Livro do mês:
A obra de arte tem o condão espicaçar de forma irônica o jugo dos poderosos. E como nunca, os recursos evidenciados pela pós-modernidade tem se prestado a dar conta das sutis filigranas ideológicas que bordejam as franjas do poder. O romance Nação crioula, do angolano José Eduardo Agualusa, posiciona-se estrategicamente, com resultados produtivos, entre as criações ficcionais que, em fins do século XX, tiveram inspiração em obras de Eça de Queirós. A lista que se segue, focada em autores portugueses, por certo não é conclusiva: As batalhas do Caia, de Mário Cláudio, A visão de Túndalo por Eça de Queiroz, por Miguel Real, Os esquemas de Fradique, de Fernando Venâncio.
A obra de arte tem o condão espicaçar de forma irônica o jugo dos poderosos. E como nunca, os recursos evidenciados pela pós-modernidade tem se prestado a dar conta das sutis filigranas ideológicas que bordejam as franjas do poder. O romance Nação crioula, do angolano José Eduardo Agualusa, posiciona-se estrategicamente, com resultados produtivos, entre as criações ficcionais que, em fins do século XX, tiveram inspiração em obras de Eça de Queirós. A lista que se segue, focada em autores portugueses, por certo não é conclusiva: As batalhas do Caia, de Mário Cláudio, A visão de Túndalo por Eça de Queiroz, por Miguel Real, Os esquemas de Fradique, de Fernando Venâncio.
(Foto: portalivros.wordpress.com)
José Eduardo Agualusa
sequestra o protagonista da obra tardia de Eça de Queirós, Fradique Mendes,
aquele em que o autor de Os maias de
maneira emblemática quis encenar facetas de sua personalidade, como intelectual
cosmopolita e sedutor, atuante em vários quadrantes das conexões atlânticas,
Portugal, África e Brasil. Ao dialogar com o romance A correspondência de Fradique Mendes, José Eduardo Agualusa retoma
e faz circular de novo as ideias de multiculturalismo, de relações interraciais
ali esboçadas por Eça de Queirós.
A vocação
universal da intervenção de Eça de Queirós articula-se ao intento de projetar
na personagem Fradique uma espécie de porta-voz do autor, dando visibilidade à ambiguidade
das fronteiras entre palavra/vida, ficção/realidade. A mesma ambiguidade que
envolve as atividades dos contrabandistas de escravos, na ótica de partidários
da escravatura, postura explicitada numa das cartas escritas por Arcênio de
Carpo: “Ao comprar um escravo estou a salvar-lhe a vida. Em sua opinião o tráfico
negreiro é uma forma de filantropia. Ele, como o pai, ama os negros e só por
isso os vende para o Brasil” (Agualusa, 1998, 63). A visão do tráfico de
escravos como uma forma de filantropia, uma caridade disfarçada, acaba por
igualar as pessoas, do abolicionista José do Patrocínio ao mais desumano
traficante de negros. A convivência entre diferentes funciona como postura
razoável de sobrevivência. O primeiro marido da ex-escrava Ana Olímpia, o
comerciante baiano Victorino Vaz de Caminha, morto em naufrágio, batiza seus
navios negreiros usando nomes denotativos de solidariedade universal:
Liberdade, Igualdade, Fraternidade, designação abonada pelos ideais iluministas
da Revolução Francesa. Numa sociedade marcada por desigualdades, exclusões e
misérias, o tráfico de negros avulta como uma atividade comercial rendosa para
alguns empresários negros, à mercê de intrigas, disputas e ambiguidade
ideológica.
O romance de
Agualusa sequestra ainda a técnica romanesca usada pelo romancista maior do
realismo português – a estrutura epistolar, por sinal, a preferida por outros
autores do Ocidente, preocupados em flagrar a intimidade das relações humanas,
(Chardelos de Laclos, Ligações perigosas).
Ser de papel, personagem criado nos interstícios da linguagem, Fradique
carrega, desde o projeto embrionário, essa volátil configuração de um ser que
se afirma nas cartas e cuja existência se esboça através do discurso. Delineia-se
como um sujeito feito da frágil consistência de palavras e da inconsistência da
imaginação. A falta de informe biográfico verdadeiro a respeito de Fradique
favorece a invenção. Em determinado momento da derradeira carta de Ana Olímpia
ao escritor Eça de Queirós, a correspondente afirma: “Pensava nos meus amigos
como personagens de um livro que houvesse lido. Angola era uma doença íntima,
uma dor vaga, indefinida, latejando num canto remoto da minha alma” (Agualusa,
1998, 158). O estatuto literário dos conflitos e da trama amarra os diferentes
ingredientes presentes nas cartas. Mesmo quando tenta evidenciar a diferença
entre vida e literatura, os argumentos condensam-se no intuito de desvelar a
íntima conexão das duas realidades: “Não, não faço literatura. E também não
tenciono, nem agora nem nunca, escrever memórias. Aquilo que de mais interessante
aconteceu na minha vida foram as vidas das outras pessoas” (Agualusa, 1998, 122),
escreve a personagem Fradique a Eça de Queirós. A forma epistolar funciona como
ingrediente expressivo na criação de uma dimensão polifônica, abarcando
diferentes vozes e contextos.
A
correspondência entre o refinado intelectual luso, Carlos Fradique Mendes, e a
abastada proprietária angolana, Ana Olímpia Vaz de Caminha, funciona como pano
de fundo para narrar uma época de grandes polêmicas e propagação de ideais
humanitários e filosóficos, a segunda metade do século dezenove. De permeio, o
autor revisita as cartas que circularam entre Eça e o brasileiro Eduardo Prado,
reveladoras de críticas ao vezo brasileiro de querer imitar a Europa. Ao final
desenvolve-se uma rica alegoria da união de raças: a festa de batizado de
Sophia, a filha do europeu e da angolana, nascida no Brasil, congrega inúmeros
militantes da abolição (José do Patrocínio, Luís Gama, André Rebouças, Manuel
Querino), numa celebração do “nascimento de um homem novo e de uma nova
civilização” (Agualusa, 1998, 128).
Esta nação de
mestiços, prenunciada no nome do navio, o mesmo do romance, surge fadada a ser
o lugar de um universal renascimento, um arremedo de paraíso. De que outra
maneira rotular esta descrição de Fradique?
AGUALUSA, José Eduardo. Nação
crioula. Rio de Janeiro: Gryphus, 1998.


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