Livro do mês:
O livro de Edney Silvestre impressiona pelo acabamento literário, intriga envolvente, mistura de gêneros e dimensão alegórica. Para um estreante no gênero, trata-se de um grande romance, elaborado com sofisticada estrutura narrativa e engenhosa reconstituição histórica. Não surpreende ter arrebatado dois grandes prêmios em 2010: o Jabuti de melhor romance, o prêmio São Paulo de Literatura (categoria estreante). Um ano em que o Jabuti derrapou, com a polêmica premiação do romance de Chico Buarque, Leite derramado, (segundo colocado na categoria romance) alçado a o livro do ano. Se eu fechar os olhos agora revela um narrativa ágil, os fatos sucedem-se num ritmo acelerado, desde a primeira cena: dois garotos fogem da escola, vão nadar no lago e lá dão de cara com uma mulher morta, jogada no mato, o corpo mutilado. Começa então uma longa batalha para desvendar o crime. Paralelo à busca do verdadeiro assassino, transcorre o amadurecimento forçado dos dois garotos, que se vêem atirados numa realidade cruel. Recursos típicos do folhetim, associados ao ritmo investigativo do romance policial, criam uma atmosfera de suspense em torno da história da vítima, que se mistura promiscuamente com a história de uma cidade do interior fluminense. Violência, opressão, preconceito racial, taras sexuais, escândalos em suas mais torpes ramificações, diretamente relacionados à alta sociedade, vêm à tona e são esmiuçados. A verdade também vem à tona no desenlace, entre lances decisivos e trágicos, envolvendo a classe dominante da região, sustentada e validada pelos estratos judiciários, religiosos e financeiros.
Acabada a leitura, alguns pilares da arquitetura ficcional me inquietam. Como dois garotos, aparentemente ingênuos, acabam envolvidos numa trama policial? Recebem ajuda de um idoso ex-comunista, é verdade, um militante decadente, que no passado fora torturado pela polícia de Vargas. Até onde o estofo neorrealista, com sua moldura engessada, o gosto pelos detalhes, o enfoque maniqueísta, é um suporte produtivo na elaboração de uma obra que se pretende engajada na realidade brasileira das últimas seis décadas? A evocação do filme A doce vida, de Fellini, em que as imagens um tanto delirantes reverberam a hipocrisia das relações entre Estado e Igreja, não é apenas um aspecto circunstancial, ligado ao contexto dos anos 60: funciona como espécie de contraponto temático e estilístico, a um dos momentos de mais alta densidade crítica do romance. A meta proposta – delinear o seu alcance político – requer um breve percurso teórico.
Acreditam os adeptos da análise política da literatura que o desempenho deliberadamente engajado de uma obra pode produzir um efeito contrário, quando alguns elementos excedem em sua dosagem. Não se cogita no aspecto do engajamento como objetivo final, da intenção trotskista de defender uma determinada ideologia, com o natural desdobramento de se produzir arte como espaço de propaganda, resultando quase sempre numa arte de encomenda, panfletária, de precário valor estético. Edney Silvestre não faz arte desse tipo. Mas o excesso de situações politicamente corretas, envolvendo o estatuto do narrador, e o ímpeto de, através da escrita, atuar no sentido de fazer justiça, no sentido absoluto, são armadilhas escorregadias, propensas a escamotear o inconsciente político. Uma obra comprometida aparentemente com a dialogia pode colaborar para disseminar um conteúdo monológico. Dito de outro modo: um artefato estético construído com as torpezas da lama social e empenho idealista, ainda que recheado de boas intenções e voluntarismo positivo, pode ter um efeito reacionário. Um projeto literário aparentemente revolucionário, comprometido com os oprimidos, muitas vezes acaba se revelando reacionário. Aquela coisa de o leitor receber tudo pronto, mastigado e digerido. Falta o contraditório, sobra pouco para pensar e participar. Flávio Kothe afirma, de forma direta: “uma obra pode estar recheada de ideologemas de esquerda e acabar funcionando a favor da direita, assim como uma obra pode armar-se de ideologema de direita e adotar um ponto de vista narrativo contrário do autor para conseguir funcionar com maior contundência (Sâo Bernardo)” (KOTHE, 1981, 188). Em crônica publicada na Folha de São Paulo, há um ano, Luiz Felipe Pondé, peremptório e debochado, dizia não gostar de arte como “ferramenta de cidadania”, atributo que, a seu ver, faz da arte “coisa de retardado”.
De um lado, evidencia-se a recorrência a pressupostos idealistas na elaboração do enredo ao restaurar, de certa forma, a convicção de que a infância é um paraíso de inocência, justiça e solidariedade. Os heróis são dois garotos de classe média, empenhados em descobrir a verdade dos fatos relacionados ao assassinato, à revelia do interesse da própria polícia em fazê-lo. Para tanto, sacrificam a natural fruição dos folguedos. Plenamente convictos de sua verdade, opõem-se à grande maioria dos atores sociais. Por sua vez, a postura combativa de Ubiratan e sua militância no sentido de conscientizá-los tem paradoxalmente o condão de tornar caricata sua eficácia: “Os meganhas de Getúlio Vargas arrancaram todas as minhas unhas. Uma a uma. A sangue frio. Me torturaram. Mataram amigos meus” (SILVESTRE, 2010, 84). Alçado à instância interpretativa de sua própria fabulação, o teor crítico da personagem se vê esgarçado, diante de uma estrutura social sôfrega por divulgar os indícios de sua ruína. “- Em 1937 fui torturado pela primeira vez. A polícia de Vargas arrancou todas as minhas unhas. Uma por uma” (SILVESTRE, 2010, 196). A autovitimização, as referências à repressão da era Vargas, aliadas à instância idealista na feitura do relato (adolescentes no papel de bem sucedidos investigadores) funcionam como dados circunstanciais tendentes à inscrição num difuso projeto de engajamento.
SILVESTRE, Edney. Se eu fechar os olhos agora. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Suporte teórico:
JAMESON, Fredric. O inconsciente político. Trad. Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Ática, 1992.
KOTHE, Flávio. Literatura e sistemas intersemióticos. São Paulo: Cortez, 1981.tura e sistemas intersemióticos. São Paulo: Cortez, 1981.


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