrimento dos negros, mas
uma cidade altiva, espraiada
diante do mar, orgulhosa de sua
arquitetura, seus poetas e
músicos.
MONTELLO,
Josué. Os tambores de São Luís. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Ainda não li. Vou de carona e de olhos fechados. Aplico-lhe o carimbo: PODE CONFIAR. A indicação é de quem sabe o que diz. Edgard Pereira, afinal, é um mestre. A escolha, aqui, é feita com precisão cirúrgica. Quem não leu, e eu sou um deles, deve agradecer a indicação. É o que faço. Obrigado, Edgard! À leitura, pois.
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