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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Nuno Camarneiro

       
Livro do mês:


             O projeto ficcional de Nuno Camarneiro, neste romance que é sua estreia na literatura, assenta-se, a princípio, num mosaico em homenagem a três autores – Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges e Kafka.  Dois personagens replicam o nome dos primeiros autores – Fernando e Jorge; o terceiro protagonista, Karl, remete ao personagem principal do romance de Kafka, America. Os personagens postam-se, à partida, como clones imaginários dos autores, em rotas que apontam para pistas especulares.


                Fernando passa os dias numa Lisboa sombria, envolvido em intrigas com as tias, a preocupação em alugar um quarto, o encontro com amigos em tavernas urbanas, a escrita de poemas e incontáveis devaneios melancólicos, que lhe inspiram versos e frases marcantes. “Portugal é assim, diminutivo e manso. O que foi chegando fez-se à escala e por cá ficou, as indiazinhas, as americanazinhas, os pretitos, pobrezinhos. Os portugueses não querem nada que não possam meter no bolso. Como é que esta gente descobriu tanto mundo?” (CAMARNEIRO, 2012, 22).  Jorge nasceu e vive com a avó num bairro popular de uma Buenos Aires idealizada, divide as tarefas infantis com a irmã Norah, “sempre que aprende algo novo faz traços no caderno” (CAMARNEIRO, 2012, 14); a sua casa é a única casa com jardim no bairro, que abriga também um cão de três pernas, inventado pelo garoto que adora inventar animais. Na verdade, Jorge inventa ainda jogos e cenários que lhe propiciem sonhar, além de conceitos surpreendentes. “Jorge comprovou uma ideia que era sua: qualquer animal que possa ser inventado pelos homens tem de existir em algum sítio” (CAMARNEIRO, 2012, 33). Karl é um operário, de descendência europeia que, no início, lava as paredes de vidro em arranha-céus de Nova Iorque.  “Quando acaba de limpar a última janela, detém-se por alguns momentos a olhar a cidade lá em baixo. Dali sente-se capaz de pensar coisas novas, de ver longe e de descobrir significados até aí ocultos. Na verdade nada disso acontece, talvez por não estar habituado a pensar coisas novas, talvez porque Nova Iorque não permita que se pense muito” (CAMARNEIRO, 2012, 24-25). Em torno desses eixos, são construídos os capítulos, intitulados com os nomes de cidades e bairros onde vivem os protagonistas.
                Sabemos que a arte contemporânea desenvolveu-se tributária de uma concepção moderna que encarece a complexidade, herdada dos inúmeros conflitos estéticos das primeiras décadas do século XX, o seu teor enigmático e obscuro.  Já afirmava Hugo Friedrich, em sua monumental La estructura de la lírica moderna:  “El acceso a la lírica europea del siglo XX no es cosa fácil, en cuanto ésta se expresa por médio de enigmas y de misterios” (FRIEDRICH, 1974, 21). Um dos aspectos produtivos da empreitada levada a cabo por Camarneiro consiste em elaborar frases, algumas postiças, nem de longe isentas de efeitos espetaculares, como se tiradas de legendas de revistas burguesas. Dentre os conceitos desenvolvidos, sobressaem vagas sugestões de duplicidade, melancolia, solidão e o poder da linguagem. “Ele explica-lhe que é um livro onde estão todas as coisas, mas a irmã continua sem entender.  Pergunta-lhe se esse livro é como a bíblia, de que a avó já lhe falou.  Jorge diz que não, a enciclopédia tem todas as ideias dos homens, a bíblia apenas as de um deus” (CAMARNEIRO, 2012, 94). Os protagonistas lembram os autores renomados, mas não se confundem inteiramente com eles.  A identificação completa seria reducionista, embora as pistas continuem a ser feitas: “Fernando nasceu para ser um homem que ainda não existia, cheio de palavras novas a quererem ser ditas, frases assombrosas que não são do céu nem da terra” (CAMARNEIRO, 2012, 35). Karl, o imigrante judeu, protagonista com maior aderência ao real, ao concreto e à tragédia, acaba demitido, após provocar um acidente; ao final, retorna ao velho mundo.  “Karl foi buscar o mundo novo e leva-o agora para casa. Tão novo e já tão estragado. Traz também um língua que cedo esquecerá, algumas poucas palavras hão de resistir porque Karl não as sabe traduzir, palavras como subway ou chinatown, nomes de bebidas e palavras ordinárias cheias de sexo”(CAMARNEIRO, 2012, 176).  Hesitante entre o registro direto e o poético, o dito e o por dizer, o determinado e o indeterminado, a linguagem não consegue livrar-se de uma inflexão semelhante, patente nas melhores páginas de Saramago.

CAMARNEIRO, Nuno. No meu peito não cabem pássaros. Rio de Janeiro: Leya, 2012.

FRIEDRICH, Hugo. La estructura de la lírica moderna. Barcelona: Seix Barral, 1974.

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