Livro do mês:
Acabo de ler, ou antes, folhear
avidamente, meio nocauteado, o livro Nuvem
cigana, organizado por Sergio Cohn. Um longo depoimento dos participantes
do grupo, entremeado de ilustrações, poemas, capas de livro e fotos. Uma energia pura, a amizade desses jovens,
reunidos em torno de poesia, droga, política, álcool e sexo no Rio de Janeiro agitado daquela década, como diz o sub título “Poesia & delírio no Rio
dos anos 70” .
Um deles se jogou de uma janela de arranha-céu, Guilherme Mandaro, no inverno
de l979, alguns meses antes da poeta Ana Cristina César fazer o mesmo, ali
perto. O diferencial, nos dois casos, é que produziram boa poesia, conhecida como poesia
marginal ou geração mimeógrafo. Outro, Charles Peixoto, de nome completo
Carlos Ronald Carvalho, é neto de Ronald de Carvalho, um dos fundadores da
revista Orpheu, 1915, que fascinou e
publicou Pessoa e Sá-Carneiro, na Lisboa do início do século vinte. De grupo
que publicava em precárias edições artesanais, conhecido como Nuvem cigana, em
razão da receptividade, o coletivo chegou a ter álbum (Navilouca)
editado pela Phillips, a gravadora multinacional.
Nuvem cigana é também o nome de uma
música de Lô Borges e Ronaldo Bastos: “Se você quiser eu danço com você no pó
da estrada/ pó, poeira, ventania”. Os integrantes tornaram-se profissionais em
áreas conexas, como jornalismo, cinema, televisão, teatro, música, cenografia,
editoria. Nos anos 70, eles faziam show de poesia, em Ipanema e Copacabana,
lugares exigentes no quesito qualidade, em se tratando de qualquer
manifestação artística. Produziram uma poesia alegre, com alguma pitada
coloquial, uma dose de humor, alguma prospecção reflexiva e um bocado de
experiência lúdica. A temática urbana é assumida com certo desbunde, um tanto delinquente, focada em drogas, pirações psicodélicas, numa fatura de
alta qualidade. Conforme diz Bernardo Vilhena: “Eu tinha uma estratégia muito
clara na minha cabeça: para ser popular, ao menos naquele momento, você
precisava ser romântico. Primeiro, era necessário conquistar um espaço: a
política, a porrada, vinha depois” (p.135).
Um
poema característico das tendências do grupo, este de Ronaldo Santos:
a
morte em mim não mata nada
a
não ser o corpo
ela
de mim não leva nada
a
não ser o morto
Em
“Revanche”, Bernardo Vilhena, prestigiado pelos produtores da música
popular brasileira, revela o alcance de sua pegada pop:
(...)
a
favela é a nova senzala
correntes
da velha tribo
e
a sala é a nova cela
prisioneiros
nas grades do vídeo
e
se o sol ainda nasce quadrado
quem
é que vai pagar por isso
(...)
Uma
estrofe de “Desabutino”, de Chacal, desbocado e sempre fora do tom:
(...)
quem quer
saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem
eira na beira dum calipso neurótico
um Orfeu
fudido sem ficha nem ninguém pra ligar
num dos 527
orelhões dessa cidade vazia
Eis os
integrantes: Bernardo Vilhena, Charles Peixoto, Chacal, Guilherme Mandaro,
Ronaldo Santos e Ronaldo Bastos, este último letrista do Clube da esquina,
movimento musical que reuniu poesia e música nos anos 70 em Minas Gerais (Mílton
Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Novelli, Nelson Ângelo, Wagner Tiso, entre
outros) e no Rio de Janeiro (os poetas Ronaldo Bastos, Bernardo Vilhena, o capista
Cafi). Bernardo Vilhena atuou intensamente nos anos 70 e 80 como parceiro de
importantes músicos, como Ritchie, Lobão, Cazuza, compondo canções de sucesso
(“Menina veneno”, “Revanche”). Três deles integram a antologia 26 poetas hoje, (1998) de Heloísa
Buarque de Holanda: Chacal, Charles e Bernardo Vilhena. Ronaldo Santos teria
declinado do convite para participar da antologia, inconformado com a conotação comercial do
projeto.
COHN, Sergio. Nuvem cigana - poesia e delírio no Rio
dos anos 70. Rio de Janeiro: Azougue, 2007.

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