Livro do mês:
Quarteto de Alexandria
Como decorre
em algumas temporadas, pus-me a reler o Quarteto
de Alexandria, obra máxima do escritor britânico, nascido na Índia, Lawrence Durrell (1912-1990), grande e
arrebatadora descoberta literária da minha adolescência. Como se sabe, o autor,
em breve nota ao último estágio da narrativa, confirma que os quatro volumes (Justine, Baltasar, Mountolive e Clea) formam
“um corpo homogêneo e como tal deve ser considerado”. Na nota de apresentação a
Baltasar, deixou uma trilha: “o eixo
deste livro é uma investigação do amor moderno”. Sentimento visceral, como tal reconhecido
numa das páginas: “Compreendi, então, a verdade do amor: um absoluto que tudo
aceita ou tudo despreza. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura, e assim
por diante, só existem à periferia, são aquisições da vida social e do hábito.
A austera e impiedosa Afrodite é legitimamente pagã. Não é do nosso cérebro,
nem dos nossos instintos, que ela se apodera – mas da nossa medula” (DURRELL,
s.d.a,125-126).
(Durrell com a filha Penelope. Imagem: Durrelliana-WordPress.com)
A opção da vez
foi Clea, o último da série, talvez
o mais trágico. E como sempre, acabo me envolvendo naquele universo
mágico de mulheres fatais, alto mundo das finanças, emoldurado por tiradas
filosóficas e literárias bastante sofisticadas. A re-leitura de um relato
motiva inevitavelmente a procura de passagens de outro, enleados que somos
pelas íntimas conexões existentes nesse círculo obsessivo de personagens: “Justine,
Melissa, Clea... Éramos tão poucos que na verdade um livro devia ser suficiente
para esgotar-nos. Eu também acreditei que assim fosse. Agora dispersos pelo
tempo e pelas circunstâncias, quebrado para sempre o circuito...” (DURRELL,
1970a, 14).
Meu preferido
tem sido Mountolive, o terceiro
volume. Em seguida, Baltasar. Neles
são mais nítidos os traços romanescos desta saga fabulosa, em que as surtidas
amorosas surgem envoltas em camadas de significação secreta, devastando os
bastidores da política internacional (ainda sob a combalida hegemonia da
Inglaterra), o cotidiano de uma embaixada inglesa no Oriente, bancarrotas e
ruínas de poderosos grupos. Mas os quatro relatos são excelentes. Tudo narrado com invulgar domínio da técnica
romanesca, sob a lupa vertiginosa de um observador esmerado em se arriscar em
análises psicológicas, extremamente atento aos mínimos detalhes, projetando uma
temática ainda atual – o conflito Ocidente/Oriente, dentre outras investigações. Algumas associações
inesperadas, aliadas a recursos poéticos incisivos, produzem efeitos por vezes
surpreendentes, como neste flash ao rosto de Memlik Paxá: “Os seus lábios eram
muito vermelhos, o inferior, principalmente; e a sua aparência de fruto maduro
sugeria a epilepsia” (DURRELL, s.d.b, 304). Os ambientes sociais glamourosos de
Cairo e de Alexandria funcionam como cenário decadente para um enredo diversificado,
excessivamente amplo e aberto para acolher desvios, aberrações e
situações-limites como rubricas, suporte ou pano de fundo ao eixo narrativo
principal. São célebres as descrições do luxo feminino, envolvendo Justine,
Melissa, Clea, Liza, Leila, dentre outras deusas esplendorosas, flagradas em
salões exuberantes, reluzentes. Não menos famosas as descrições de
suntuosos palácios de armadores e empresários, vazadas sob impressões que
respingam em referência ao Rio de Janeiro, como esta a respeito da
arquitetura urbana, extraída de Mountolive:
“Seja nas ruas de Roma ou do Rio, uma pessoa fica pasmada diante das suas
fachadas sinistras. Os pilares curtos e grossos sugerem um mamute atacado de
elefantíase, uma sobrevivência grotesca, ou talvez o renascimento, de algo
genuinamente macabro – uma espécie de gótico-otomano-egípcio (DURRELL, s.d.b,302)”.
Como estratégia para fugir à sedução da Unidade, que o narrador supõe ter
desaparecido do mundo moderno, somos conduzidos a perceber os eventos e as
personagens filtrados por uma abrangente visão prismática, continuamente
renovada. O colapso do império britânico esbate-se num mural impiedoso da
decadência da aristocracia inglesa, numa crônica indiscreta, de personagens
densos, bizarros, algo sinistros. O encontro final entre Mountolive e Leila
assume uma dimensão dramática, patética.
São surpreendentes e poéticos os relatos noturnos de Alexandria que reverberam,
de forma transfigurada, o percurso misterioso e o destino marginal do poeta
grego Constantino Caváfis. “...E, embora ocupado o meu espírito por estas recordações, ia vendo com outra parte de minha consciência
aquela Alexandria que se desbobinava uma vez mais diante de mim – com seus
cativantes pormenores, o seu insolente colorido, a sua pobreza e a sua beleza
esmagadora” (DURRELL, 1970b,37). Somos a cada página tocados por uma paisagem
inesquecível, um rosto marcante, um olhar devastador ou por um pensamento, como
este, exarado diante do corpo inerte de Melissa: “Creio que nós, os escritores,
temos um coração de pedra. Os mortos não contam. São os vivos que nos
interessam desde que lhes possamos arrancar a mensagem que se esconde no cerne
de toda a experiência humana” (DURRELL, s.d.a, 278). Difícil ficar
indiferente aos terríveis encantos de Justine, de quem o marido, Nessim Hosnani,
afirma: “Nem sequer posso afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo
aqueles a quem ela feriu saíram enriquecidos da experiência. Ela arrancava as
pessoas de seus velhos invólucros, obrigava-as a sair de si próprias. É natural
que isso seja doloroso e muitos se equivocaram sobre a natureza da dor que ela
lhes infligia” (DURRELL, s.d.a, 39).
DURRELL, Lawrence. Justine. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, s.d.a.
DURRELL, Lawrence. Baltasar. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970a.
DURRELL, Lawrence. Mountolive. Trad. Daniel Gonçalves. Rio de Janeiro: Ulisseia, s.d.b.
DURRELL, Lawrence. Clea. Trad. de Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970b.



Estou relendo esse Quarteto.Existe um filme chamado Ágora, sobre Alexandria...bem na transicao do mundo antigo para a Idade Média.Os judeus e cristãos disputando o poder...Busco Alexandria onde posso Kavafis, eu conheço e amo...Queria ler análises, teses...saber de autores influenciados por Durrell.Gosto dele tanto qto de Faulkner
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