Livro do mês
Há livros que dizem menos do que
esperamos. Dito de outro modo: livros que nos decepcionam. Que deviam ficar
pela metade de suas páginas. Este é o caso de Diário de bolso seguido de Retrato
de noiva, de Afonso Arinos de Melo Franco, (1905-1990), dois livros,
editados num único volume. O que tento dizer ficará agora cristalino: este
livro deveria conter apenas o Diário de
bolso. A sequência, registro de um episódio sentimental, alusivo a um
arrebatado namoro, interessa apenas aos dois agentes envolvidos na teia amorosa.
Retrato de noiva enfeixa a
correspondência entre o autor e a noiva, Ana G. Rodrigues Alves, no período
entre 1925, quando se conhecem, até 1928, quando se casam. A urgência da
publicação só se justificaria em caso de notória relevância seja da linguagem,
seja das vivências e desdobramentos. Nem uma, nem outra se observam. No
prefácio, no entanto, Carlos Drummond de Andrade tem posição contrária, em
arenga poética de compadre.
(Foto: origem.biz)
De
aristocrática ascendência mineira, Afonso Arinos de Melo Franco desempenhou
variadas funções: promotor de justiça, professor universitário; deputado e
senador (participou da Constituinte de 1988); membro da Academia Brasileira de
Letras; ministro de relações exteriores do governo Jânio Quadros (1962). A
simplicidade da grafia despojada de seu Afonso, com um único F, (ao contrário
do que ocorre com outros intelectuais mineiros, Affonso Romano de Santana e
Affonso Ávila, mais conformados com a objetividade moderna) acaba, no entanto,
desmontada pelo estilo protocolar, excessivamente empolado, formal e solene. O
ponto alto de sua obra equilibra-se entre os livros de história (como Um estadista da República; Afrânio de Melo
Franco e seu tempo, de 1955) e os de memórias: A alma do tempo (1961),
Planalto (1968), Alto mar, maralto (1979), que colige os anteriores, Amor a Roma (1982).
Devemos
ao político Afonso Arinos, sobrinho do autor de Pelo Sertão, o primeiro do nome, a lei contra o racismo. A personalidade
do autor, evocado nos livros de memórias de Antônio Carlos Villaça como um
cavalheiro sofisticado, o “finíssimo” diplomata, é sobejamente conhecida. Reproduz
uma afirmação do cientista alemão Schwege, em descrição de um baile, sobre as
mulheres paulistas de oitocentos: “Elas tinham a fama de serem belas, pois em São Paulo a pele clara
predominava, ao contrário do que ocorria nas capitanias situadas mais ao
norte”.
De
temática difusa, os registros recobrem os anos de 1977 e 1978, dando relevo à
análise do contexto político, ao contato com figuras representativas da
política, da diplomacia e das artes (Carlos Lacerda, Petrônio Portela, Prudente
de Morais, Rubem Braga, Ribeiro Couto, dentre outros). Os livros de memória
servem para nos revelar eventos, lugares e pessoas que não conhecemos ao vivo.
Passamos a conhecê-los de ler, diferindo da maneira machadiana de conhecer, através
da visão, o conhecimento “de vista e de chapéu”, como afirma o narrador de Dom Casmurro. Com o acúmulo de leituras,
vamos formando um mosaico de referências e alusões, cada vez mais rico e diversificado.
Ao referir-se ao Jockey Clube do Rio de Janeiro, lembra como se aproximou de
Manuel Bandeira, autor na plenitude criativa. As memórias de um escritor acabam
por se cruzar com as memórias de outro, ainda que sob perspectivas distintas. Alguns
lugares ou eventos firmam-se em nosso espírito, em decorrência de critérios
subjetivos de assimilação. Estas evocações, disseminadas no rol de eventos, notas
eruditas, impressões de viagens e de leituras configuram-se como a parte mais
viva e interessante. Dentre elas, as
passagens que reverberam a amizade com Ribeiro Couto, a informação de que o
poeta de Jardim das confidências, quando
promotor em Pouso Alto ,
no sul de Minas, hospedou Bandeira em 1928 por um mês. Ou descrições soltas,
como esta, sobre a cidade do Porto: “O Porto conserva o seu orgulhoso status de
ser a cidade mais européia de Portugal, nada perde de seu jeito de feitoria inglesa”
(FRANCO, l979, 133). Um índice Onomástico seria oportuno, não fosse pedir
demais às edições da época.
Uma singularidade da escrita diarística, traço para análise, é sua reduzida parcela de invenção e fantasia. Se o escritor descreve um monumento ou edificação não pode exacerbar os elementos reais. O leitor não raro compara a descrição efetuada com sua própria aferição. Neste autor, a distância da ficção se faz acompanhar pela rasura de transcendência e fidelidade ao descolorido chão da realidade. O teor panorâmico das reflexões, constituída de breves súmulas, perpassa o volume.
Uma singularidade da escrita diarística, traço para análise, é sua reduzida parcela de invenção e fantasia. Se o escritor descreve um monumento ou edificação não pode exacerbar os elementos reais. O leitor não raro compara a descrição efetuada com sua própria aferição. Neste autor, a distância da ficção se faz acompanhar pela rasura de transcendência e fidelidade ao descolorido chão da realidade. O teor panorâmico das reflexões, constituída de breves súmulas, perpassa o volume.
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Diário de bolso seguido de Retrato de noiva.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979.

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