Livro do mês
A maioria dos poetas que conhecemos de longa data compõem um
rol de autores que se enquadram em contextos sociais e culturais abrangentes,
com seu arco de influência, atuação intensa ou discreta em determinado contexto. Por
mais isolada e solitária seja a atividade poética, sempre nos habituamos a pensar
um poeta participando de um determinado movimento, publicação, ou grupo
específico. Aqueles que conhecemos mais tarde acabam por pertencer a uma
categoria obscura, por mais obstinada consideremos nossa busca investigativa –
são os poetas raros, de meio expediente, de produção reduzida, à primeira vista.
No Brasil, criada por Manuel Bandeira, vigora ainda a difusa designação de
“poeta bissexto”, para rotular o autor de poucos poemas, algo assim como o
poeta esporádico.
Não é esse o caso de José Terra, pseudônimo literário do
português José Fernandes da Silva (1928 - 2014). Além de poeta, e editor de poesia, foi também professor universitário em França,
ensaísta, historiador e tradutor (Camus, Mauriac, Georges Le Gentil, Giovanni
Papini). Com o título de Une façon de dire adieu, traduziu a poesia de Ruy Belo, publicada com prefácio de Nuno Júdice, em 1996 (Éditions L'Escampette, Bordéus). Dele, a editora Modo de ler, do Porto, acaba de lançar a
Obra poética, em bela edição, arejada e rigorosa. Além de compilar os livros do autor,
apresenta um prefácio com exaustiva apresentação da obra, a produção inédita e dispersa,
notas bibliográficas e uma “marginalia crítica resumida”.
Trata-se, no meu caso, de uma grata descoberta,
confirmada à medida em que fui lendo os poemas e tentando situar o autor.
José Terra atuou decisivamente na década de 50, como co-fundador das lendárias
revistas de poesia Árvore e Cassiopeia, tendo publicado quatro
livros - Canto da ave prisioneira (1949),
Para o poema da criação (1953), Canto submerso (1956) e Espelho do invisível (1959). O primeiro
livro foi recolhido pela censura salazarista, em razão do conteúdo libertário; o
terceiro recebeu o “Prêmio Teixeira de Pascoaes”, em júri formado por Sophia de
Mello Breyner Andresen, Augusto Casimiro, Ilídio Sardoeira, João José Cochofel e
Jorge de Sena; o último integrou a conceituada coleção “Círculo de Poesia”,
(Livraria Morais Editora, Lisboa). Menciona-se ainda a participação de grandes
artistas plásticos na confecção de capas: desenho de José Viana Dionísio no
primeiro livro, colagem de Fernando Azevedo no terceiro. Seria de se esperar, do
sofisticado acabamento da impressão, que se reproduzissem também as referidas
capas. A perseguição política estaria na origem do autoexílio do poeta em França. Na editoria de
a Árvore, contou com a parceria ilustre
de António Luís Moita, António Ramos Rosa, Luís Amaro e Raul de Carvalho.
O tom sóbrio e solene, o ritmo
grave, os motivos elevados, a atração pelos mitos marítimos, algum vocabulário
de acentuada herança helênica são traços que contribuem para caracterizar a
concepção de um poeta culto e refinado, garimpador de efeitos clássicos,
segundo a concepção, atribuída a Valéry, de que o verdadeiro poeta é aquele que
bebe nas fontes da linguagem.
“Áspera poesia/ quase sem
palavras. (...) Que eu estou aqui/ entre o mar e a terra/ à espera do vento”
(p.138).
A disciplina, o equilíbrio na
construção do verso livre, os vestígios de uma estética de perfil romântico, na
trilha do vate iluminado, confundem-se a um léxico de cariz simbolista, numa
atmosfera tosca, de pedra necessitada de polimento: “Sereno resplendor por onde
descem/ as minhas mãos raiadas de infinito./ Indivisível som onde intangível/ a
escritura límpida de um nome// só os deuses conhecem” (p.163) O repertório
léxico e as perífrases expressivas assinalam uma singular ordenação de códigos
da retórica tradicional, numa gradação em busca de uma alargada ideia de
modernidade: “gládio”, “sentinela”, “luar”, “cinza”, “crisântemo”, “noite irmã
dos suplícios”, “pedra”, “rapariga de maio”, “cintura de ânfora”, “rio de
sombra e silêncio”. A confluência de matrizes clássicas, românticas e
simbolistas, num enquadramento formal de base renascentista – o soneto – revela
uma rigorosa bagagem cultural: “Tropeço a cada instante em deuses. Enxames
deles sugam-me a cabeça,/ por vezes comprimem-se num rosto/ e o seu perfil de gavião recorta-se// na fronteira, na fímbria do real” (p.168).
José Manuel da Costa Esteves, no
prefácio, assinala, em relação ao último livro, Espelho do invisível: “O poeta lírico afronta os deuses, as forças
hostis, os monstros que se opõem à busca humana de perfeição, de harmonia, de
desenvolvimento de todas as capacidades criadoras” (p.16). Numa poética
intensamente marcada pelo motivo do canto, ainda que de forma rarefeita, os
seus sinais reverberam em muitas páginas: “Apoia, apoia a tua mão,/ deusa da noite, sobre o meu
cansaço. / Morro de pé, farto de lidar/ com homens, deuses, o eterno e o
efêmero” (p.180).


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