Filho
de Vivaldi Moreira (1912-2001), forte referência das letras em Minas
Gerais (dinâmico presidente da AML, memorialista renomado, em O Menino da mata e o seu cão piloto),
Pedro Rogério terá herdado do pai o gosto da leitura e o amor aos
livros. Desse quadro, ainda
que por desdobramentos difusos, se poderá dizer que o fator genético
não foi rompido. Também
integrante da Academia
Mineira de Letras, tem-se destacado como ficcionista (Bela
noite para voar) e memorialista,
com mais de uma dezena de títulos, dentre
os quais, Hidrografia sentimental, Jornal
amoroso, Amor a Roma, e
o mais recente, Diário da falsa cruz de Caravaca.
Miscelânea
de assuntos, irregular, o
último título recolhe crônicas jornalísticas, registros
autobiográficos e casos pitorescos, ocorridos na região amazônica,
sendo alguns marcados pela fatalidade de acidentes que ceifaram a
vida de pilotos. Recordações
de companheiros desaparecidos, fixação de perfis humanos,
instantâneos da rotina da
redação um grande jornal
misturam-se a casos
de rios, igarapés, curimatãs, flagrados nas “perambeiras de
Taguatinga” ou ao longo do
rio Madeira, coalhado de borboletas amarelas.
“A
Amazônia leva a fama histórica de ser valhacouto de aproveitadores.
Volta e meia aparece um sabichão para nos passar a manta. A região
ainda está envolta num quê de mistério que conspira contra nossa
inteligência e facilita os que tiram dela mau proveito. A literatura
e o cinema ajudam muito a mistificação, quando falam de elos
partidos e de eldorados” (MOREIRA, 2018, 150).
O
tom coloquial e a linguagem viva, colorida,
eivada de expressões
regionais, transferem aos
relatos um halo de aventura partilhada e de calor humano. Referências
à agenda “Pombo”, ao cigarro
“Mistura Fina”, ao pente “Flamengo de bordas curvas”
entrecruzam-se à cerveja “Malzbier”, ao perfume “Lancaster” e ao avião "Catalina, conhecido como pata-choca" dos ares.
Dentre as evocações, numa
perspectiva literária, avulta o registro de uma temporada
inesquecível, no barco Carvajal, cruzando
rios da região amazônica,
em companhia do escritor Mário Palmério. O autor dos “célebres
romances Vila dos Confins e
O chapadão do bugre” discorre
sobre a “recente expedição que empreendera ao rio Javari, lá
onde Judas perdeu as botas”. Diversão
garantida, entremeada de notas marotas, picantes, de informes verdadeiros de uma região que suscita a curiosidade de
milhares de pessoas, em todos
os quadrantes.
MOREIRA,
Pedro Rogério. Diário da falsa cruz de Caravaca.
Brasília: Thesaurus, 2018.

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