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domingo, 12 de janeiro de 2014

Fábio Lucas

      Expressei recentemente a minha admiração por Fábio Lucas, pelo trabalho desenvolvido desde os anos 60 como crítico literário atuante (o adjetivo militante insinua-se, redundante e pernóstico, no caso). Esse olhar atento a várias gerações, poucos críticos o desenvolveram com igual inteligência e capacidade. O reconhecimento do trabalho de um crítico literário decorre da aprovação de uma parcela exigente - o leitor crítico, ele próprio candidato ao exercício do cargo. Uma ou outra rasura em avaliações panorâmicas (e seus ignotos subentendidos) não prejudica o mérito do conjunto da obra. Nesse aspecto, talvez, o débito maior derive daquele título mais pretensioso, ainda que toldado por inaceitável miopia diante da produção sobre questões de gênero e do recorte do corpus, a se observar o privilegiado contexto: refiro-me ao livro O caráter social da ficção do Brasil, de 1985. Alguns aventam a ousadia vigiada, a falta de coragem para fugir ou se antecipar ao cânone estabelecido. São circunstâncias históricas que terão, a seu tempo, o devido escrutínio.


      Não seria descabido, dada a importância de que se reveste, pretender a reedição dos livros de crítica de Fábio Lucas. Mesmo vivendo em Belo Horizonte, cidade onde mais demoradamente produziu, não consegui ainda reunir todos os seus títulos. Em voo de pássaro, a recente leitura de Horizontes da crítica (1965) descobre um profissional em pleno domínio de suas faculdades. Na apresentação, ao matizar suas "considerações literárias" (palavra valise que engloba "curtas referências", "opiniões datadas", "impressões antigas e novas", "expressões polêmicas e celebrações necessárias"), afirma o autor que "a crítica não dogmática flutua entre níveis de apreciação em que as circunstâncias chegam a ser quase determinantes". Uma passagem do prefácio, num discurso cioso de convicções nunca abaladas, revela um pequeno descuido. O final do primeiro parágrafo da página 6 soa falso e contradiz em certo aspecto a página anterior, na qual se afirma que a "explicação de textos e obras não pode nunca supor a própria eternidade, o que pareceria pretensioso e soaria falso".
      O conjunto, com capa de Mário Silésio, apresenta estudos longos e notas breves sobre diversos autores, muitos em abordagem preliminar, sobre os quais o crítico viria a se debruçar mais detalhadamente depois, (como Graciliano, Drummond, Henriqueta Lisboa, Murilo Mendes, Clarice Lispector), em comentários ainda pertinentes e lúcidos. "Quer-nos parecer que a ficção brasileira caminha a esmo, ao impulso espontâneo de algumas experiências de grande envergadura", assegura, certeiro.  Em especial, a literatura mineira mobiliza uma atenção redobrada:



      " (...) Rui Mourão, que vem numa luta diária tentando a fixação de uma linguagem capaz de exprimir certas reações coletivas; (...) Wander Piroli, na procura de uma ficção sem ramagens, a pôr em evidência os dados essenciais dos conflitos humanos, numa linha de despojamento que se acentua dia a dia; Ivan Ângelo, a exercitar-se na investigação dos valores plásticos do estilo; Mário Garcia de Paiva, que já provou sua capacidade no conduzir histórias bem urdidas, tentar o estudo das situações dramáticas, passando do enredo dinâmico ao tema estático; Silvano Santiago a explorar a ficção de atmosfera, etc." (p.196)

LUCAS, Fábio. Horizontes da crítica. Belo Horizonte: Movimento Perspectiva, 1965.

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