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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Agarrar uma ideia no ar

Elas vagam indeléveis no espaço, acima, ao lado e abaixo de nossos olhos. Supõe-se que para obter seus favores ou deles se fazer merecedor é razoável ter uma imaginação fértil, ou pelo menos incentivada ou um pouco desenvolvida. Invisíveis, indeléveis, intocáveis e imprevisíveis, elas vagam no espaço, à espreita de quem dê por elas com algum interesse. Imprevisíveis, elas tanto podem obrar para o bem como para o mal, semi entidades trêmulas, estentóreas e explosivas.
Pensar uma ideia nova é uma coisa, registrar é outra bem diferente. Pensar é uma operação descompromissada, deixar-se levar por associações reflexivas sem limites, sem contorno preciso – viajar mentalmente. Registrar o fluxo do pensamento é uma operação sistemática, consiste em dar forma linguística ao resultado do processo. O registro demanda submissão às prerrogativas, nem sempre claras, da escrita.

                                 (Imagem: alguimiaeflorais.blogspot.com)
            O que vem na sequência resulta de uma dessas súbitas iluminações, nem sempre completas ou definitivas. A propósito, urge que se registre que, debaixo do sol, nada é definitivo. Na origem, importa referendar que houve um reencontro com os contos de Pelo sertão, do mineiro Afonso Arinos (1968-1916). Fiquei tardiamente surpreso, com a sensação de ali estava um grande livro, o que não ocorrera há quarenta anos atrás. Um universo ficcional riquíssimo e pouco explorado. Em geral as antologias e manuais encarecem como ponto alto três contos (“Assombramento”, “Pedro Barqueiro” e “Joaquim Mironga”). E então, como explicar? Só agora estava maduro para apreciar? Não, simplesmente só agora estava em condições de, antes de me entregar à leitura, situar o livro nas convenções de sua época. Quando somos jovens, não temos esse interesse ou cuidado. Começamos a ler e, se não somos fisgados nas vinte primeiras páginas, largamos de imediato o volume de lado. A dificuldade para fruir o livro de Afonso Arinos reside no vocabulário, um tanto classicizante, precioso e erudito. Algumas mostras, colhidas por alto: albarda, macho lunanco, cabritozinho mitrado, nutando no ar, albornozes, gorjal, uropígio, fulares, adestro, taful. Vencida a barreira do léxico, com a ajuda de um bom dicionário, somos capazes de apreender a grandeza estética ali presente, inclusive as insuspeitas conexões com a literatura de Guimarães Rosa, em especial Grande sertão: veredas. Farto material para estudos comparados. Do autor, preciso conhecer por inteiro Histórias e paisagens, de que só li “À garupa”, de arrepiar, pela atmosfera gótica, sombria (“uma verdadeira obra-prima”, segundo Herman Lima).
            Por enquanto, dedilhei apenas acordes sabidos. Como se revela ainda custosa de se tornar clarividente, a ideia nova, convém tentar transferi-la assim mesmo, meio informe e incompleta. Quando jovens, somos presas incautas daquilo que o cânone apresenta como o máximo, top de linha. Sem querer, escalonamos os autores numa grade ascendente e nos dedicamos com fervor a cultuar os mais elogiados ou consagrados. Nem sempre acertamos.

ARINOS, Affonso. Pelo sertão. Rio de Janeiro: Ed. de Ouro, s.d.


ARINOS, Afonso. Prosa. Apresentação e notas, Herman Lima. Rio de Janeiro: Agir, 1971. Nossos clássicos.

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