Cassiano Ricardo
Uma constatação impõe-se no que diz respeito à recetividade de poesia nos anos de 1950 a 1960: Cassiano Ricardo (São José dos Campos, 1895 – Rio de Janeiro, 1974), hoje um nome um tanto esquecido, era o poeta mais admirado e criticado no país. Desde a década de 1940, é nítido o apreço que os intelectuais lhe dedicam: em 1947, Roger Bastide publica dois artigos sobre o poeta, no suplemento cultural Letras e Artes, (21 e 28 de setembro). Há mais resenhas e artigos sobre a sua produção poética do que sobre qualquer outro poeta, nas décadas de 1950 e 1960. Um dos motivos deve-se ao fator temporal, Cassiano Ricardo estava na estrada há muito tempo: havia estreado em 1915, com o livro Dentro da noite. A década de 60 será decisiva para a consolidação da importância de Cassiano Ricardo na cultura brasileira. Expande-se a sua fortuna crítica, com a publicação de vários trabalhos sobre sua poesia: o ensaio de Oswaldino Marques, O laboratório poético de Cassiano Ricardo é de 1962; Mário Chamie publica Palavra - Levantamento na Poesia de Cassiano Ricardo em 1963. Em seguida, sua produção merece a atenção de expressivos nomes da crítica literária: Álvaro Lins o enfoca, em Jornal de crítica 6a. série, (1951); Sérgio Milliet dele se ocupa em Panorama da moderna poesia brasileira (1952); Eduardo Portela o estuda, em Dimensões I (1958); Péricles Eugênio da Silva Ramos o analisa em importante obra, A literatura no Brasil, v. III; José Guilherme Merquior dedica-lhe um ensaio em Razão do poema (1965), em que afirma: “Um poeta presente, querendo viver sem evasões, que aceita a luta e considera a eternidade uma forma de não-existência: não-existência, porque a força do atual, aqui e agora, exclui o eterno como abstrato, sem peso e sem resultado. Poeta solidário, de convivências”. Pertenceu à Academia Paulista de Letras, ao Conselho Federal de Cultura e à Academia Brasileira de Letras.
Cassiano Ricardo foi poeta, jornalista, historiador e ensaísta. Participou ativamente de grupos de militância moderna, como o Verde Amarelo e Anta, junto aos companheiros Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Cândido Mota Filho. Fundou, em 1937, a “Bandeira”, movimento político de oposição ao Integralismo. Dirigiu, à época, o jornal O Anhanguera, que defendia a ideologia da Bandeira, sintetizada na fórmula: “Por uma democracia social brasileira, contra as ideologias dissolventes e exóticas”. Eleito presidente do Clube de Poesia (1951), em São Paulo, reeleito outras vezes, instituiu um curso de Poética e incentivou a publicação de novos poetas. Seu primeiro livro revela um poeta lírico, influenciado por colorações parnasianas e simbolistas. O segundo livro, A flauta de Pan, (1917) integra-o na corrente moderna, incorporando ardorosa defesa da postura nacionalista. A produção seguinte situa-se entre as expressivas do Modernismo, com os livros Vamos caçar papagaios (1926), Borrões de verde e amarelo (1926) e Martim Cererê (1928). Com O sangue das horas (1943), empreende nova rota, na linha de um lirismo de introspecção filosófica, que se estende a Um dia depois do outro (1947). Na sequência, sua produção (A face perdida, 1950) evolui em densidade e adesão às experiências de vanguarda oriundas da Poesia Concreta: Jeremias sem chorar (1964) registra esta inquietação de um poeta experimental, de trajetória marcada pela constante renovação, aplicado às novas técnicas gráficas. Em poema sobre foguete interplanetário: “Apertei o botão mágico, / Desci como um anjo, agora, / de asa fechada (asa flechada) / dentro de uma fotografia. //E eis-me de novo, vil pedestre / que sobra na rua, como sobra / uma cobra / na calçada”. Sua vertente de historiador fica nítida em Marcha para o oeste (1940).
POÉTICA
Que é a Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.
Que é o Poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de Literatura Brasileira. 2. ed., coord. Graça Coutinho e Rita Moutinho. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fund. Biblioteca Nacional, ABL, 2001.

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