Livro do mês: Navegação de acaso
Revelado há
mais de quarenta anos, Nuno Júdice vem construindo uma obra poética extensa e
multifacetada, que ultrapassa a marca de vinte e cinco títulos. Desde o início
identificado como voz dissonante em relação à tendência formalista e
fragmentária da década anterior, assume um registro discursivo, sem, contudo,
abolir por inteiro a obsessão em debater a especificidade da poesia, intuito
sugerido no título de estreia, A noção de
poema, (1972). Outros autores surgem também à altura, como João Miguel
Fernandes Jorge, com Sob sobre voz (1971)
e Joaquim Manuel Magalhães, com Consequência
do lugar (1974). O surgimento desses três autores motiva o conhecido
comentário de Eduardo Prado Coelho: “São estes os acontecimentos decisivos para
podermos assinalar uma linha de viragem na poesia portuguesa dos anos 70” (COELHO, A noite do mundo. Lisboa: 1988,
128). A enumeração poderia acolher outro poeta, de fluxo subjetivo, associações
inesperadas e áspera sintaxe, António Franco Alexandre, de Sem palavras nem coisas, (1974).
No caso de
Nuno Júdice, alguns vetores impõem-se para configurar a postura de um vidente, concepção
de raiz romântica e rimbaudiana, em que o poeta é visto como portador de parte
da sabedoria do universo, imerso numa rede de códigos fundamentais e
referências literárias esotéricas. A sedução de um léxico fortemente
contaminado pela prática romântica, retomado posteriormente pelos poetas simbolistas,
sedimenta uma escrita caudatária de um desenvolvimento lírico matizado por uma
nova perspectiva diante do sujeito, percebido como instância do discurso.
Construção de linguagem e espaço de reflexão teórica, a poesia retoma as
convenções da tradição lírica, sem ignorar o tom artificial, a modulação
erudita do repertório vocabular, o sentido ambíguo e a atmosfera fluida, nebulosa.
Navegação de acaso, livro em que os
poemas se mostram como “errantes navegações verbais” (p.11), último volume publicado pelo autor (2013), merecedor
do galardão Prêmio Rainha Sofia de poesia ibero-americana, partilha desse
entendimento prévio de que o universo poético instaura-se radicalmente num
território circunscrito pela conotação, do qual a denotação se encontra de todo
alijada: “Em vez de correr contra o tempo,/ separo de entre esses ramos de
imagens aquelas que/ me ditaram os versos mais obscuros, a luz/ de acaso que
deles surgia, em cintilações de sílaba,/ e um reflexo de madrugada na face
liberta/ de uma lenta sombra”, como se lê em “A manhã do poema”. A vidência, na
linha de Rimbaud, autor de decisiva influência em Júdice, (cf. “Alquimia” e
“Cântico do fogo”) supõe ainda o mergulho no inconsciente, a disponibilidade
para acolher as imagens obscuras do sujeito, vedadas aos outros homens. Embora
não seja a tônica do livro, esta faceta não está ausente, como se percebe em
“Fecundação” e outros dois textos, em que as imagens beiram as sugestões de
camadas psíquicas: “Derramo o esperma do sol sobre as éguas inseguras/ do
ocidente; emprenho-as com a vaga humidade de um relinchar de abismo;
(...)". A peculiaridade do discurso de Nuno Júdice subentende o fato de
não mergulhar no próprio percurso, no itinerário pessoal, na prática da
confidência. Frágil, tênue, por vezes tomada de um fôlego elevado, a voz lírica
não se compraz na autocontemplação: a meta é compreender o encantamento em face
do amor, da beleza, a extraordinária magia que cerca os gestos simples, as
razões pelas quais as pessoas se emocionam, mas também as notas disfóricas
diante de ruínas e mazelas sociais.
A mistura de
realidade e fantasia, a associação entre o plano real e o do sonho revela-se
num tecido verbal de conformação estética, num sistema de trocas entre um
sentido referencial e um outro assimilado, de natureza retórica: “E descubro-te
no fundo desta imagem, envolta/ no veludo de ausência em que os meus dedos/
sentem a tua pele, e tiram de dentro do nada/ o calor das palavras com que o
amor é esculpido/ na pedra do poema”, (versos finais de “O amor”). Na tentativa
de ouvir/decifrar o poema, em “Pedaço de real”, o poeta refere o uso de
recursos de linguagem (“o único recurso de que disponho são as próprias
palavras”), como ferramentas capazes de criar o efeito diáfano e volátil do
vivo arrebatamento, “algo que nasce/ de dentro do verso, e corre à minha
frente”.
Os lugares
privilegiados nesta poesia, sabidamente as paragens estilizadas pela imaginação
ou vidência, ancoram-se numa emblemática paisagem retórica, revisitada através
da metáfora, da citação ou do labor artístico. A instância estética, de que dão
sinais as associações à memória e a reiteração de alguns feixes semânticos
(ligados à “tinta”, “quadro”, “cores”, “pintor”, “desenho”, “luz”, “palavra”), precede
a realidade e assenta-se na concepção de arte como esforço artesanal e busca de
perfeição: “(...) o poema, ou/ esse objecto artesanal que sai/ perfeito das
mãos do oleiro, é/ afiado pela consciência de/ que só o que é exacto sobrevive/
no ouvido e canta” (“Proposta”). O cotidiano será sempre um pretexto para
encetar um périplo nos códigos eruditos da arte e da cultura, limiar de um
espaço autônomo propiciado pela tradição. No primeiro poema, “Cantar rústico”,
acompanhamos o interesse do sujeito em se purificar, para recepcionar a
natureza: “Limpo de tédio os meus olhos para te receber,/ ó primavera, e um
dilúvio de miosótis faz-me regressar/ à estação das chuvas, ouvindo o correr
das águas/ numa impaciência de estuário”, ao mesmo tempo em que registra o
movimento em direção à inefável pastora, integrado numa atmosfera de leveza e artificialidade,
na sequência de um ritual que se vai desenhando em detalhes, no qual o sujeito
lírico a despe “da sua túnica de écloga, para que o seu corpo beba/ um licor de
pétalas adormecidas”.
Ao longo do
livro, alternam-se duas séries que se distinguem e se complementam: a série da
epifania, com o encantamento diante da primavera, as visões femininas
deslumbrantes e a possibilidade de compreender o mundo pela via artística. A
série da devastação, de outro lado, mostra-se atravessada por “nevoeiros”, “marés
de sangue”, “naufrágios”, ruínas e miséria: “Mas era na terceira classe que eu
encontrava/ os pobres que se sentavam sobre cestos carregados de legumes/ e de
carnes secas” (“Infância”). No poema “Terra prometida”, o lugar de fartura e
felicidade não existe, a não ser “desertos”, “pântanos e “campo de serpentes”:
para além do “nevoeiro”, os inimigos só encontrarão “abutres”, que “os esperam
para limpar o que resta de carne/ nos seus corpos dizimados pela febre”.
Ainda que
sejam mínimos os vestígios escuros da realidade, as alucinadas imagens de destruição e ruína proliferam, “náufragos aproximam-se da costa, trazendo
notícias/ do abismo com a voz entrecortada por um soluço/ de anémonas azuis”. No poema “Regresso de Orfeu”, o sujeito poético,
ao constatar a sensação de exílio - “nenhuma/ paisagem me é familiar”, insinua
a definitiva impossibilidade de qualquer regresso, além do inexorável
desaparecimento da amada, num mundo adverso e hostil ao seu ofício.
JÚDICE, Nuno.
Navegação de acaso. Lisboa: Dom
Quixote, 2013

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