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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Rodrigo Lacerda


Livro do mês:

      A república das abelhas


      Carlos Lacerda (1914-1977) ocupa, na história do Brasil dos anos 1930 a 1960, um papel importante, um lugar incontornável no complexo xadrez político. Sua atuação como tribuno corajoso e destemido, capaz de aglutinar forças contrárias a Getúlio Vargas, já seria um feito grandioso. Para muitos, sua luta por transparência e democracia, em tempos de presidencialismo exacerbado, com sinais de corrupção, estaria na origem do desfecho trágico assumido por Getúlio, ao se matar em 24 de outubro de 1956. A capacidade de enfrentar a corrente, correndo riscos extremos, sem desistir ou abandonar os princípios nos quais acreditava, transparece no perfil acalorado, esboçado por Rodrigo Lacerda, neste admirável romance histórico, A república das abelhas. A carreira do controvertido homem público, presença marcante do debate político da época, está na base do perfil densamente abordado pelo narrador  póstumo, em primeira pessoa, o próprio Carlos Lacerda. O título refere o frenesi em torno da colmeia, metáfora sobre os vários grupos lutando pelo poder na primeira metade do século. 


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      Um dos pontos altos - infelizmente, reduzido, num tijolo de 515 páginas - constitui o capítulo "Bananas e matemáticas". O tema aí restringe-se à sumária aproximação entre o jovem Carlos Lacerda e o poeta paulista Mário de Andrade. O tom adotado, irônico, sutil e metafórico, perpassa todo o episódio; reporta-se aos anos 1938-1941, que correspondem ao exílio carioca de Mário de Andrade, após ser demitido, em 1937, do Departamento de Cultura da prefeitura de São Paulo. Muitos historiadores assinalam o efeito destruidor, pessimista, deste período na atuação do autor de Pauliceia desvairada. Afirma o narrador: "Durante esses poucos anos, o tom descontraído da sociabilidade lhe fez bem. Apesar de ser vinte anos mais velho que nós, o Mário gostava de conviver com os mais jovens, então eu e meus colegas de certa forma o adotamos, ou fomos adotados por ele" (LACERDA, 2013, 355-256). Nas conversas, o assunto delineia-se em torno da função social da arte, o compromisso social do escritor. Mário lhe confessa a turbulência que envolveu a escrita do poema "O carro da miséria", reformulado em três momentos posteriores. Lacerda registra as contradições em que se movimentava: apesar de comunista, colaborava em revistas financiadas pelo capitalismo (Diretrizes, bancada pela Light): justifica-se afirmando que precisava sobreviver, com filhos para criar -"bananas" denota alimento; "matemáticas" corrobora finanças. Quando associa o conceito de felicidade ao de justiça, Mário de Andrade retruca de forma irônica: "Mas onde está a justiça? A Justiça é uma velha ceguinha, que inscreve na sua militaríssima ordem do dia: 'Hoje todos terão de gostar de matemáticas com bananas'. A arbitrariedade de qualquer noção de justiça humana é fatal, estou convencido de que é fatal" (LACERDA, 2013, 357). O narrador transcreve um diálogo com Mário de Andrade. O político defende que a a arte deve ter uma função social.  Para Mário, a função social deveria decorrer do fato de a arte ("manifestação extrema da inteligência")  proceder de um ser humano: 
      "O que eu quero, o que eu amo, o que eu não renego, é a sublime safadeza da inteligência humana. O despudor, a mentira, o pragmatismo da arte. Ao supremo blefe, a justiça, não será apenas melhor o jardinzinho de cada um, aquilo em que somos um: o indivíduo?"
      "Isso iria acaber com o papel social da arte. Ela teria tanta importância quanto uma laranja podre na feira". 
      "Não me interessa o laranjismo da arte, mas a humanidade da arte. Aquilo em que ela não é nem Rilke nem matemáticas, não é champanhe nem bananas, mas simplesmente tudo isso. Um direito, um exercício de todos nós". 
      "Claro que a arte é um direito!"
      "Sim, mas não no sentido político. A arte é simplesmente humana. Respirar é uma necessidade, como o exercício cotidiano da arte. É uma harmonia do ser. Não importa que os outros fiquem sendo os Camões e os Shakespeares. Ninguém deixa de respirar só porque não tem tromba de elegante" (LACERDA, 2013, 357-358).
      A ficcionalização da vida inflamada do político termina antes de 1954, antes que a luta contra Juscelino Kubitschek e Goulart viesse à tona com veemência. Ficam fora duas passagens da vida de Carlos Lacerda: a atuação como governador da Guanabara (1960-1965) e sua ligação com o golpe militar de 1964.  

                                                    (Rodrigo Lacerda: oglobo.globo.com)


LACERDA, Rodrigo. A república das abelhas. São Paulo: Companhia das letras, 2013.

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