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sábado, 22 de outubro de 2016

Um pesadelo


            “Baios e sonhos semelham-se. Não se esperem, daqueles, coerência e moderação nas disparadas pelos prados, quando não busquem um fim; nem dos sonhos que se desatem com método” (MARANHÃO, Haroldo, 2004, p. 64).

            Tenho um sonho com sobressaltos. Acordo nervoso e trêmulo, suando a púcaros.
          Um velho esgrouvinhado, barba por fazer, aspecto entre arrependido e assustado, parecido com a imagem gasta impressa em jornais, aproxima-se de mim. Nada de anormal, até perceber tratar-se de um ser alado. Não só, os adjetivos em fileira mostram-se impotentes para a exata configuração: astuto, demagogo, dissimulado, falastrão, inescrupuloso, patusco, solerte. Eu estava então como Inês: posto em sono sossegado. Andava impávido num passeio urbano, defronte de grades de um hotel, nitidamente aterrorizantes. Se me evadisse para as estrelas, projetado por satélites, mesmo assim o encontro dar-se-ia.
            Antes de prosseguir, impõe-se uma divagação preliminar a respeito de sonho e derivados. Se me atenho ao narrador de Haroldo Maranhão, em reflexão transcrita na epígrafe, sou levado a comparar os sonhos a cavalos desembestados, que galopam sem rumo certo. Se resolvo seguir o conselho de Madredeus, o grupo musical português, não devo prosseguir, porque “contar um sonho é proibido”. Preciso refinar o conceito: o que tive não foi um sonho, mas um pesadelo. Em que pesem os elementos inconscientes envolvidos num pesadelo, contar um pesadelo é abominável. Em que pesem idênticos traços, pesadelo é matéria de descarrego, tendente a dissipar-se. Em vista disso, desisto de fornecer os detalhes da cena, divulgo apenas o essencial, no caso, o diálogo travado, entre um profissional das letras (eu) e a tortuosa e velhusca criatura. Extintas ficam circunstâncias anódinas, relativas à escolha do logradouro, a hora aprazada, o papel de intermediários.

                                              (Imagem: www.hdwalls.syz)

            O improvisado escriba abanca-se à mesa de um bar, ofegante. Traz, abrigados nos calores das axilas, os calores crispados da polêmica, envoltos em fitilha vermelha.
“Gostaria que corrigisse este artigo”, ele diz, passando para as minhas mãos um manuscrito ensebado, letras em garrancho em laudas e laudas de almaço. “Preciso me explicar ao povo, alguém deve corrigir este artigo, fazendo-o submeter-se aos parâmetros da gramática. O estilo não deve ser mexido”.
“As denúncias não desaparecem, diante de argumentos esfarrapados”, atrevo-me a retrucar.
“Denúncias infundadas, diante de mimos e benfeitorias desinteressadas, um sítio bucólico e airoso, uma banal casa de praia”.
            “Uma tarefa embaraçosa”, afianço, na expectativa de me safar.
            “Sem dúvida, uma tarefa trabalhosa, mas será recompensado à altura”.
            “Centenas de profissionais, igualmente capacitados, aceitariam atendê-lo graciosamente”, atiro no escuro da noite, sutil estratégia de elogio e desistência.
            “Você foi escolhido. Diga seu preço, sem tergiversar”. Os olhos são esferas chamejantes. Sinto-me no exato beco sem saída, na noite opressora, opaca.
            “Trinta reais a página”, retruco, inflacionando em dobro o serviço. “Mais: pagamento em cheque, referendado por assinatura, seguido de recibo, com especificação do labor prestado”.
            “De menos. Contratado!” exclama em tom firme e impositivo.
            Acordo, frio e trêmulo, suando a púcaros.


MARANHÃO, Haroldo. Memorial do fim: a morte de Machado de Assis. 2ª. ed. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004.

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