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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Arquivo literário


Livro do mês: Arquivo e rota das sombras

      A poesia de Fernando Pessoa é generosa no uso do motivo da sombra, como se percebe nesta sumária citação: “Neste mundo em que esquecemos/ somos sombras de quem somos”; “O corpo é a sombra das vestes/ que encobrem teu ser profundo”. A fortuna da sombra em títulos de livros portugueses é considerável e surpreende.  Reiterado em inúmeras obras recentes, equipara-se, em volume, àqueles que tratam do sonho e da noite, todos repassados de uma aura esotérica: Rápida, a sombra (1974), de Vergílio Ferreira; Sombras e transparências da Literatura (1983), de Manuel Frias Martins; Enumeração de sombras (1989), de Nuno Júdice; De novo as sombras e as calmas (1990), de Hélder Moura Pereira; Sombras e lugares (1993), de Serafim Ferreira; A sombra do Rei-Lua (1990), de José Jorge Letria; O cálculo das sombras (1997), de Eduardo Prado Coelho; Caminharei pelo vale da sombra (2011), de José Agostinho Baptista. No plano opositivo à sombra, os títulos que exploram a luminosidade traem igualmente um significado esotérico ou revelam herança do Realismo, configurando ressonâncias positivas, como o impulso para o conhecimento e as notas eufóricas de celebração da vida, traços mais ou menos visíveis, a propósito, em Claridades do sul, de Gomes Leal, Nos braços da exígua luz e Fórmulas de uma luz inexplicável, de Nuno Júdice ou Os oficiantes de luz, de José Jorge Letria.
      A literatura sempre é convocada para preencher as sombras, as vicissitudes e os vazios do cotidiano. A feição ensaística dos trabalhos enfeixados em Arquivo e rota das sombras radica no gosto de enveredar no universo da hermenêutica, intuída como confluência de análise e invenção. Por força da tendência transversal em que se movimentam as assertivas e os comentários críticos, o nexo que os sedimenta provém de um equilíbrio de enfoque que ora se move para o terreno das ideias, ora para o campo específico da literatura. Sobretudo, cabe reconhecer o pensamento aplicado em dupla direção: o intento de se confrontar com temas e questões da cultura cultura contemporânea (alguns oriundos de época remota) e o esforço de ler valorativamente um rol de autores. São debatidos os pontos de contato entre a lírica de Camões e a de Pessoa, as coordenadas narrativas de Eça de Queirós, Garrett, Sá-Carneiro, Saramago e mais de uma dezena de ficcionistas contemporâneos, as dicções e usos verbais da produção poética desde os anos de 1970 aos dias de hoje (de António Franco Alexandre a Fernando Luís).



       Dito desse modo pode parecer tratar-se de um uso tempestivo da argumentação e da retórica, o que não seria de todo incorreto, se é levada em conta, no âmbito das recensões, a gama intensa de entusiasmo, inquietação e arrebatamento de que por vezes se revestem as considerações. Convergência de variados enfoques, em decorrência da aproximação do texto à teoria, o discurso crítico demanda cada vez mais uma arejada constelação de interesses, motivos e perspectivas. Da linguística à antropologia, da semiótica aos estudos culturais, da filosofia à história e à teoria literária, são extraídos ilações e conceitos, como suporte teórico e elemento de apoio. Nesse entendimento de crítica literária como lugar de uma atividade plural, entrecruzamento de saberes e tensões, impõe-se a atenção ao pensamento de Eduardo Prado Coelho, tendo em vista o vigor e a lucidez com que aproxima o texto literário a diversas conexões teóricas e ideológicas. Sobretudo no esforço em disseminar a ideia de crítica como instância agregadora de outros discursos, circulação de linguagens, “prática produtiva e transformadora”. Em suas palavras: o encontro de “uma linguagem suficientemente autônoma para que dela possa emergir uma escrita, isto é, um percurso teórico-prático razoavelmente estabilizado e coerente para que nele se dê conta de que há um corpo de linguagem que vai ao encontro da linguagem de outros corpos – num movimento de aplicação que nos implica até ao mais profundo do nosso ser e a razão das coisas” (COELHO, 1979, 15). 
      Releve-se ainda o trabalho paciente de leitura e divulgação efetuado por Gastão Cruz, António Ramos Rosa, João Barrento, Joaquim M. Magalhães, Fernando Guimarães, Arnaldo Saraiva, Manuel Frias Martins, Paula Mourão, Fernando J. B. Martinho, Eduardo Pitta, António Guerreiro e Fernando Pinto do Amaral, dentre outros, quase todos também capacitados cultores do verso, numa demonstração de que o fim de milênio em Portugal foi pródigo não apenas numa sofisticada produção poética, mas também no desenvolvimento de um agudo discurso crítico. Não seria ocioso constatar que a renascença da produção poética observada no período teria sido simultânea à expansão da atividade crítica, minas de água que se encontram e fortalecem, como fenômenos complementares e vitais, num século considerado de ouro para a poesia, iniciado sob a chancela auspiciosa de Fernando Pessoa.
      Jorge Fernandes da Silveira, Maria Lúcia Dal Farra, Gilda Santos, Ida Ferreira Alves, José Carlos Barcellos, Gustavo Cerqueira Guimarães, Tatiana Pequeno, Luís Maffei e outros pesquisadores brasileiros inscrevem seus nomes nesse arquivo flutuante e inconcluso, como agentes de práticas discursivas sobre a poesia portuguesa contemporânea, em franca expansão do lado de cá do Atlântico.
      O conceito de arquivo, caro para o pensamento de Foucault, possibilita abarcar não tanto a ideia de continuidade e preservação, mas o risco de descortinar o transbordamento dos múltiplos horizontes, a hesitação diante do limite e do recorte, a surpresa da descontinuidade, na dinâmica da taxonomia. Não a soma dos conhecimentos de uma época, a rigidez de convicções definitivas, e sim a dispersa possibilidade de leituras e interpretações, numa panóplia múltipla e constelada em que as diferenças se configuram. Espécie de trincheira dos recursos do dizer, nem sempre sob o signo da linearidade, o arquivo equipara-se também a um espaço onde as práticas discursivas suportam os processos de reciclagem e transformação, onde os traços expressivos são depurados para representar os reflexos da história, os voos da transcendência, os disfarces da subjetividade e os apelos de participação social.

COELHO, Eduardo Prado. A letra litoral. Lisboa: Moraes, 1979.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro : Forense Universitária,1986.

Livro do mês: PEREIRA, Edgard. Arquivo e rota das sombras. Lisboa: Aldeiabook, 2014.

      Raras vezes o livro do mês referido neste espaço corresponde a um livro lançado efetivamente no período. Mais uma circunstância digna de protocolo neste arquivo. Com capa de Ozias Lopes Filho, o livro será lançado no próximo dia 22 de abril, às 18:30 hs, na Casa da América Latina, em Lisboa, com a presença do escritor Fernando Pinto do Amaral.

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