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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Josué Montello

Livro do mês:



      Acabo de ler uma obra-prima da ficção brasileira, Os tambores de São Luís. Com mais de seiscentas páginas, o romance de Josué Montello flagra um contexto alargado, da segunda metade do século XIX, às primeiras décadas do século XX. Visto em perspectiva desdobrável, recobre um arco temporal mais distendido, procede de tempos mais retardados, dos anos sessenta do século XVII até os dias de hoje. Três séculos de escravidão no Brasil, revoltas, vicissitudes e tragédias, o sofrido processo de assimilação racial, em que o negro integra-se como indissociável componente da cultura brasileira, com sua indolente sensualidade. Em cuidadosa reconstituição da época, apresenta-nos a cidade de São Luís esplendente de vida colonial, sobrados azulejados e vibrantes paixões. Com artérias de nomes saborosos, Rua das Cajazeiras, Rua da Cotovia, Praia do Jenipapeiro, Rua do Horto, Largo do Quartel, Rua do Navio, Beco das Crioulas. A saga de Damião, um escravo que se torna, por conta do empenho individual, síntese de todo esse sofrido processo.
      Alguns méritos do romance de Montello: a linguagem polida, elegante, ajustada ao assunto, recuperando expressões pitorescas, antigas formas de linguagem. Algumas expressões, bastante reiteradas, tornam-se enfadonhas, como “as pálpebras apertadas” (p. 189), “sobrancelhas travadas”(p. 194, p. 287, p. 490), “sobrancelhas contraídas” (p.316, p. 323), “travou de pronto as sobrancelhas” (p.316)sobrancelhas crispadas” (p.323) “preto forte, espadaúdo” (p.181).
      A intriga evolui de forma lenta, assentada numa concepção um tanto folhetinesca de narrativa. Dentre as sentenças subsidiárias da moldura, delineia-se a nitidez da visualidade: os cenários recortam-se num enquadramento teatral. O suporte descritivo erige-se com desdobrado interesse pelos detalhes, em que os mínimos elementos e objetos se nomeiam, dando relevo a uma espessura tátil e plástica: “… se dispusesse melhor os bregueços e santos ali deixados, poderia abrir a janela, arejando o aposento, e ter espaço para armar sua rede” (MONTELLO, 1985, 160): “Na rua (…) via negros com máscaras de flandres, e se apiedava deles. Mais revoltado se sentia, quando dava com eles atados por uma corrente de ferro, a caminho da Praia Grande” (MONTELLO, 1985, 235).
      No final do relato, relata-se o encontro auspicioso de Damião, o líder dos negros, com a figura emblemática da poesia maranhense do contexto simbolista, o poeta Sousândrade: “Agora, ali estava, ainda intimidado pela figura aristocrática, de mãos finas, cabelos lisos já grisalhos, um lume de candura nas pupilas azuis” (MONTELLO,1985, 539). Recorta-se, então, uma outra São Luís, a dos poetas, do porte de Gonçalves Dias, Odorico Mendes, não mais o lugar do sofrimento dos negros, mas uma cidade altiva, espraiada diante do mar, orgulhosa de sua arquitetura, seus poetas e músicos.

MONTELLO, Josué. Os tambores de São Luís. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


2 comentários:

  1. Ainda não li. Vou de carona e de olhos fechados. Aplico-lhe o carimbo: PODE CONFIAR. A indicação é de quem sabe o que diz. Edgard Pereira, afinal, é um mestre. A escolha, aqui, é feita com precisão cirúrgica. Quem não leu, e eu sou um deles, deve agradecer a indicação. É o que faço. Obrigado, Edgard! À leitura, pois.

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