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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Fernando Pessoa

Livro do mês: Livro do Desassossego


     A primeira observação a se propor sobre o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, advém de seu teor altamente poético. Desde as primeiras páginas, percebe-se a sua estreita relação com os poemas do autor, especialmente aqueles produzidos entre os anos de 1913 a 1917. Este foi o período mais produtivo de Fernando Pessoa, justamente quando foram elaboradas as correntes poéticas - paulismo, interseccionismo e sensacionismo, - e escritos os grandes poemas, “Ode Triunfal” (1914), “Ode Marítima” (1915), “Saudação a Walt Whitman” (1915), considerados o ponto alto no uso de recursos sensacionistas.


    Os poemas que se aproximam dos textos poéticos que integram o Livro do Desassossego relacionam-se à corrente do paulismo, caracterizando-se por explorar traços oriundos do Simbolismo, através de referências a uma atmosfera de sonho, marcada por vocábulos etéreos que revelam imagens estáticas e uma paisagem crepuscular. O poema “Impressões do Crepúsculo” constitui a mais típica experiência de poesia escrita nos moldes desta corrente, com o uso dos elementos característicos, ligados ao “vago, à sutileza e à complexidade”, de acordo com os postulados versados em artigos publicados então pelo jovem poeta na revista A Águia (1912). Vejamos uma parte do fragmento 78:

“Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.”

      Não há um enredo a emaranhar a teia de anotações avulsas, nem uma sequência de ações desenroladas no tempo. Os registros atendem antes a um desejo de compreender o sentido de alguma sensação, ou a ausência de sentido das coisas. Daí vem seu tom de radical e funda melancolia.

      Resulta de um projeto de toda uma vida, na medida em que integra escritos esparsos, anotações, divagações, reflexões, comentários sobre o cotidiano, a escrita, a passagem do tempo, um mosaico diversificado de espécies textuais. O que seria, a princípio, um exercício de prosa poética vincada de tiradas decadentistas, de títulos vagos e solenes (“Na Floresta do Alheamento”, “Maneira de bem sonhar”, “Conselhos às mal casadas”, “Marcha fúnebre para o Rei Segundo da Baviera”) evolui para ser a complexa criação em prosa, numa linguagem preciosa, de três heterônimos (Bernardo Soares, Vicente Guedes, um obscuro Barão de Teive). Algumas páginas teriam gênese num Diário de Vicente Guedes, embora, em sua totalidade, a autoria seja atribuída a Bernardo Soares, “ajudante de guarda-livros, na cidade de Lisboa”, o alter-ego de Fernando Pessoa funcionário em casas de comércio na “rua dos Douradores”.



PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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