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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Nuvem cigana

Livro do mês:

          Acabo de ler, ou antes, folhear avidamente, meio nocauteado, o livro Nuvem cigana, organizado por Sergio Cohn. Um longo depoimento dos participantes do grupo, entremeado de ilustrações, poemas, capas de livro e fotos. Uma energia pura, a amizade desses jovens, reunidos em torno de poesia, droga, política, álcool e sexo no Rio de Janeiro agitado daquela década, como diz o sub título “Poesia & delírio no Rio dos anos 70”. Um deles se jogou de uma janela de arranha-céu, Guilherme Mandaro, no inverno de l979, alguns meses antes da poeta Ana Cristina César fazer o mesmo, ali perto. O diferencial, nos dois casos, é que produziram muito boa poesia, conhecida como poesia marginal ou geração mimeógrafo. Outro, Charles Peixoto, de nome completo Carlos Ronald Carvalho, é neto de Ronald de Carvalho, um dos fundadores da revista Orpheu, 1915, que fascinou e publicou Pessoa e Sá-Carneiro, na Lisboa do início do século vinte. De grupo que publicava em precárias edições artesanais, conhecido como Nuvem cigana, em razão da receptividade, o coletivo chegou a ter álbum (Navilouca) editado pela Phillips, a gravadora multinacional.


            Nuvem cigana é também o nome de uma música de Lô Borges e Ronaldo Bastos: “Se você quiser eu danço com você no pó da estrada/ pó, poeira, ventania”. Os integrantes tornaram-se profissionais em áreas conexas à poesia, como jornalismo, cinema, televisão, teatro, música, cenografia, editoria. Nos anos 70, eles faziam show de poesia, em Ipanema e Copacabana, lugares bastante exigentes no quesito qualidade, em se tratando de qualquer manifestação artística. Produziram uma poesia alegre, com alguma pitada coloquial, uma dose de humor, alguma prospecção reflexiva e um bocado de experiência lúdica. A temática urbana é assumida com certo desbunde, um tanto delinquente, focada em drogas, pirações psicodélicas, numa fatura de alta qualidade. Conforme diz Bernardo Vilhena: “Eu tinha uma estratégia muito clara na minha cabeça: para ser popular, ao menos naquele momento, você precisava ser romântico. Primeiro, era necessário conquistar um espaço: a política, a porrada, vinha depois” (p.135).
           
            Um poema característico das tendências do grupo, este de Ronaldo Santos:

            a morte em mim não mata nada
            a não ser o corpo
            ela de mim não leva nada
            a não ser o morto

          Em “Revanche”, Bernardo Vilhena, o mais prestigiado pelos produtores da música popular brasileira, revela o alcance de sua pegada pop:

            (...)
            a favela é a nova senzala
            correntes da velha tribo
            e a sala é a nova cela
            prisioneiros nas grades do vídeo
            e se o sol ainda nasce quadrado
            quem é que vai pagar por isso
            (...)

         Uma estrofe de “Desabutino”, do poeta Chacal, desbocado e como sempre fora do tom:          

(...)
quem quer saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem eira na beira dum calipso neurótico
um Orfeu fudido sem ficha nem ninguém pra ligar
num dos 527 orelhões dessa cidade vazia

Eis os integrantes: Bernardo Vilhena, Charles Peixoto, Chacal, Guilherme Mandaro, Ronaldo Santos e Ronaldo Bastos, este último letrista do Clube da esquina, movimento musical que reuniu poesia e música nos anos 70 em Minas Gerais (Mílton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Novelli, Nelson Ângelo, Wagner Tiso, entre outros) e no Rio de Janeiro (os poetas Ronaldo Bastos, Bernardo Vilhena, o capista Cafi). Bernardo Vilhena atuou intensamente nos anos 70 e 80 como parceiro de importantes músicos, como Ritchie, Lobão, Cazuza, compondo canções de sucesso (“Menina veneno”, “Revanche”). Três deles integram a antologia 26 poetas hoje, (1998) de Heloísa Buarque de Holanda: Chacal, Charles e Bernardo Vilhena. Ronaldo Santos teria declinado do convite para participar da antologia, inconformado com a conotação comercial do projeto.



COHN, Sergio. Nuvem cigana - poesia e delírio no Rio dos anos 70. Rio de Janeiro: Azougue, 2007.

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