Livro do mês:
O projeto ficcional de Nuno
Camarneiro, neste romance que é sua estreia na literatura, assenta-se, a
princípio, num mosaico em homenagem a três autores – Fernando Pessoa, Jorge
Luís Borges e Kafka. Dois personagens
replicam o nome dos primeiros autores – Fernando e Jorge; o terceiro
protagonista, Karl, remete ao personagem principal do romance de Kafka, America. Os personagens postam-se, à
partida, como clones imaginários dos autores, em rotas que apontam para pistas
especulares.
Fernando
passa os dias numa Lisboa sombria, envolvido em intrigas com as tias, a
preocupação em alugar um quarto, o encontro com amigos em tavernas urbanas, a
escrita de poemas e incontáveis devaneios melancólicos, que lhe inspiram versos
e frases marcantes. “Portugal é assim, diminutivo e manso. O que foi chegando
fez-se à escala e por cá ficou, as indiazinhas, as americanazinhas, os
pretitos, pobrezinhos. Os portugueses não querem nada que não possam meter no
bolso. Como é que esta gente descobriu tanto mundo?” (CAMARNEIRO, 2012, 22). Jorge nasceu e vive com a avó num bairro
popular de uma Buenos Aires idealizada, divide as tarefas infantis com a irmã
Norah, “sempre que aprende algo novo faz traços no caderno” (CAMARNEIRO, 2012,
14); a sua casa é a única casa com jardim no bairro, que abriga também um cão
de três pernas, inventado pelo garoto que adora inventar animais. Na verdade,
Jorge inventa ainda jogos e cenários que lhe propiciem sonhar, além de
conceitos surpreendentes. “Jorge comprovou uma ideia que era sua: qualquer
animal que possa ser inventado pelos homens tem de existir em algum sítio”
(CAMARNEIRO, 2012, 33). Karl é um operário, de descendência europeia que, no
início, lava as paredes de vidro em arranha-céus de Nova Iorque. “Quando acaba de limpar a última janela,
detém-se por alguns momentos a olhar a cidade lá em baixo. Dali sente-se capaz
de pensar coisas novas, de ver longe e de descobrir significados até aí
ocultos. Na verdade nada disso acontece, talvez por não estar habituado a
pensar coisas novas, talvez porque Nova Iorque não permita que se pense muito”
(CAMARNEIRO, 2012, 24-25). Em torno desses eixos, são construídos os capítulos,
intitulados com os nomes de cidades e bairros onde vivem os protagonistas.
Sabemos
que a arte contemporânea desenvolveu-se tributária de uma concepção moderna que
encarece a complexidade, herdada dos inúmeros conflitos estéticos das primeiras
décadas do século XX, o seu teor enigmático e obscuro. Já afirmava Hugo Friedrich, em sua monumental
La estructura de la lírica moderna: “El acceso a la lírica europea del siglo
XX no es cosa fácil, en cuanto ésta se expresa por médio de enigmas y de
misterios” (FRIEDRICH, 1974, 21). Um dos aspectos produtivos da empreitada
levada a cabo por Camarneiro consiste em elaborar frases, algumas postiças, nem
de longe isentas de efeitos espetaculares, como se tiradas de legendas de
revistas burguesas. Dentre os conceitos desenvolvidos, sobressaem vagas
sugestões de duplicidade, melancolia, solidão e o poder da linguagem. “Ele
explica-lhe que é um livro onde estão todas as coisas, mas a irmã continua sem
entender. Pergunta-lhe se esse livro é
como a bíblia, de que a avó já lhe falou.
Jorge diz que não, a enciclopédia tem todas as ideias dos homens, a
bíblia apenas as de um deus” (CAMARNEIRO, 2012, 94). Os protagonistas lembram
os autores renomados, mas não se confundem inteiramente com eles. A identificação completa seria reducionista,
embora as pistas continuem a ser feitas: “Fernando nasceu para ser um homem que
ainda não existia, cheio de palavras novas a quererem ser ditas, frases
assombrosas que não são do céu nem da terra” (CAMARNEIRO, 2012, 35). Karl, o
imigrante judeu, protagonista com maior aderência ao real, ao concreto e à
tragédia, acaba demitido, após provocar um acidente; ao final, retorna ao velho
mundo. “Karl foi buscar o mundo novo e
leva-o agora para casa. Tão novo e já tão estragado. Traz também um língua que
cedo esquecerá, algumas poucas palavras hão de resistir porque Karl não as sabe
traduzir, palavras como subway ou chinatown, nomes de bebidas e palavras
ordinárias cheias de sexo”(CAMARNEIRO, 2012, 176). Hesitante entre o registro direto e o poético,
o dito e o por dizer, o determinado e o indeterminado, a linguagem não consegue
livrar-se de uma inflexão semelhante, patente nas melhores páginas de Saramago.
CAMARNEIRO, Nuno. No meu peito não cabem pássaros. Rio de
Janeiro: Leya, 2012.
FRIEDRICH, Hugo. La estructura de la lírica moderna. Barcelona:
Seix Barral, 1974.

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