“Baios
e sonhos semelham-se. Não se esperem, daqueles, coerência e moderação nas
disparadas pelos prados, quando não busquem um fim; nem dos sonhos que se
desatem com método” (MARANHÃO, Haroldo, 2004, p. 64).
Tenho
um sonho com sobressaltos. Acordo nervoso e trêmulo, suando a púcaros.
Um velho esgrouvinhado, barba por
fazer, aspecto entre arrependido e assustado, parecido com a imagem gasta
impressa em jornais, aproxima-se de mim. Nada de anormal, até perceber
tratar-se de um ser alado. Não só, os adjetivos em fileira mostram-se
impotentes para a exata configuração: astuto, demagogo, dissimulado, falastrão,
inescrupuloso, patusco, solerte. Eu estava então como Inês: posto em sono sossegado. Andava
impávido num passeio urbano, defronte de grades de um hotel, nitidamente aterrorizantes. Se me
evadisse para as estrelas, projetado por satélites, mesmo assim o encontro
dar-se-ia.
Antes
de prosseguir, impõe-se uma divagação preliminar a respeito de sonho e
derivados. Se me atenho ao narrador de Haroldo Maranhão, em reflexão transcrita
na epígrafe, sou levado a comparar os sonhos a cavalos desembestados, que
galopam sem rumo certo. Se resolvo seguir o conselho de Madredeus, o grupo
musical português, não devo prosseguir, porque “contar um sonho é proibido”.
Preciso refinar o conceito: o que tive não foi um sonho, mas um pesadelo. Em
que pesem os elementos inconscientes envolvidos num pesadelo, contar um
pesadelo é abominável. Em que pesem idênticos traços, pesadelo é matéria de
descarrego, tendente a dissipar-se. Em vista disso, desisto de fornecer os
detalhes da cena, divulgo apenas o essencial, no caso, o diálogo travado, entre
um profissional das letras (eu) e a tortuosa e velhusca criatura. Extintas
ficam circunstâncias anódinas, relativas à escolha do logradouro, a hora
aprazada, o papel de intermediários.
O
improvisado escriba abanca-se à mesa de um bar, ofegante. Traz, abrigados nos
calores das axilas, os calores crispados da polêmica, envoltos em fitilha
vermelha.
“Gostaria que
corrigisse este artigo”, ele diz, passando para as minhas mãos um manuscrito
ensebado, letras em garrancho em laudas e laudas de almaço. “Preciso me
explicar ao povo, alguém deve corrigir este artigo, fazendo-o submeter-se aos
parâmetros da gramática. O estilo não deve ser mexido”.
“As denúncias
não desaparecem, diante de argumentos esfarrapados”, atrevo-me a retrucar.
“Denúncias
infundadas, diante de mimos e benfeitorias desinteressadas, um sítio bucólico e airoso, uma banal casa de praia”.
“Uma
tarefa embaraçosa”, afianço, na expectativa de me safar.
“Sem
dúvida, uma tarefa trabalhosa, mas será recompensado à altura”.
“Centenas
de profissionais, igualmente capacitados, aceitariam atendê-lo graciosamente”, atiro
no escuro da noite, sutil estratégia de elogio e desistência.
“Você foi escolhido. Diga seu preço, sem tergiversar”. Os olhos são esferas chamejantes. Sinto-me
no exato beco sem saída, na noite opressora, opaca.
“Trinta
reais a página”, retruco, inflacionando em dobro o serviço. “Mais: pagamento em
cheque, referendado por assinatura, seguido de recibo, com especificação do
labor prestado”.
“De
menos. Contratado!” exclama em tom firme e impositivo.
Acordo,
frio e trêmulo, suando a púcaros.
MARANHÃO, Haroldo. Memorial do fim: a morte de Machado de
Assis. 2ª. ed. São Paulo: Planeta do
Brasil, 2004.

Nenhum comentário:
Postar um comentário