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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Antenor Pimenta

Livro do mês: A estrada de Salamanca

      O autor de ficção depara-se com a tarefa complexa de solucionar inúmeras questões básicas, as convenções de estrutura, temáticas, técnicas, de enredo, criação de eventos e personagens, a incidência de tempo e espaço, o foco narrativo, as imagens do mundo, as conexões sociais, as colorações nacionalistas (se for o caso). Alguns permitem-se o requinte de elaborar concepções estéticas, digressões sobre múltiplos assuntos (filosóficos, políticos, metafísicos, etc. ou de metalinguagem),  inovações narrativas ou estruturais, em obras de maior densidade. Neste último perfil enquadra-se o romance A estrada de Salamanca, de Antenor Pimenta. Ao leitor cabe acolher o pacto romanesco, com a aceitação tácita do cabedal de escolhas realizadas pelo autor.
          O início da carreira de Antenor Pimenta radica nos prêmios recebidos na primeira metade dos anos 80, na Revista literária da UFMG e alcança dimensão nacional com a publicação deste romance, em 1995, ao qual seguiram-se mais dois títulos, O último Aurélio ou o discurso adiado (1998)  e Réquiem para Monalisa (2000), todos pela  editora Rocco.


      Os eixos em torno dos quais giram as histórias neste livro envolvem tesouros enterrados, envolvimentos amorosos de prelados hedonistas com mulheres fatais, cobranças decisivas de dívidas sob afiadas adagas, ermitões vivendo em grutas, muralhas fantásticas construídas pelo demônio, cursos de água que aparecem e desaparecem,o suspense bem trabalhado, o erotismo aflorado, promessas ajustadas sob juras e punhal, o exotismo dos costumes castelhanos.  Na base, a matéria original firma-se na amizade de dois jovens, Juan e Fernando, ambos apaixonados por Isabel, moça de extraordinária beleza. No desenrolar da trama, o autor revela-se mestre em costurar situações envolventes, emolduradas no cenário pitoresco das aldeias, rios, montanhas e cidades de Espanha. Os sentimentos universais de prazer, medo, ódio, amor, ciúme, perpassam, multifacetados, numa intriga de efeitos surpreendentes. O autor impõe-se literariamente pelo apuro de linguagem, a vigilância contra o lugar comum e o uso de um estilo refinado, colorido e sugestivo, com forte dimensão poética.

      "Dom Carlos sempre surpreendia a esposa, Dona Conchita, com seus doces saborosos, naquelas tardes em que o casal apaixonado dividia a sede inconclusa, a melancolia implícita e a saudade antecipada" (PIMENTA, 1995, 239).

      "Os fatos desta história, que se sucederam numa carreira enlouquecida, arrastaram-nos de roldão, como um crocodilo a rodopiar a cauda, como um polvo levantando espumas nas águas do mar.  A velocidade dos expressos quase, quase, nos traía. As palavras, de um momento para outro, começaram a se precipitar com a espetacular celeridade da carruagem desgovernada na planície às margens do abismo. Quando isso acontece, ao cocheiro-escritor sobrevém a necessidade e a responsabilidade de acionar o breque, de aquietar a pena no tinteiro", (PIMENTA, 1995, 287).


PIMENTA, Antenor. A estrada de Salamanca. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

   

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