Francisco Azevedo, nascido em
1951, no Rio de Janeiro, traz em seu currículo atividades como diplomata,
poeta, roteirista de filmes, produtor de textos dramáticos e narrativos.
Publicou dois romances, O arroz de Palma
(2008) e Doce Gabito (2012), lançados
pela Record. A prática de textos publicitários e roteiros de cinema teria
contribuído para consolidar a formação de um escritor consistente, que tem o
que dizer e não se perde em experimentações vazias e inócuas, nem em tramas
insossas, desprovidas de interesse, como ocorre com alguns novos ficcionistas
brasileiros, tediosos e medíocres.
Em
O arroz de Palma, o narrador Antônio,
um idoso de 88 anos, envolvido nos preparativos da comemoração do centenário do
casamento dos pais, relata a história da família. Um grande almoço, ao qual os
irmãos também octogenários comparecem, será o centro da homenagem. O enredo, apresentado
em forma de recordações, tem como eixo um punhado de arroz, tratado numa
dimensão simbólica. Há cem anos, quando se casaram os pais, como era usual na
tradição portuguesa, foram saudados com uma chuva de arroz. A irmã do noivo,
Palma, recolhe os grãos e faz deles seu presente de casamento. Ao longo de
várias gerações, o arroz acompanha os conflitos e conquistas do casal que,
embalado por sonhos, transfere-se para o Brasil, fixando-se numa fazenda do
estado do Rio de Janeiro. Sempre com a presença de Palma, ali instalam-se,
criando filhos que lhe darão netos.
Ainda
que sujeita a dificuldades e contratempos, a família revela-se como núcleo
agregador, responsável não apenas pela preservação da cultura mas capaz de
processar mudanças e alterar conceitos. Vazado em linguagem coloquial, próxima
da oralidade, em períodos curtos, com a insistência em alguns dados, como
sucede em relato de velhos, o romance aproxima-se do estatuto do teatro, pela
incorporação de ingredientes da motivação cênica.
“No
universo, o belo e o feio, o alegre e o triste, o limpo e o sujo, o saudável e
o doente e toda a lista de adjetivos que completam os times do Bem e do Mal,
tudo faz parte de um grande espetáculo e das infinitas cenas que o compõem. As
pessoas todas formando um só elenco desde que o mundo é mundo. Tem que ter
mocinho, tem que ter vilão. Se não, qual a graça? Elenco somos todos. Por isso,
este tamanho entra e sai, esta gente toda no palco, esta constante troca de
atores, de figurinos, de cenários, séculos a fio” (p.312).
A interpretação caprichosa dos fatos, um
excesso de devaneios e certezas, a exatidão da lembrança descortinam uma certa
idealização deturpadora da realidade, evidenciada em algumas frases de efeito e
no registro voluntarioso de efemérides familiares. "Família é mesmo prato delicadíssimo, difícil de preparar" (p.252) A leveza de tom de que se
reveste a voz do narrador, um incorrigível otimista, acaba por refletir uma
visão superficial dos conflitos e uma rasa abordagem do contexto. A despeito da
abertura à expansão afetiva e sexual calcada na diferença, o resultado geral
evidencia mediana densidade estética como escrita romanesca. Dois ou três episódios, mais elaborados e sugestivos (ou cenas, para manter a convenção) conseguem libertar-se do discurso complacente, linear e homogêneo do narrador, uma mistura de contrarregra e chefe de cerimônia.
AZEVEDO, Francisco. O arroz de Palma. 9ª. ed. Rio de
Janeiro: Record, 1913.

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