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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lembrando Portugal




      Tudo é pretexto para comemorar o livro do mês. Faz treze anos que passei três meses em Portugal, onde tem início e se desenvolvem dois terços da trama de Outono atordoado. Sim, primavera cá, outono lá, o frio dizendo a que viera com vontade. Algumas situações do livro são autobiográficas: não existiria o protagonista Onireves (o Severino de trás pra frente) se uma bolsa de estudos não fosse responsável por eu ter dado os costados em Lisboa, em outubro de 1996. E como esquecer o prazer de caminhar a pé na cidade, descer a avenida da Liberdade rumo do Rossio, atravessar o Chiado, percorrer o Terreiro do Paço e ficar maravilhado diante do Tejo? É verdade que me constipei, bancando o turista americano de camiseta branca e bota de couro. Nada que dois conhaques não curassem em dois dias. O difícil mesmo foi achar Conhaque na terra vinho. A residência em que me hospedei, na praça do Saldanha, próximo ao shopping Monumental, que lá se chama Centro comercial. A qualquer hora do dia e mesmo de madrugada, a segurança de poder voltar a pé para o hotel. Sem falar na rapidez, asseio e conforto nas incursões urbanas através do metrô. Os jantares no antigo cais de Alcântara, acompanhado pelos poetas Helder Moura Pereira e António Franco Alexandre, como esquecer? A perplexidade diante da estátua de Camões, na praça do Chiado. A sopa de tomate no café, de nome Grêmio Literário, no Bairro Alto. As livrarias e alfarrábios nos arredores do Teatro da Trindade. Os almoços e lanches no bar do Teatro d. Maria II. Assistir ali a uma peça, tendo o privilégio de avistar na plateia escritores de renome, como Lídia Jorge e Mário Cláudio. Conhecer poetas interessantes como Luís Manuel Gaspar, Fernando Pinto do Amaral (meu orientador, de quem recebi preciosas sugestões, em três longos encontros), Joana Varela, então prestigiada diretora da revista Colóquio-letras, Nuno Júdice, Fernando B. Martinho, Manuel António Pina (que nos recepcionou no Porto). As águas de uma coloração verde granítica do rio Douro, a fascinante ribeira da cidade do Porto. Obrigado a todos. Mesmo aqueles que vim a conhecer depois, por correspondência e intercâmbio, como Eduardo Pitta, Abel Barros Baptista.

      Como estou lendo relendo Vinícius de Morais, transcrevo, fazendo minhas as palavras do poeta, passagens da crônica “Obrigado, Portugal!”, publicada no Jornal do Brasil,em 15/6/1969:

      “A gentileza humana parece ter feito seu último reduto em Portugal. E quando eu falo em gentileza, dou-lhe quase a acepção medieval de amor cortês, de media, de mesura. É um povo que não levanta a voz, e ninguém pense que por covardia, mas por uma boa educação instintiva e um senso inato de afetividade. Essa desagradável invenção moderna, o berro, não encontra forma vocal na garganta de um português. (...)
      Isto é tão mais curioso quanto, apesar de pobre e subdesenvolvido em sua grande maioria, o português é um povo saudável e de bom aspecto, com boa pele e dentes magníficos, bem certo fruto de uma alimentação mais adequada: nada como o brasileiro menos aquinhoado das regiões pobres do País, no geral malsão e banguela, além de irônico e desconfiado por mecanismo de descrença e autodefesa.
      Obrigado, Portugal! No contato de tuas gentes, teus escritores e teus artistas, teus estudantes e teus simples – teu povinho das brancas aldeias! - eu senti que há ainda muito isso que cada dia mais falta ao mundo: carinho e sinceridade. Represados, talvez, mas latentes como o sangue sob a pele, e prontos a romper a crosta criada a duras penas, ao longo de um passado tão cheio de sacrifícios e infortúnios. (...)
      Obrigado, Óbidos, que pareces feita no céu, tão linda e pura, como uma avozinha menina que ainda usasse flores silvestres na cabeça. Obrigado, Évora, mãe alentejana de Ouro Preto, cidade onde mais que nenhuma outra se sente o Brasil colonial, o Brasil de Aleijadinho, cidade perfeita de gentil austeridade. Obrigado, Monserraz, que, esta não quero ver nunca mais porque se a ela voltar nela hei de ficar, entre seus muros brancos e seus homens e mulheres do mais franco olhar. Obrigado, Portugal. Resta sempre uma esperança. Eu voltarei”.

(MORAES, Vinícius de. Poesia completa e prosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,1986, p.655-656)

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