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segunda-feira, 19 de junho de 2023

Grandes polêmicas

      


         No final do século XIX, uma grande polêmica sacudiu a cultura, em Portugal e no Brasil. Camilo Castelo Branco, autor de Amor de Salvação e inúmeras novelas, pespega, maldosamente, uma passagem escrita por Fagundes Varela e divulga: "haviam brisas e passarinhos, ilusões e devaneios". Lembra, no pacote, que "havia regras para o verbo haver". Qualquer estudante do ensino médio sabe que o verbo haver, no sentido de existir, é impessoal, só se usando na terceira pessoa do singular. O novelista luso não tinha simpatias pelo Brasil. O reparo ao poeta brasileiro aparece em nota, constante em coletânea de poemas, organizada pelo português, Cancioneiro alegre.  Carlos de Laet, jornalista brasileiro do Diário do Comércio, irritado com a forma como o poeta romântico, falecido em 1875, havia sido tratado, alega que o equívoco devia ser desculpado, num prefácio escrito ao correr da pena, nos primeiro anos. E devolve esta pérola, encontrada num escrito de Camilo: "falenas a esvoaçarem-se...". Camilo não enjeitava briga, replica apoiado em citações de Castilho e Filinto Elísio, em Ecos humorísticos do Minho, endossando o emprego do verbo esvoaçar como reflexivo. E avisa: "Os senhores escritores brasileiros que me enviam preleções de linguagem portuguesa, se me quiserem obsequiar dum modo mais significativo e proveitoso, mandem-me papagaio, uma cotia e alguns frascos de pitanga. Quanto à linguagem, muito obrigado, não se incomodem". De volta à carga, Carlos de Laet encontra um erro semelhante no próprio Camilo: "houveram coisas terríveis". Com um lembrete: "O Sr. Castelo Branco quer que eu lhe mande uma cotia; pois tome a este "houveram", que também é bicho bravio, e veja se o aclimata em São Miguel de Seide". Em resposta, Camilo, ciente do solecismo cabeludo, afirma que não teria revisto as provas da gráfica, motivo pelo qual teria escapado o erro. E aventa a hipótese de o revisor, por conta própria, ter cometido a iniciativa de trocar o "houve" por "houveram", abonado por Francisco Manuel de Melo e outros clássicos da língua. Não cabia a ele, portanto, culpá-lo por isso, limitava-se a declarar que estava à espera da pitanga, da cacatua , e mais ainda, agora: de um macaco. Sem querer, Camilo justificava o erro que impiedosamente havia apontado em Varela. Laet, explicitando a incoerência do novelista, considera um detalhe. "Assim pudesse eu fazer em tudo a vontade do distinto literato português. Tanto insiste para que destas plagas lhe envie a pitanga e o macaco, entro a hesitar se devo mandar-lhe esse do antigo ou do novo continente. Sim, porque os há de uma e de outra parte do Atlântico". Corria o ano de 1878.

       

BROCA, Brito. "No tempo das polêmicas". Rio de Janeiro. (Supl. de A Manhã). Letras e Artes, 24506/04/1952.

                                                    (Camilo C. Branco. Imagem: Ed. Danúbio)

                                                     (Carlos de Laet. Imagem:Youtube)


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