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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Massacre no monitor

      Londres é uma cidade reconhecidamente violenta. O romance policial parece-me um fenômeno típico de sociedades violentas. Não por acaso, consolidou-se como gênero literário respeitável na capital britânica.


      Escrevo ao arrepio de turbulências ocasionadas pela presença de vírus no computador. Deixo claro que sou aprendiz em aparelhos eletrônicos e similares. O desagrado atingiu o ápice com o recrudecimento da lentidão, marketing exacerbado, jogos clandestinos. Comprei um kit antivírus, um MacAfee devastador. De pronto foram identificados 8 vírus. Determinei que fossem eliminados com urgência. O computador voltou a funcionar, novo em folha. Naveguei na web em contentamento de lua-de-mel. No dia seguinte decidi instalar outro dispositivo, que viera acoplado ao kit. Pra quê? O micro ficou pesado, bloqueou a porta da internet. Fiquei possesso. Depois de tentativas frustradas de resolver o problema, resolvi consultar um amigo entendido na área. Explicou que eu teria instalado o segundo dispositivo (um Fireweellonix qualquer) no momento errado, prontificou-se a acompanhar in loco as reações estratégicas. Seria necessário desinstalar o antivírus e proceder a alguns ajustes específicos cujos desdobramentos ignoro. Eliminar os invasores da rede. Não basta localizar os vírus, cabe exterminá-los. Parecia estar na iminência de uma operação bélica, tal a sutileza de golpes e a dinâmica de movimentos. Diante da complexidade da trama e da possibilidade de reações adversas, solicitei um copo de suco de maracujá, na preliminar dos lances. Petrificado, lá estava eu, diante da luz baça do monitor. Eis quando, da lateral direita da tela, vi surgir, como um fantasma gráfico (aparentava ser uma bandeira branca, trêmula, que acendia-apagava), algo querendo instalar-se nos meus arquivos. Meu amigo o expulsava, ele voltava. O embate inglório repetiu-se três vezes, com a aplicação dos mais baixos golpes digitais que os dois lados dispunham. Sem falar no aspeto oneroso para o bolso. Era, porém, gratificante fortalecer meu defensor, incitá-lo a desferir bons sopapos no invasor de meus domínios. Na sequência de inúmeras tentativas, o monitor começou a dar indícios de que a situação caminhava para o desfecho positivo para o nosso lado (meu amigo passou a se envolver efetivamente na operação). Surgiu, como banner escandaloso, uma mensagem prometendo rastrear o invasor. Não parecia ser combatente de meia tigela. Pedi licença para desferir o golpe fatal. Cliquei, irritado, na iminência de esganá-lo. De imediato um mapa múndi chapado ocupou toda a tela, uma seta moveu-se para o território compreendido pelo Reino Unido. Ali ficou, piscando e apagando. Só então me dei conta do imbróglio e liguei os fatos. Há três meses fora abordado por um suposto tradutor inglês, interessado em me lançar no mercado editorial britânico, um súdito da rainha, vidrado pela minha combalida produção literária. Safado, pilantra. Conseguira infiltrar-se no computador, estava prestes a piratear todo o meu labor no campo das letras. Poderia, depois, traduzir meus contos, romances e publicá-los numa editora laranja na ilha do norte, na desdenhosa e gélida Albion. Do lado de cá, espoliado, tonto, desfalecido, mais um escritor brasileiro sucumbia, após tentar, em vão, espantar moscas tropicais, zoando ao redor da taça de caipirinha. Sem ver a cor dos direitos autorais. Mas se dera mal, bradei, ao cabo, após presenciar o golpe certeiro que o decepou e esquartejou, sob meu olhar vingador.

      Após uns copos de cerveja, o amigo disparou: Jamais abra arquivo terminado em .exe.

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