Antes de publicar o livro Formação da Literatura Brasileira (1959), em que investiu mais de cinco anos de pesquisa, com o qual concorre para capacitação acadêmica na USP, Antonio Candido comeu o pão que o diabo amassou, tentando se consolidar como crítico literário. Após exercícios de crítica em rodapés de jornais, fundamentado por uma formação na área da sociologia, já havia publicado dois livros, o primeiro sobre o método hermenêutico de Sílvio Romero, o segundo, de maior envergadura, Brigada Ligeira, ambos lançados em 1945. Num contexto de grande efervescência cultural, em que a literatura desfruta de grande prestígio, a concorrência diante dos pares era acirrada. São editados grandes jornais, em capitais, em especial no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas também em Recife, Porto Alegre e Belo Horizonte, quase todos munidos de críticos militantes, Sérgio Milliet, Agripino Grieco, Olívio Montenegro, Álvaro Lins, Oscar Mendes, Eduardo Frieiro, Augusto Meyer, Tristão de Ataíde, Wilson Martins, Tasso da Silveira. Não seria despropósito afirmar que, ao lado de Afrânio Coutinho, Massaud Moisés e Eduardo Portela, Antonio Candido passaria a formar o quarteto de críticos literários mais capacitados em atuação no Brasil nos anos de 1960 em diante.
O começo, porém, não foi fácil, enfrentou caminhos tortuosos e pedregosos, nos anos de 1940, quando publica os primeiros artigos e resenhas. Época de grandes confrontos e debates, desde aqueles travados entre os escritores católicos e os socialistas, os anos de 40 a 60 foram palco de veementes conflitos, em que autores botocudos e brasílicos se digladiavam, por vezes, para reivindicar para si a bandeira de defensores de uma identidade nacional. Dentre os jornais em circulação, que agregavam suplementos literários, citam-se: Diário de notícias, Diário carioca, A Manhã, O Jornal, Correio da Manhã, do Rio de Janeiro; além dos paulistas, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Fortemente influenciada pela atuação corrosiva e irônica de Agripino Grieco, a crítica literária era, para muitos, concebida como trampolim para a visibilidade pública. Adonias Filho, dirigindo o prestigioso suplemento Letras e artes do jornal A Manhã, numa coluna (“Através dos Suplementos”) em que fazia um apanhado sobre os suplementos literários, assinada pelo pseudônimo Djalma Viana, refere-se desta forma ao então candidato a crítico: “O inculto Sr. Antonio Candido, embora não soubesse distinguir uma novela de um par de sapatos, ainda dava no couro e não faltava quem nele visse um Zé Veríssimo modernizado, formalista e cheiroso” (Letras e Artes, 79, 21/03/1948). A carreira de crítico literário de Antonio Candido, como se vê, não foi, desde os primórdios, festejada pelos pares. Nos anos de 1940, são encontradiços, nas primeiras remissões à sua intervenção como crítico de literatura, comentários pouco auspiciosos, ou mesmo adversos. Avaliações depreciativas eram corriqueiras nos suplementos literários, quando o foco dizia respeito aos trabalhos do crítico iniciante. Formado em sociologia, adapta para a análise literária conceitos e métodos oriundos de sua área. Resulta uma análise em que predomina o substrato teórico da sociologia: distancia-se dos conceitos próprios do discurso estético, dando primazia a postulados sociológicos. O mesmo Djalma Viana, poucos meses depois, afirma o seguinte: “O tal do Sr. Antonio Candido, que afinal nunca foi crítico e nem coisa alguma, permanece adormecido em sua mediocridade e no seu ostracismo. Em todo caso, para suavizar um pouco a pindaíba literária, temos em função o Sr. Sérgio Buarque de Holanda” (Letras e Artes, n. 104, 07/11/1948).O alvo costumeiro eram os poetas e romancistas. Desferir patadas e socos em aprendiz de crítico era algo inusitado.
O tom de pilhéria, além de veicular uma certa intolerância à crítica de tendência sociológica, ajusta-se, nesse caso, ao grupo de escritores católicos, no bojo dos ataques entre católicos e socialistas. Não seria ocioso recordar que Adonias Filho publicara o romance Os servos da morte em 1946, ficção marcada por uma rara densidade humana e estética, tendo sido alvejado por militantes da arte socialista. Por outro lado, em outras matérias, o articulista Djalma Viana, seu double, dava mostras de uma linguagem agressiva e hilária, repleta de trocadilhos e jogos de linguagem. Se manusearmos os cinco primeiros meses de 1946 da coluna Através dos Suplementos, além de uma série de expressões que demonstram birra em relação a Paulo Mendes Campos, vamos nos deparar com outras tiradas, pouquíssimas elogiosas: referindo-se à poeta Adalgisa Nery, diz: “de vez em quando canta como uma curiá nova”; “O Sr. Mário Pedrosa, que julguei mais sólido, tratando de arte, mostrou-se atrasado pelo menos de meio século”; “A crônica de Raquel de Queirós é uma uva argentina”; “E venha para as cabeceiras o Sr. Olívio Montenegro que devendo ser menos negro e menos monte, devia ser mais inteligente...”.

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