A China passa a participar da literatura brasileira, através de poemas de Machado de Assis, incluídos no livro Falenas, (1870), oito poemas que compõem a “Lira Chinesa”. A classe afortunada da época conhecia as ricas porcelanas, as estatuetas de marfim; antes de fazer a corte às musas chinesas, a poesia parnasiana celebrou tais quinquilharias, como Alberto de Oliveira o faz no soneto “Vaso chinês”, publicado em Sonetos e poemas (1885), num tempo em que temas exóticos e orientais estavam na moda. Voltaram. O crítico literário Hélio Lopes, mineiro de Muriaé, traz outras referências, no ensaio “O mistério do Vaso Chinês”:
“A década de 80 inicia-se com a deliciosa fantasia de Eça de Queirós, O Mandarim, (1880), tão lido e apreciado no Brasil, e Artur de Azevedo consegue grande sucesso de público e polêmica com a revista teatral O Mandarim, levado no Príncipe Imperial, em 1883. Olavo Bilac, estudante em São Paulo, publica sob o pseudônimo de Pe-Ho as suas “Cartas Chinesas”, em verso, na Vida Semanária e Luís Guimarães Filho, dos últimos parnasianos (1867-1940), inicia a carreira de poeta diplomata com Idílios Chineses (1897) e das viagens ao Oriente extrai Samurais e Mandarins, já impresso neste século, em 1911. Estas datas comprovam, em largos limites, o tempo em que a China, aberta às lutas de colonização e comércio, se foi descerrando para o Ocidente e despertava o interesse pela sua antiquíssima civilização e costumes estranhos.”
Ainda na moldura romântica, Fagundes Varela publica um poema (Vozes da América, 1864), em que deixa de lado as belas patrícias e cultua uma beleza sonhada dentro dos padrões orientais:
Quem eu amo, te digo, está longe;
Lá nas terras do império chinês,
Num palácio de louça vermelha
Sobre um trono de azul japonês.
Tem a cútis mais fina e brilhante
Que a bandeja de cobre luzido;
Uns olhinhos de amêndoa, voltados,
Um nariz pequenino e torcido.
Tem uns pés… oh! que pés, Santo Deus!
Mais mimosos que uns pés de criança,
Uma trança de seda e tão longa
Que a barriga das pernas alcança.
(…)
Este poema de Varela, "Ideal", recebeu de uma corrente da crítica brasileira um certo olhar desdenhoso, por considerá-lo uma tradução de conhecido poema de Theophile Gautier, "Chinoiserie". Dentre esses críticos, outro mineiro, Hélio Martins se dá ao trabalho de examinar os detalhes, num e noutro texto, para concluir que "A ausência de referência a Gautier torna-se então um pouco estranha e creio que será justo dizer que deveremos considerar 'Ideal' como um plágio, até segunda prova em contrário". Cabe referir que os estudos literários mais recentes, quando exploram os parentescos temáticos entre autores, tratam o fenômeno como intertextualidade. Semelhanças existem. O poema de Varela, a despeito da fonte francesa, desfruta grande popularidade.
A febre da China invadiu, também, o cinema, no gênero de filmes de aventura, há mais tempo: A dama de Shangai (1940), de Orson Welles; Pânico em Singapura (1954), de Robert Aldrich; A Chinesa (1967), de Jean-Luc Godard. Retomando a literatura, a cultura chinesa voltou a ter evidência: em tempos recentes, Haroldo de Campos e Paulo Leminski retomaram o diálogo com a poesia chinesa, traduzindo poemas da tradição oriental. O poeta luso Camilo Pessanha, residindo em Macau, traduziu poetas do Império chinês. Murilo Mendes, não contente em expressar seu desacordo à ocupação de Salzburg pelos nazistas, invocando Mozart, em telegrama a Hitler, posta uma "Carta aos chineses", em Poliedro (1972), nestes termos: "Com o vosso gênio decorativo e a finura multissecular da vossa raça, espero que construais, para substituir definitivamente a outra, uma bomba atômica minúscula, belíssima, própria para destruir formigas azuis e moscas verdes." E Anelito de Oliveira, também nos tópicos, em dias recentes, deu a lume a surpreendente miscelânea de crônicas e poemas, A menina chinesa (2019). Sem sair de Minas Gerais, nos dois últimos citados.
LOPES, Hélio. Letras de Minas e outros ensaios. Seleção e apresentação de Alfredo Bosi. São Paulo: Editora da USP, 1997.
MARTINS, Hélio. "Fagundes Varela, Gautier e a Princesa do Império Chinês". In: Do Barroco a Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasília: INL, 1983.
MENDES, Murilo. Poliedro. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972.
(Imagem: Kasa 57)

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