Londres é
uma cidade reconhecidamente violenta. O romance policial parece-me
um fenômeno típico de sociedades violentas. Não por acaso,
consolidou-se como gênero literário respeitável na capital
britânica.
Escrevo
ao arrepio de turbulências ocasionadas pela presença de vírus no
computador. Deixo claro que sou aprendiz em aparelhos eletrônicos e
similares. O desagrado atingiu o ápice com o recrudecimento da
lentidão, marketing exacerbado, jogos clandestinos. Comprei um kit antivírus, um MacAfee devastador. De pronto foram identificados
8 vírus. Determinei que fossem eliminados com urgência. O
computador voltou a funcionar, novo em folha. Naveguei na web em
contentamento de lua-de-mel. No dia seguinte decidi instalar outro
dispositivo, que viera acoplado ao kit. Pra quê? O micro ficou
pesado, bloqueou a porta da internet. Fiquei possesso. Depois de
tentativas frustradas de resolver o problema, resolvi consultar um
amigo entendido na área. Explicou que eu teria instalado o segundo
dispositivo (um Fireweellonix qualquer) no momento errado,
prontificou-se a acompanhar in loco
as reações estratégicas. Seria necessário desinstalar o antivírus
e proceder a alguns ajustes específicos cujos desdobramentos ignoro.
Eliminar os invasores da rede. Não basta localizar os vírus, cabe
exterminá-los. Parecia estar na iminência de uma operação bélica,
tal a sutileza de golpes e a dinâmica de movimentos. Diante da
complexidade da trama e da possibilidade de reações adversas,
solicitei um copo de suco de maracujá, na preliminar dos lances.
Petrificado, lá estava eu, diante da luz baça do monitor. Eis
quando, da lateral direita da tela, vi surgir, como um fantasma
gráfico (aparentava ser uma bandeira branca, trêmula, que
acendia-apagava), algo querendo instalar-se nos meus arquivos. Meu
amigo o expulsava, ele voltava. O embate inglório repetiu-se três
vezes, com a aplicação dos mais baixos golpes digitais que os dois
lados dispunham. Sem falar no aspeto oneroso para o bolso. Era,
porém, gratificante fortalecer meu defensor, incitá-lo a desferir
bons sopapos no invasor de meus domínios. Na sequência de inúmeras
tentativas, o monitor começou a dar indícios de que a situação
caminhava para o desfecho positivo para o nosso lado (meu amigo
passou a se envolver efetivamente na operação). Surgiu, como banner
escandaloso, uma mensagem prometendo rastrear o invasor. Não parecia
ser combatente de meia tigela. Pedi licença para desferir o golpe
fatal. Cliquei, irritado, na iminência de esganá-lo. De imediato um
mapa múndi chapado ocupou toda a tela, uma seta moveu-se para o
território compreendido pelo Reino Unido. Ali ficou, piscando e apagando. Só então me dei conta do imbróglio e liguei os fatos.
Há três meses fora abordado por um suposto tradutor inglês,
interessado em me lançar no mercado editorial britânico, um súdito
da rainha, vidrado pela minha combalida produção literária.
Safado, pilantra. Conseguira infiltrar-se no computador, estava
prestes a piratear todo o meu labor no campo das letras. Poderia,
depois, traduzir meus contos, romances e publicá-los numa editora
laranja na ilha do norte, na desdenhosa e gélida Albion. Do lado de cá, espoliado, tonto, desfalecido,
mais um escritor brasileiro sucumbia, após tentar, em vão,
espantar moscas tropicais, zoando ao redor da taça de caipirinha. Sem ver a cor dos direitos autorais. Mas se dera mal, bradei, ao cabo, após presenciar o golpe certeiro
que o decepou e esquartejou, sob meu olhar vingador.
Após uns copos de cerveja, o amigo disparou: Jamais abra
arquivo terminado em .exe.

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