Há trabalhos e pesquisas que necessitam ser feitos, nem que, para
tanto, se apresentem apenas operários de segunda ordem, mais para
anspeçadas que para tenentes de fato. A crítica literária seria
um deles. Exige conhecimento da área, reflexão, paciência, cultura
geral dilatada, rudimentos de linguística, formação histórica,
capacidade de extrapolação e comparações, atenção aos
lançamentos, além de qualificação mínima: saber escrever. Sem
esquecer a perseverança, ou melhor, a tenacidade.
Todo contexto cultural emancipado necessita da presença de (pelo
menos) um crítico literário polêmico, que produza intempestivas
análises demolidoras na imprensa. Na verdade, pode-se medir a
espessura cultural de uma época pelo número de críticos que
apresenta. No passado, o Brasil produziu grandes nomes, e serão
citados analistas renomados, independente de serem ou não polêmicos - como
Agripino Grieco, Alceu Amoroso Lima, Oscar Mendes, Brito Broca, Augusto Meyer, Sérgio Milliet, Álvaro Lins, mais recentemente, Hélio Pólvora,
Eduardo Portella, Léo Gilson Ribeiro, Nogueira Moutinho, José Guilherme Merquior, Antônio
Cândido, Antônio Houaiss, Nelly Novaes Coelho, Massaud Moisés, Wilson Martins. No Brasil de hoje,
esse profissional altamente qualificado inexiste. Por vezes, um ou
outro pesquisador, geralmente oriundo da academia, rompe a barreira
do olvido e expressa comentários consistentes na grande imprensa a
respeito de literatura, entre outros, Alcir Pécora, Antônio Carlos
Sechin, Silviano Santiago, Affonso Romano de Santana, Gilberto
Mendonça Teles, Luís Costa Lima. No terreno da ficção, resulta
desse vazio cultural o fato de muitos autores que se dizem jovens,
embora já ultrapassem os cinquenta anos, se reivindicarem o direito
de darem as cartas no contexto. Em literatura o antipoder importa
mais que o poder presumido. No âmbito das letras, a idade não
constitui um índice de acesso ao famigerado rol das obras canônicas.
Rimbaud, antes dos vinte anos, já havia escrito os poemas que até
hoje suscitam elogios e acurado estudo.
(Retorno ao tema, duas semanas depois. Cabe referir a propósito o reparo que, no Diário da noite iluminada, formula Josué Montello, debatendo o desaparecimento de militantes da crítica literária:
"Há aproximadamente trinta anos, numa conferência na Academia Mexicana de la Lengua, o crítico espanhol Guillermo Diaz-Plaza anunciava enfaticamente que a crítica literária, na Espanha, havia falecido.
Dois fatos capitais, no dizer do mesmo mestre, a teriam levado à sepultura: de um lado, o pouco espaço que, na imprensa corrente, se destinava ao exercício de suas funções intelectuais; de outro lado, o tom geral de compromisso amistoso que a caracterizava nos últimos tempos.
Presentemente, se me permitem o acréscimo, teríamos uma razão a mais para as exéquias da crítica: algumas correntes da crítica universitária, que a transformaram num vocabulário de professores, para uso das salas de aula, e que daí transborda para o livro, a monografia e a colaboração episódica na grande imprensa.
Não digo isto por preconceito ou menosprezo, visto que sou também professor. Digo-o para evidenciar uma situação real, que já tem, pelo fluxo do tempo, e as transformações de postura e método, o seu dimensionamento de ordem histórica" (MONTELLO, 1994, 209-210).
Alguma coisa do que acima disse aproxima-se do que diz Montello, citando Guillermo Diaz-Plaza, especialmente quando este releva "o tom geral de compromisso amistoso que a caracterizava nos últimos tempos".)
(Retorno ao tema, duas semanas depois. Cabe referir a propósito o reparo que, no Diário da noite iluminada, formula Josué Montello, debatendo o desaparecimento de militantes da crítica literária:
"Há aproximadamente trinta anos, numa conferência na Academia Mexicana de la Lengua, o crítico espanhol Guillermo Diaz-Plaza anunciava enfaticamente que a crítica literária, na Espanha, havia falecido.
Dois fatos capitais, no dizer do mesmo mestre, a teriam levado à sepultura: de um lado, o pouco espaço que, na imprensa corrente, se destinava ao exercício de suas funções intelectuais; de outro lado, o tom geral de compromisso amistoso que a caracterizava nos últimos tempos.
Presentemente, se me permitem o acréscimo, teríamos uma razão a mais para as exéquias da crítica: algumas correntes da crítica universitária, que a transformaram num vocabulário de professores, para uso das salas de aula, e que daí transborda para o livro, a monografia e a colaboração episódica na grande imprensa.
Não digo isto por preconceito ou menosprezo, visto que sou também professor. Digo-o para evidenciar uma situação real, que já tem, pelo fluxo do tempo, e as transformações de postura e método, o seu dimensionamento de ordem histórica" (MONTELLO, 1994, 209-210).
Alguma coisa do que acima disse aproxima-se do que diz Montello, citando Guillermo Diaz-Plaza, especialmente quando este releva "o tom geral de compromisso amistoso que a caracterizava nos últimos tempos".)
Depois da avalanche do conto mineiro dos anos 70/80, após a ficção
urbana dos anos 90, do século passado, pouca coisa surgiu digna de
nota. Na grande maioria, vemos hoje no país autores de obras
medíocres, algumas com ramificações ideológicas inconsistentes,
pretensiosas, autores que insistem em se considerarem eternas
promessas literárias. O que avariou boa parte dos escritores
recentes foi a imaturidade literária, o desconhecimento de valores
tradicionais, a falta de qualidade do produto, além de um
conhecimento artificial, pela rama, do que seriam os pressupostos da
verdadeira obra literária. Numa época em que os tradicionais
balanços literários, espera-se, costumam ser feitos, parece não
haver muita coisa a comemorar.
MONTELLO, Josué. Diário da noite iluminada 1977- 1985. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

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