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domingo, 4 de março de 2018

Érico Veríssimo

Livro do mês: Solo de clarineta 2


      Durante os últimos dias, li Solo de clarineta 2, de Érico Veríssimo (1905-1975), signatário de uma das mais importantes sagas romanescas da literatura brasileira, O tempo e o vento. O volume, publicado um ano após a morte do autor, incorpora as memórias relativas às viagens, integrando as notas esparsas, encontradas nos esboços e últimos projetos, algumas escritas nos EUA e na Europa. Dito assim, dá uma impressão neutra e fria da densa atmosfera humana que perpassa a escrita deste livro. A viagem aos EUA deve-se ao desejo de conhecer os netos que ali nascem, da filha recém-casada com um judeu americano, moradora em Washington. A viagem à Península Ibérica recolhe provavelmente as impressões de outras viagens (uma patrocinada por editores) feitas à Europa: numa delas foi alvo de algumas homenagens, à medida em que se desloca no solo português. As impressões sobre a Espanha são fortemente marcadas pela busca das lembranças e lugares onde viveu o poeta Federico Garcia Lorca. Um breve capítulo, no final, apresenta uma rápida incursão à Holanda.

                                              (Imagem: gauchazh.clicrbs.com.br)

      Romancista consagrado, com uma notável sequência de sucessos literários – os romances urbanos (década de 30 e 40) e os romances históricos (anos 40 a 60), - em Solo de clarineta 2, o autor delineia os eventos que pontuaram a visita a algumas cidades portuguesas (Faro, Setúbal, Amarante, Barcelos, Lagos, Santarém, Vila Real, Évora, Lisboa, dentre outras), configurando o núcleo mais significativo da matéria, um apreciável roteiro cultural e turístico. Alguns fatores concorrem para o merecido e crescente rol de manifestações de apreço recebidas. Érico Veríssimo colhe os frutos de uma carreira de inegável consagração popular, acrescida pelo entusiasmo do embaixador brasileiro, e crítico literário de méritos, Álvaro Lins, que o recebe em salões lotados de grandes nomes da cultura lusa. Por trás da maratona de deslocamentos, noites de autógrafos, jantares e conferências, move-se, em surdina, um conflito entre um elenco de intelectuais e o poder salazarista, com lances de marketing dos dois lados, na disputa pelo patrocínio da presença do autor gaúcho em Portugal. O autor brasileiro procura evadir-se dos compromissos oficiais, mas nem sempre consegue se desvencilhar das benesses das instituições. Nesse ponto o leitor fica com um pé atrás. Por mais que afirme sua autonomia e defenda as liberdades individuais, não consegue livrar-se totalmente dos afagos emanados da sólida estrutura do poder ditatorial. Dirigido pelo editor português Souza Pinto, o BMW atravessa o mapa de Portugal, numa cronometrada viagem promocional, gozando de uma assessoria de alto nível por conta de Jorge de Sena. Érico Veríssimo sente-se à vontade no contato com populares que lhe solicitam autógrafos e fotos.

“Surgem duas mulheres com braçadas de flores para Mafalda. Quem serão? Alguém me sussurra ao ouvido que se trata da irmã e da sobrinha de Teixeira de Pascoais. Minha companheira recebe as flores, desce do carro. Fazemos o mesmo. Somos conduzidos a um prédio que minha memória não consegue identificar. Numa de suas salas vemos uma mesa com travessas cheias de doces, cálices e garrafas. Mafalda, Jorge e Luís Fernando provam dos doces, garantem-me que são excelentes. Souza Pinto acende seu cachimbo. Beberico um cálice de Porto. A irmã de Teixeira Pascoais está com os olhos cheios de lágrimas. O grande poeta e ensaísta português faleceu há uns sete anos. Souza Pinto olha o relógio-pulseira. Um cidadão de Amarante nos saúda com um discurso cheio de palavras generosas para com os apressados visitantes da noite. Ao agradecer a recepção, sinto-me no dever de falar sobre Teixeira de Pascoais, o que não me é nada fácil, pois embora eu saiba da grande importância desse escritor na literatura de língua portuguesa, não posso honestamente afirmar que lhe conheço a obra a fundo. Souza Pinto dá o sinal de partida. Para chegar até ao automóvel levo mais tempo do que esperava, pois no caminho sou interrompido várias vezes para autografar livros meus trazidos por alguns amarantinos. Distribuímos apertos de mão e abraços de despedidas. Se vamos voltar? Um dia… quem sabe? Entramos no veículo, que se põe em movimento. Volto a cabeça para trás. Várias pessoas nos acenam com lenços e mãos, do meio da rua. Amarante… Sei que esta é a cidade portuguesa onda na antiguidade viviam as mais ilustres famílias judias que a partir do século XIII foram forçadas a converter-se ao catolicismo para fugir às perseguições, às torturas e frequentemente à morte. Em sua maioria continuaram a praticar sua religião às escondidas. Eram conhecidos pelo nome depreciativo de marranos, isto é, porcos imundos. Esta cidade foi um dos maiores viveiros de ‘cristãos novos’ de Portugal” (VERÍSSIMO, 1986, 182).

      Como ocorre no território ficcional, o autor revela uma grande dose de compreensão do ser humano, de um intelectual disposto a compreender o mundo. “… em vez de estar descrevendo neste livro apenas meu encontro com a terra e a gente portuguesas, eu gostaria de poder também contar de como, com audácia e bravura, consegui sublevar algumas guarnições militares nacionais e a maioria do povo português contra o governo de Oliveira Salazar, derrubando-o e estabelecendo a democracia em Portugal” (VERÍSSIMO, 1986, 235). Mesmo em se tratando de uma escrita que, por natureza, muito releva da postura subjetiva, não são banidas as digressões irônicas, o apelo reformista e uma acesa consciência crítica:

“O perigo das memórias está no fato de que, com raras exceções, o memorialista, como a maioria dos outros homens, tem um grande apreço, amor e admiração pelo seu próprio eu: acha que tudo quanto lhe acontece é digno de ser contado, oralmente ou por escrito, em prosa ou verso, e que o leitor ou ouvinte tem de estar necessariamente muito interessado na vida do narrador – isto é, do herói, em tudo quanto ele viu, fez, pensou, disse, ouviu, sentiu… Nunca é tarde demais para uma confissão. Uma das razões que por muito tempo me impediram de escrever memórias foi o temor de resvalar para essa ridícula autovalorização. Estou certo de que ao escrever estas páginas não me livrei de todos os pecadilhos que mencionei” (VERÍSSIMO, 1986, 235).

VERÍSSIMO, Érico. Solo do clarineta 2. 7a. ed. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 1986.

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