Livro do mês:
O romance Respiração
artificial, do argentino Ricardo
Piglia, empreende um mergulho no substrato cultural do Ocidente, numa
escala de tempo que abrange o final do século XIX e o século XX.
Tendo como base um incidente familiar – a aproximação de um
sobrinho em relação a um tio – desenrola-se a trama, impulsionada
por um rol de informações sobre um clã e um acervo de cartas. O
gênero epistolar mostra-se mais uma vez produtivo no sentido de
possibilitar a montagem de um grande painel, representativo de
aspirações, tradições, acervos, legados ideológicos e confrontos
de ideias. “... Gênero perverso: tem necessidade de distância e
de ausência para prosperar” (p.29).
(Foto: cosasquehemosvisto.wordpress.com)
A literatura evolui de tio
para sobrinho, este mote esclarece uma parte das ideias desenvolvidas
pelo autor, na medida em que o sobrinho torna-se detentor de farto
material histórico acumulado pelo parente, por sinal, um professor
de história isolado na província. Não é demais ter em conta que a máxima
é apropriada também à produção literária em outra parte do
continente americano, com a notável contribuição do chileno Jorge Edwards,
em especial no livro O inútil da família.
Ao acervo familiar acresce o legado de imigrantes fugidos da Europa
para a Argentina desde o final do século dezenove a meados do séc.
XX, a maioria da última leva de forma clandestina, em disparada fuga
da perseguição étnica levado a cabo pelo nazismo, enriquecendo
bastante o contexto cultural latinoamericano. Inclui-se, nesse
núcleo, a personagens Tardewski, um filósofo polonês, ex-aluno de
Wittgenstein em Cambridge, antes de se exilar na Argentina, secundado
por outros expatriados, como Groussac, no fim do século dezenove, e
posteriormente por Maier e o conde Tokray. Groussac “pudera
desempenhar aquele papel de árbitro, juiz e verdadeiro ditador
cultural. Aquele crítico implacável, a cuja autoridade todos se
submetiam, era irrefutável porque era europeu” (p.114).
De
um lado, o narrador produz extensa digressão sobre o perfil da
literatura argentina contemporânea, evidenciando sobretudo os
trabalhos de Roberto Arlt e Jorge Luís Borges, nas suas contradições
e diferenças. Destaca-se o debate em torno da ideia de nacionalismo
na arte, no sentido de a literatura assumir e depurar traços da
linguagem gauchesca, como forma de “preservar e defender a pureza
da língua nacional diante da mistura, da confusão, da desagregação
produzida pelos imigrantes” (p.123). No outro lado da balança,
flagra-se a especificidade da literatura argentina, ainda que
permeável à influência europeia. O pano de fundo do enredo tem por
moldura a formação literária do narrador, Emílio Renzi, e sua
relação com o tio, o historiador Marcelo Maggi. Os saraus tornam-se
lugares de trocas de informações na dinâmica da cultura, nos quais
as notas culturais e as idiossincrasias dos grandes autores são debatidas. Algumas
hesitações e tropeços estruturais pulverizam-se, mercê da
habilidade narrativa. O jogo de influência entre contemporâneos e
autores do passado fermenta densamente tais encontros entre
escritores e intelectuais. O confronto básico instaura-se entre a
literatura (concebida como espaço livre de representação
interpretada da realidade) e a política (vista como espaço
de manipulação de ideias e intolerância).
PIGLIA,
Ricardo. Respiração artificial. São Paulo: MEDIAfashion,
2012. (Coleção Folha. Literatura ibero-americana)

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