Durante os últimos dias, li Solo de clarineta 2, de Érico
Veríssimo (1905-1975), signatário de uma das mais importantes sagas
romanescas da literatura brasileira, O tempo e o vento. O
volume, publicado um ano após a morte do autor, incorpora as
memórias relativas às viagens, integrando as notas esparsas,
encontradas nos esboços e últimos projetos, algumas escritas nos
EUA e na Europa. Dito assim, dá uma impressão neutra e fria da
densa atmosfera humana que perpassa a escrita deste livro. A viagem
aos EUA deve-se ao desejo de conhecer os netos que ali nascem, da
filha recém-casada com um judeu americano, moradora em Washington. A
viagem à Península Ibérica recolhe provavelmente as impressões de
outras viagens (uma patrocinada por editores) feitas à Europa: numa
delas foi alvo de algumas homenagens, à medida em que se desloca no
solo português. As impressões sobre a Espanha são fortemente
marcadas pela busca das lembranças e lugares onde viveu o poeta
Federico Garcia Lorca. Um breve capítulo, no final, apresenta uma
rápida incursão à Holanda.
(Imagem: gauchazh.clicrbs.com.br)
Romancista consagrado, com uma notável sequência de sucessos
literários – os romances urbanos (década de 30 e 40) e os
romances históricos (anos 40 a 60), - em Solo de clarineta 2,
o autor delineia os eventos que pontuaram a visita a
algumas cidades portuguesas (Faro, Setúbal, Amarante, Barcelos,
Lagos, Santarém, Vila Real, Évora, Lisboa, dentre outras),
configurando o núcleo mais significativo da matéria, um apreciável
roteiro cultural e turístico. Alguns fatores concorrem para o
merecido e crescente rol de manifestações de apreço recebidas.
Érico Veríssimo colhe os frutos de uma carreira de inegável
consagração popular, acrescida pelo entusiasmo do embaixador
brasileiro, e crítico literário de méritos, Álvaro Lins, que o
recebe em salões lotados de grandes nomes da cultura lusa. Por trás
da maratona de deslocamentos, noites de autógrafos, jantares e
conferências, move-se, em surdina, um conflito entre um elenco de
intelectuais e o poder salazarista, com lances de marketing dos
dois lados, na disputa pelo patrocínio da presença do autor gaúcho
em Portugal. O autor brasileiro procura evadir-se dos compromissos
oficiais, mas nem sempre consegue se desvencilhar das benesses das
instituições. Nesse ponto o leitor fica com um pé atrás. Por mais
que afirme sua autonomia e defenda as liberdades individuais, não
consegue livrar-se totalmente dos afagos emanados da sólida
estrutura do poder ditatorial. Dirigido pelo editor português Souza
Pinto, o BMW atravessa o mapa de Portugal, numa cronometrada viagem
promocional, gozando de uma assessoria de alto nível por conta de
Jorge de Sena. Érico Veríssimo sente-se à vontade no contato com
populares que lhe solicitam autógrafos e fotos.
“Surgem duas mulheres com braçadas de flores para Mafalda. Quem
serão? Alguém me sussurra ao ouvido que se trata da irmã e da
sobrinha de Teixeira de Pascoais. Minha companheira recebe as flores,
desce do carro. Fazemos o mesmo. Somos conduzidos a um prédio que
minha memória não consegue identificar. Numa de suas salas vemos
uma mesa com travessas cheias de doces, cálices e garrafas. Mafalda,
Jorge e Luís Fernando provam dos doces, garantem-me que são
excelentes. Souza Pinto acende seu cachimbo. Beberico um cálice de
Porto. A irmã de Teixeira Pascoais está com os olhos cheios de
lágrimas. O grande poeta e ensaísta português faleceu há uns sete
anos. Souza Pinto olha o relógio-pulseira. Um cidadão de Amarante
nos saúda com um discurso cheio de palavras generosas para com os
apressados visitantes da noite. Ao agradecer a recepção, sinto-me
no dever de falar sobre Teixeira de Pascoais, o que não me é nada
fácil, pois embora eu saiba da grande importância desse escritor na
literatura de língua portuguesa, não posso honestamente afirmar que
lhe conheço a obra a fundo. Souza Pinto dá o sinal de partida. Para
chegar até ao automóvel levo mais tempo do que esperava, pois no
caminho sou interrompido várias vezes para autografar livros meus
trazidos por alguns amarantinos. Distribuímos apertos de mão e
abraços de despedidas. Se vamos voltar? Um dia… quem sabe?
Entramos no veículo, que se põe em movimento. Volto a cabeça para
trás. Várias pessoas nos acenam com lenços e mãos, do meio da
rua. Amarante… Sei que esta é a cidade portuguesa onda na
antiguidade viviam as mais ilustres famílias judias que a partir do
século XIII foram forçadas a converter-se ao catolicismo para fugir
às perseguições, às torturas e frequentemente à morte. Em sua
maioria continuaram a praticar sua religião às escondidas. Eram
conhecidos pelo nome depreciativo de marranos, isto é, porcos
imundos. Esta cidade foi um dos maiores viveiros de ‘cristãos
novos’ de Portugal” (VERÍSSIMO, 1986, 182).
Como ocorre no território ficcional, o autor revela uma grande dose
de compreensão do ser humano, de um intelectual disposto a
compreender o mundo. “… em vez de estar descrevendo neste livro
apenas meu encontro com a terra e a gente portuguesas, eu gostaria de
poder também contar de como, com audácia e bravura, consegui
sublevar algumas guarnições militares nacionais e a maioria do povo
português contra o governo de Oliveira Salazar, derrubando-o e
estabelecendo a democracia em Portugal” (VERÍSSIMO, 1986, 235).
Mesmo em se tratando de uma escrita que, por natureza, muito releva
da postura subjetiva, não são banidas as digressões irônicas, o
apelo reformista e uma acesa consciência crítica:
“O perigo das memórias está no fato de que, com raras exceções,
o memorialista, como a maioria dos outros homens, tem um grande
apreço, amor e admiração pelo seu próprio eu: acha que
tudo quanto lhe acontece é digno de ser contado, oralmente ou por
escrito, em prosa ou verso, e que o leitor ou ouvinte tem de estar
necessariamente muito interessado na vida do narrador – isto é, do
herói, em tudo quanto ele viu, fez, pensou, disse, ouviu, sentiu…
Nunca é tarde demais para uma confissão. Uma das razões que por
muito tempo me impediram de escrever memórias foi o temor de
resvalar para essa ridícula autovalorização. Estou certo de que ao
escrever estas páginas não me livrei de todos os pecadilhos que
mencionei” (VERÍSSIMO, 1986, 235).
VERÍSSIMO, Érico. Solo do clarineta 2. 7a. ed.
Rio de Janeiro: Ed. Globo, 1986.
Clique aqui para adquirir.


Nenhum comentário:
Postar um comentário