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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A atual cena literária



       Há trabalhos e pesquisas que necessitam ser feitos, nem que, para tanto, se apresentem apenas operários de segunda ordem, mais para anspeçadas que para tenentes de fato. A crítica literária seria um deles. Exige conhecimento da área, reflexão, paciência, cultura geral dilatada, rudimentos de linguística, formação histórica, capacidade de extrapolação e comparações, atenção aos lançamentos, além de qualificação mínima: saber escrever. Sem esquecer a perseverança, ou melhor, a tenacidade.
       Todo contexto cultural emancipado necessita da presença de (pelo menos) um crítico literário polêmico, que produza intempestivas análises demolidoras na imprensa. Na verdade, pode-se medir a espessura cultural de uma época pelo número de críticos que apresenta. No passado, o Brasil produziu grandes nomes, e serão citados analistas renomados, independente de serem ou não polêmicos - como Agripino Grieco, Alceu Amoroso Lima, Oscar Mendes, Brito Broca, Augusto Meyer, Sérgio Milliet, Álvaro Lins, mais recentemente, Hélio Pólvora, Eduardo Portella, Léo Gilson Ribeiro, Nogueira Moutinho, José Guilherme Merquior, Antônio Cândido, Antônio Houaiss, Nelly Novaes Coelho, Massaud Moisés, Wilson Martins. No Brasil de hoje, esse profissional altamente qualificado inexiste. Por vezes, um ou outro pesquisador, geralmente oriundo da academia, rompe a barreira do olvido e expressa comentários consistentes na grande imprensa a respeito de literatura, entre outros, Alcir Pécora, Antônio Carlos Sechin, Silviano Santiago, Affonso Romano de Santana, Gilberto Mendonça Teles, Luís Costa Lima. No terreno da ficção, resulta desse vazio cultural o fato de muitos autores que se dizem jovens, embora já ultrapassem os cinquenta anos, se reivindicarem o direito de darem as cartas no contexto. Em literatura o antipoder importa mais que o poder presumido. No âmbito das letras, a idade não constitui um índice de acesso ao famigerado rol das obras canônicas. Rimbaud, antes dos vinte anos, já havia escrito os poemas que até hoje suscitam elogios e acurado estudo.
         (Retorno ao tema, duas semanas depois. Cabe referir a propósito o reparo que, no Diário da noite iluminada, formula Josué Montello, debatendo o desaparecimento de militantes da crítica literária:

          "Há aproximadamente trinta anos, numa conferência na Academia Mexicana de la Lengua, o crítico espanhol Guillermo Diaz-Plaza anunciava enfaticamente que a crítica literária, na Espanha, havia falecido.
         Dois fatos capitais, no dizer do mesmo mestre,  a teriam levado à sepultura: de um lado, o pouco espaço que, na imprensa corrente, se destinava ao exercício de suas funções intelectuais; de outro lado, o tom geral de compromisso amistoso que a caracterizava nos últimos tempos.
          Presentemente, se me permitem o acréscimo, teríamos uma razão a mais para as exéquias da crítica: algumas correntes da crítica universitária, que a transformaram num vocabulário de professores, para uso das salas de aula, e que daí transborda para o livro, a monografia e a colaboração episódica na grande imprensa.
         Não digo isto por preconceito ou menosprezo, visto que sou  também professor. Digo-o para evidenciar uma situação real, que já tem, pelo fluxo do tempo, e as transformações de postura e método, o seu dimensionamento de ordem histórica" (MONTELLO, 1994, 209-210).

           Alguma coisa do que acima disse aproxima-se do que diz Montello, citando Guillermo Diaz-Plaza, especialmente quando este releva "o tom geral de compromisso amistoso que a caracterizava nos últimos tempos".)
           
        Depois da avalanche do conto mineiro dos anos 70/80, após a ficção urbana dos anos 90, do século passado, pouca coisa surgiu digna de nota. Na grande maioria, vemos hoje no país autores de obras medíocres, algumas com ramificações ideológicas inconsistentes, pretensiosas, autores que insistem em se considerarem eternas promessas literárias. O que avariou boa parte dos escritores recentes foi a imaturidade literária, o desconhecimento de valores tradicionais, a falta de qualidade do produto, além de um conhecimento artificial, pela rama, do que seriam os pressupostos da verdadeira obra literária. Numa época em que os tradicionais balanços literários, espera-se, costumam ser feitos, parece não haver muita coisa a comemorar.


MONTELLO, Josué. Diário da noite iluminada 1977- 1985. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

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