A comoção popular revelada na morte de Wando, cantor popular, no último dia 8 de fevereiro, é sintomática do papel e função da arte. De imediato, elimine-se a fronteira odiosa entre arte erudita e popular. Milhares de fãs interromperam a rotina cotidiana para homenagear o seu ídolo. A imprensa viu-se diante de um tema atraente, um ídolo popular, cuja fama teria sido construída em torno de acordes românticos, apelos eróticos e calcinhas femininas. O fato é que Wando se impôs na cena musical brasileira numa época de grandes talentos, imprimindo um estilo pessoal e timbre inconfundível a banais canções amorosas. O conjunto de sua obra não esconde uma linha irregular, com altos e baixos, fenômeno típico de todo compositor.
Entre suas canções, uma ficará, sem dúvida, pela feliz combinação de simplicidade e originalidade, "Fogo e paixão", em que se destacam os versos: "Você é luz, raio, estrela e luar/ manhã de sol, meu iaiá meu ioiô". Esses versos e sua melodia envolventes, confesso, sempre tiveram o condão de me acompanhar, às vezes de forma excessiva. Causava-me, a princípio, estranheza e repulsa o desvio da forma gramatical, "meu iaiá". Aos poucos me dei conta de que era um verso admirável: após enumerar várias sugestões de luminosidade, o poeta escorrega intencionalmente na gramática, antecipando a orgia amorosa, referida a seguir, com referência aos amantes se beijando na boca e rolando no chão. Como estamos no terreno da criação poética, não há mal afastar-se do rigor gramatical, desde que uma função expressiva se justifique. A busca de linguagem coloquial, por outro lado, atenua a ruptura com os padrões cultos. É raro perceber no cancioneiro popular, ainda mais nos dias que correm, tamanha habilidade no uso de efeitos expressivos. O que poderia ser visto como gratuidade viciosa na verdade é uma refinada construção poética. O povo reconhece e retribui, de forma generosa.

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