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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Francisco Azevedo

Livro do mês:

       Francisco Azevedo, nascido em 1951, no Rio de Janeiro, traz em seu currículo atividades como diplomata, poeta, roteirista de filmes, produtor de textos dramáticos e narrativos. Publicou dois romances, O arroz de Palma (2008) e Doce Gabito (2012), lançados pela Record. A prática de textos publicitários e roteiros de cinema teria contribuído para consolidar a formação de um escritor consistente, que tem o que dizer e não se perde em experimentações vazias e inócuas, nem em tramas insossas, desprovidas de interesse, como ocorre com alguns novos ficcionistas brasileiros, tediosos e medíocres.
            Em O arroz de Palma, o narrador Antônio, um idoso de 88 anos, envolvido nos preparativos da comemoração do centenário do casamento dos pais, relata a história da família. Um grande almoço, ao qual os irmãos também octogenários comparecem, será o centro da homenagem. O enredo, apresentado em forma de recordações, tem como eixo um punhado de arroz, tratado numa dimensão simbólica. Há cem anos, quando se casaram os pais, como era usual na tradição portuguesa, foram saudados com uma chuva de arroz. A irmã do noivo, Palma, recolhe os grãos e faz deles seu presente de casamento. Ao longo de várias gerações, o arroz acompanha os conflitos e conquistas do casal que, embalado por sonhos, transfere-se para o Brasil, fixando-se numa fazenda do estado do Rio de Janeiro. Sempre com a presença de Palma, ali instalam-se, criando filhos que lhe darão netos.
            Ainda que sujeita a dificuldades e contratempos, a família revela-se como núcleo agregador, responsável não apenas pela preservação da cultura mas capaz de processar mudanças e alterar conceitos. Vazado em linguagem coloquial, próxima da oralidade, em períodos curtos, com a insistência em alguns dados, como sucede em relato de velhos, o romance aproxima-se do estatuto do teatro, pela incorporação de ingredientes da motivação cênica.



      “No universo, o belo e o feio, o alegre e o triste, o limpo e o sujo, o saudável e o doente e toda a lista de adjetivos que completam os times do Bem e do Mal, tudo faz parte de um grande espetáculo e das infinitas cenas que o compõem. As pessoas todas formando um só elenco desde que o mundo é mundo. Tem que ter mocinho, tem que ter vilão. Se não, qual a graça? Elenco somos todos. Por isso, este tamanho entra e sai, esta gente toda no palco, esta constante troca de atores, de figurinos, de cenários, séculos a fio” (p.312).

      A interpretação caprichosa dos fatos, um excesso de devaneios e certezas, a exatidão da lembrança descortinam uma certa idealização deturpadora da realidade, evidenciada em algumas frases de efeito e no registro voluntarioso de efemérides familiares. "Família é mesmo prato delicadíssimo, difícil de preparar" (p.252) A leveza de tom de que se reveste a voz do narrador, um incorrigível otimista, acaba por refletir uma visão superficial dos conflitos e uma rasa abordagem do contexto. A despeito da abertura à expansão afetiva e sexual calcada na diferença, o resultado geral evidencia mediana densidade estética como escrita romanesca. Dois ou três episódios, mais elaborados e sugestivos (ou cenas, para manter a convenção) conseguem libertar-se do discurso complacente, linear e homogêneo do narrador, uma mistura de contrarregra e chefe de cerimônia.

AZEVEDO, Francisco. O arroz de Palma. 9ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 1913.


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