Ter amor a livros é o resultado
de décadas de leitura e de esforço continuado pelo conhecimento. O prazer de
montar uma biblioteca, só experimentado no limiar da maturidade, constitui-se
de pequenos cuidados e interesses. Na pena do escritor João Alphonsus, na
biblioteca do Conselheiro, havia estantes “largas e compridas, em cujas
prateleiras envidraçadas os livros se enfileiravam sem perplexidade alguma,
todos encadernados em marroquim marrom, (...) com um certo cuidado para que não
se lhes notasse a diferença de estatura, igualdade e fraternidade de
numerosíssimas obras em que o espírito humano se tem debatido, contradito, construído,
derruído, esperado, desesperado. (...) Existia uma estante especial, destacada
num ângulo, com raridades de bibliômano” (Alphonsus, s.d.,246-247).
Biblioteca,
no caso, refere acervo de mais de cem livros. Ainda que os critérios de escolha
sejam democráticos, não seria improcedente classificar os acervos, tendo em
conta a quantidade, numa ordem gradativa: de 100 a 500 exemplares, acervo
de baixo clero; de 500 a
1000 exemplares, acervo de clero médio; de 1000 exemplares em diante, de alto
clero.
(Imagem:vidaorganizada.com)
A procedência
de livros que formam um acervo quase sempre revela-se atabalhoada, demandada, fortuita ou bastarda. À exceção da última categoria, os livros costumam
procurar abrigo em lugares em que são bem-vindos: em geral caem em mãos de
pessoas que gostam de ler. Por analogia se dirá que as violas frequentam as
casas de violeiros. A maioria dos livros que possuímos foram obtidos, em
decorrência de escolha pessoal, motivada por variados fatores, que incluem
desde a afinidade eletiva, a relevância do assunto, o enfoque abordado, a
importância do autor. Outros foram trazidos ao espólio por conta de exigência
escolar, ao serem adotados para tarefas dos filhos. Muitos passam a
fazer parte de nosso acervo por doação de amigos, vizinhos, namoradas,
editoras, parentes ou dos próprios autores. A propósito, desenvolve-se no Brasil uma tradição
nefasta que consiste em esperar receber livro de
graça de um autor conhecido. Trata-se de um produto de consumo como qualquer
outro, sujeito a tributação e custo de produção. Na grande maioria dos casos, o autor não tem
autonomia ou direito sobre a edição, por conta de contrato editorial. A cota de
exemplares para divulgação (resenhas em jornal, blogs) envolve processo
complexo, participação de profissionais específicos. Assim como, no decorrer dos anos, vamos dando
baixa em alguns títulos, - entre os que são emprestados e não voltam, os que
desaparecem nas mudanças, os que são surrupiados engenhosamente, os que
perdemos, - existem os exemplares que fazem questão de vir até nós, os livros
bastardos.
Manusear livro
por si só a nada nos conduz. Cabe ter sempre um olhar curioso e analítico,
comparar uma edição recente com outra antiga, consultar uma citação na
fonte onde foi colhida, apreciar o efeito gráfico presente no desenho de uma
capa. O reencontro de uma banal dedicatória pode suscitar lembranças
agradáveis, reavivando a circunstância e contexto em que se tornou possível. Um
detalhe retorna, alguma reminiscência vem à tona. Além do prazer inerente à
leitura de um texto fictício, - acompanhar a trajetória de uma personagem,
expor-se à sensação provocada por um poema - o contato com os livros guarda
surpresas e emoções. O mais, tomando de empréstimo uma expressão de João
Alphonsus, do conto “A noite do Conselheiro”, são tretas de filósofos e
literatos.
ALPHONSUS,
João. A noite do Conselheiro. In: RAMOS, Graciliano. Seleção de contos Brasileiros - Leste. Rio de Janeiro: Ed. de Ouro,
s.d.

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