YGUARANI
Retorno à produção poética de Wilmar Silva, focando agora um livro múltiplo publicado no estrangeiro- Yguarani. Wilmar Silva não é nenhum estreante na literatura. Sua estreia - um tanto longíngua, como co-autor, ao lado de Roberto Natalino - deve-se ao poema Lágrimas & orgasmos (1986). Depois vieram alguns livros, como a estreia individual, Aguas selvagens (1990), o belo e premiado Moinho de Flechas (1994), Çeiva (1997), o surpreendente Anu (2001), Arranjos de pássaros e flores (2002), Cachaprego (2004). Yguarani (2009) integra os quatro últimos livros referidos.
Wilmar Silva sabe obviamente escrever segundo as normas linguísticos. Como poeta, cultiva a liberdade de escrever fora dos padrões normativos da língua. Desconstruir pode constituir um atalho. Assim, grava por vezes: "vozcábulo", "spingáridas", "armasdilha", "vacalumis", "piar de nhambu", "dencheteupeixecardumo", "pésgada", "latasdainhas","cavlaos selvagaens", "maisrinbondos", sem o menor escrúpulo. Esquece de pontuar segundo a rigidez ortográfica. A grafia errada projeta a incorporação da linguagem caipira, deixando à flor dos versos o caráter tirânico da linguagem culta.
Uma página, um poema de Anu:
taquaradbambuémeuoboé
dsioripeabóbardaberimbau
qcontendaschuvanodeserto
melditalagoartoheraosolm
capivarávidapintabordias
boiboletraqmeucãotoária
Seja lá o que possa significar, o poeta inaugura uma nova prosódia. Na esteira de Rimbaud, Verlaine, Baudelaire, Pound. Recupera algumas expressões do meio rural - balaio, arapuca, parede de barauna, araticuns, taquara. O que ressalta destes usos: a instantânea captação de sensações, a associação brusca de palavras, o impacto verbal diante da descoberta da natureza, o registro da arbitrariedade dos signos. A leitura resulta, por sua vez, uma atividade lúdica, livre, sem opressões, cabendo ao agente (o leitor) a escolha do caminho, o acaso de compor a viagem que lhe aprouver. Ao driblar os ditames do signo, ratifica o uso do risco e do berro. Ao sugerir uma nova forma de leitura, ao afastar-se das convenções, lança a semente de uma nova poética. Ao desacralizar o poema, torce-lhe o pescoço, como insinuava Verlaine, na contramão de séculos de retórica e teoria literária. Ao propor uma nova grafia, sugere um novo sistema de ler, sugere um novo mundo. Uma nova forma de viver, conviver, relacionar, digerir as coisas, a necessidade urgente de descobrir o dia, o dia-a-dia, o cotidiano, de jogar-se na estrada, no rumo do sol.
SILVA, Wilmar. Yguarani. Maia (Portugal): Cosmorama, 2009.


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