
AURORA
para Edgard, a caminho da revista comemorativa de tantos inícios...
da água que não havia
bebi
bebi
e tudo passa a poder
existir
existir
aurora da minha vida
que os anos nunca trouxeram
que os anos nunca trouxeram
e ela ali no exato ponto
em que a história tinha fim
em que a história tinha fim
em que me cobria a água
de seu deserto sem fim
de seu deserto sem fim
e o deserto era a fonte
que fecundava o jardim
que fecundava o jardim
no meio do jardim a árvore
sem placas de não ou sim
sem placas de não ou sim
(eu podia não chegar
não precisava sair)
não precisava sair)
e foi um galope em relâmpago
a me trespassar de um passe
em cuja magia eu pendi
amarela fruta entreaberta
que acolhida colhi
a me trespassar de um passe
em cuja magia eu pendi
amarela fruta entreaberta
que acolhida colhi
(no sumo não consumido
me consumi consumada)
me consumi consumada)
aurora aurora
áurea áurea áurea
maria
foi assim
áurea áurea áurea
maria
foi assim
Léa Nilce Mesquita
Encontrei o poema de Léa Nilce Mesquita em meio a velhos papéis, “maio de 1998”, numa pasta esquecida, na parte mais escondida e fechada da estante. Sua publicação evoca, além da amizade, consolidada nos corredores da Fafich/UFMG nos anos de chumbo (1968-1971), o ímpeto, sobressaltos e arroubos da juventude. Carregado de referências simbólicas, sem perder a simplicidade, o poema é uma amostra da produção da autora. Ainda inédita em livro solo, Léa Nilce, além da atividade bissexta como poeta, editou dois tablóides literários: Talupa, em fins dos anos sessenta (1969), Lixeratura, no início dos anos setenta (1973). Participei, junto com Fábio Madureira, Magda Frediani, Neide Malaquias, Ronald Claver Camargo, Regina Souza e Maria Ignez Portugal, do voo libertário de Talupa. Visceralmente identificada com o movimento da poesia marginal, excluída de circulação, à margem da visibilidade.
Na foto, de 1998, em evento comemorativo do lançamento de Talupa/lixeratura, Léa é a primeira da esquerda para a direita, sentada, seguida de mim e Ronald Claver, vendo-se Maria Luiza Ramos em pé. A alusão presente na dedicatória do poema remete à seguinte publicação, onde se pode encontrar um breve histórico, acrescido de textos representativos dos autores:
Na foto, de 1998, em evento comemorativo do lançamento de Talupa/lixeratura, Léa é a primeira da esquerda para a direita, sentada, seguida de mim e Ronald Claver, vendo-se Maria Luiza Ramos em pé. A alusão presente na dedicatória do poema remete à seguinte publicação, onde se pode encontrar um breve histórico, acrescido de textos representativos dos autores:
MESQUITA, Léa Nilce. Talupa/Lixeratura 68/98: 30 anos. Belo Horizonte: Formato, 1998.
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