Livro do mês: Livro do
Desassossego
A
primeira observação a se propor sobre o Livro do Desassossego,
de Fernando Pessoa, advém de seu teor altamente poético. Desde as
primeiras páginas, percebe-se a sua estreita relação com os poemas
do autor, especialmente aqueles produzidos entre os anos de 1913 a
1917. Este foi o período mais produtivo de Fernando Pessoa,
justamente quando foram elaboradas
as correntes poéticas - paulismo, interseccionismo e sensacionismo,
- e escritos os grandes
poemas, “Ode Triunfal”
(1914), “Ode Marítima” (1915), “Saudação a Walt Whitman”
(1915), considerados o ponto alto no uso de recursos sensacionistas.
Os
poemas que se aproximam dos textos poéticos que integram o Livro
do Desassossego relacionam-se à
corrente do paulismo, caracterizando-se por
explorar traços oriundos do
Simbolismo, através de
referências a uma atmosfera de sonho, marcada por vocábulos etéreos
que revelam imagens estáticas e uma paisagem crepuscular. O poema
“Impressões do Crepúsculo” constitui a mais típica experiência
de poesia escrita nos moldes desta corrente, com o
uso dos elementos
característicos, ligados ao
“vago, à sutileza e à complexidade”, de acordo com os
postulados versados em artigos publicados então pelo jovem poeta na
revista A Águia (1912).
Vejamos uma parte do fragmento 78:
“Há
sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a
extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir,
que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido,
sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do
dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É
uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado
para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.”
Não
há um enredo a emaranhar a teia de anotações avulsas, nem uma
sequência de ações desenroladas no tempo. Os registros atendem
antes a um desejo de compreender o sentido de alguma sensação, ou a
ausência de sentido das coisas. Daí vem seu tom de radical e funda
melancolia.
Resulta de um projeto
de toda uma vida, na medida em que integra escritos esparsos, anotações, divagações,
reflexões, comentários sobre o cotidiano, a escrita, a passagem do
tempo, um mosaico diversificado de espécies textuais. O que seria, a
princípio, um exercício de prosa poética vincada de tiradas
decadentistas, de títulos vagos e solenes (“Na
Floresta do Alheamento”, “Maneira
de bem sonhar”, “Conselhos às mal casadas”, “Marcha fúnebre
para o Rei Segundo da Baviera”) evolui para ser a complexa criação
em prosa, numa linguagem
preciosa, de três
heterônimos (Bernardo Soares, Vicente Guedes, um
obscuro Barão de Teive). Algumas páginas teriam gênese num Diário
de Vicente Guedes, embora, em
sua totalidade, a autoria seja atribuída a Bernardo Soares,
“ajudante de guarda-livros, na cidade de Lisboa”, o alter-ego
de Fernando Pessoa funcionário em casas de comércio na “rua dos
Douradores”.
PESSOA,
Fernando. Livro do Desassossego. São
Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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