Livro do mês: Arquivo
e rota das sombras
A
poesia de Fernando Pessoa é generosa no uso do motivo da sombra,
como se percebe nesta sumária citação: “Neste mundo em que
esquecemos/ somos sombras de quem somos”; “O corpo é a sombra
das vestes/ que encobrem teu ser profundo”. A fortuna da sombra em
títulos de livros portugueses é considerável e surpreende. Reiterado em inúmeras obras recentes, equipara-se, em
volume, àqueles que tratam do sonho e da noite, todos repassados de
uma aura esotérica: Rápida, a sombra
(1974), de Vergílio Ferreira; Sombras e transparências da
Literatura (1983), de Manuel
Frias Martins;
Enumeração de sombras (1989),
de Nuno Júdice; De novo as sombras e as calmas (1990),
de Hélder Moura Pereira; Sombras e lugares
(1993), de Serafim Ferreira; A sombra do Rei-Lua (1990),
de José Jorge Letria; O cálculo das sombras (1997), de Eduardo Prado Coelho; Caminharei pelo vale da sombra
(2011), de José Agostinho
Baptista. No plano opositivo à sombra, os títulos que exploram a
luminosidade traem igualmente um significado esotérico ou revelam
herança do Realismo, configurando ressonâncias positivas, como o
impulso para o conhecimento e as notas eufóricas de celebração da
vida, traços mais ou menos visíveis, a propósito, em Claridades do sul,
de Gomes Leal, Nos
braços da exígua luz e
Fórmulas de uma luz inexplicável, de
Nuno Júdice ou Os
oficiantes de luz, de José
Jorge Letria.
A
literatura sempre é convocada para preencher as sombras, as vicissitudes e os vazios do cotidiano. A feição
ensaística dos trabalhos enfeixados em Arquivo e rota das
sombras radica no gosto de
enveredar no universo da hermenêutica, intuída como confluência de
análise e invenção. Por força da tendência transversal em que se
movimentam as assertivas e os comentários críticos, o nexo que os
sedimenta provém de um equilíbrio de enfoque que ora se move para o
terreno das ideias, ora para o campo específico da literatura.
Sobretudo, cabe reconhecer o pensamento aplicado em dupla direção:
o intento de se confrontar com temas e questões da cultura
contemporânea (alguns oriundos de época remota) e o esforço de ler
valorativamente um rol de autores. São debatidos os pontos de
contato entre a lírica de Camões e a de Pessoa, as coordenadas
narrativas de Eça de Queirós, Garrett, Sá-Carneiro, Saramago e
mais de uma dezena de ficcionistas contemporâneos, as dicções e
usos verbais da produção poética desde os anos de 1970 aos dias de
hoje (de António Franco Alexandre a Fernando Luís).
Dito desse modo pode parecer tratar-se de um uso tempestivo da
argumentação e da retórica, o que não seria de todo incorreto, se
é levada em conta, no âmbito das recensões, a gama intensa de
entusiasmo, inquietação e arrebatamento de que por vezes se
revestem as considerações. Convergência de variados enfoques, em
decorrência da aproximação do texto à teoria, o discurso crítico
demanda cada vez mais uma arejada constelação de interesses,
motivos e perspectivas. Da linguística à antropologia, da semiótica
aos estudos culturais, da filosofia à história e à teoria
literária, são extraídos ilações e conceitos, como suporte
teórico e elemento de apoio. Nesse entendimento de crítica
literária como lugar de uma atividade plural, entrecruzamento de
saberes e tensões, impõe-se a atenção ao pensamento de Eduardo
Prado Coelho, tendo em vista o vigor e a lucidez com que aproxima o
texto literário a diversas conexões teóricas e ideológicas.
Sobretudo no esforço em disseminar a ideia de crítica como
instância agregadora de outros discursos, circulação de
linguagens, “prática produtiva e transformadora”. Em suas
palavras: o encontro de “uma linguagem suficientemente autônoma
para que dela possa emergir uma escrita, isto
é, um percurso teórico-prático razoavelmente estabilizado e
coerente para que nele se dê conta de que há um corpo de
linguagem que vai ao encontro da linguagem de outros corpos – num
movimento de aplicação que nos implica até ao mais profundo do
nosso ser e a razão das coisas” (COELHO,
1979, 15).
Releve-se ainda o trabalho paciente de leitura e
divulgação efetuado por Gastão Cruz, António Ramos Rosa, João
Barrento, Joaquim M. Magalhães, Fernando Guimarães, Arnaldo Saraiva, Manuel Frias Martins, Paula Mourão,
Fernando J. B. Martinho, Eduardo Pitta, António Guerreiro e Fernando Pinto do
Amaral, dentre outros, quase todos também capacitados cultores do
verso, numa demonstração de que o fim de milênio em Portugal foi
pródigo não apenas numa sofisticada produção poética, mas também
no desenvolvimento de um agudo discurso crítico. Não seria ocioso
constatar que a renascença da produção poética observada no
período teria sido simultânea à expansão da atividade crítica,
minas de água que se encontram e fortalecem, como fenômenos
complementares e vitais, num século considerado de ouro para a
poesia, iniciado sob a chancela auspiciosa de Fernando Pessoa.
Jorge Fernandes da Silveira, Maria Lúcia Dal Farra,
Gilda Santos, Ida Ferreira Alves, José Carlos Barcellos, Gustavo
Cerqueira Guimarães, Tatiana Pequeno, Luís Maffei e outros pesquisadores brasileiros inscrevem seus nomes nesse
arquivo flutuante e inconcluso, como agentes de práticas discursivas
sobre a poesia portuguesa contemporânea, em franca expansão do lado
de cá do Atlântico.
O
conceito de arquivo, caro para o pensamento de Foucault, possibilita
abarcar não tanto a ideia de continuidade e preservação, mas o
risco de descortinar o transbordamento dos múltiplos horizontes, a
hesitação diante do limite e do recorte, a surpresa da
descontinuidade, na dinâmica da taxonomia. Não a soma dos
conhecimentos de uma época, a rigidez de convicções definitivas, e
sim a dispersa possibilidade de leituras e interpretações, numa
panóplia múltipla e constelada em que as diferenças se configuram.
Espécie de trincheira dos recursos do dizer, nem sempre sob o signo
da linearidade, o arquivo equipara-se também a um espaço onde as
práticas discursivas suportam os processos de reciclagem e
transformação, onde os traços expressivos são depurados para
representar os reflexos da história, os voos da transcendência, os
disfarces da subjetividade e os apelos de participação social.
COELHO,
Eduardo Prado. A letra litoral. Lisboa:
Moraes,
1979.
FOUCAULT,
Michel. A
arqueologia do saber. Rio
de Janeiro : Forense Universitária,1986.
Livro do mês: PEREIRA, Edgard. Arquivo e rota das sombras. Lisboa: Aldeiabook, 2014.
Raras vezes o livro do mês referido neste espaço corresponde a um livro lançado efetivamente no período. Mais uma circunstância digna de protocolo neste arquivo. Com capa de Ozias Lopes Filho, o livro será lançado no próximo dia 22 de abril, às 18:30 hs, na Casa da América Latina, em Lisboa, com a presença do escritor Fernando Pinto do Amaral.

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