Nos anos 80 do século vinte, no contexto cultural português, ajustou-se à poesia então produzida uma imagem excessivamente colada a práticas homoeróticas e ambiguidade sexual. Variados fatores trabalharam no sentido de inflar a espuma nesse sentido. A liberdade vislumbrada com a Revolução dos Cravos (1974), após quatro décadas de autoritarismo, com a ditadura de Salazar, deitou ramificações em diversos setores da sociedade, notadamente na cultura. Paralela à extinção da ditadura, a independência conquistada pelas antigas colônias de África acrescenta novo ânimo às aspirações dos intelectuais, a classe mais sensível aos excessos de violência e opressão praticados pelo Estado português em décadas anteriores. Despontam nomes expressivos na poesia, atiçados pela efervescência dos movimentos de renovação em muitos setores da sociedade. Os intelectuais percebem chegado o momento de reintegrar a cultura do país ao quadro maior da cultura europeia. A irradiação, no plano internacional, de nomes tutelares como T. S. Eliot, Walt Whitman, Garcia Lorca, Phillip Larkin, dentre outros, faz reverberar, especialmente na Península Ibérica, ações positivas dos meios de comunicação, no sentido de divulgar a produção poética. O influxo de movimentos de imigração e deslocamentos, impulsionados pela vazante da expansão da economia globalizada, e a ação de agentes instalados em grandes instituições de fomento favorecem contatos de estudantes portugueses com estrangeiros. As pesquisas na área de ciências humanas e das artes recebem maior incremento. O sentimento de humanismo, o fervor libertário gestado pela sensação de tempo perdido no pós-guerra, a influência da teoria da libido freudiana são combustíveis suficientes para detonar uma atmosfera propícia à diversidade de experiência e à produção poética decorrente de novos influxos.
No contexto português, a tradição poética tem-se manifestado em sua pletora ao longo de todo o século vinte, desde o surgimento de Orpheu (1915), revelando a geração de Fernando Pessoa e Sá-Carneiro, passando pelos autores que fazem circular o periódico Presença (1927-1940), José Régio, Adolfo Casais Monteiro, Miguel Torga, João Gaspar Simões. Na sequência, vieram os Cadernos de poesia (1940-1953), que divulgaram Rui Cinatti e Jorge de Sena, seguido pela intervenção de A Árvore (1951-1953), apresentando nomes do quilate de Eugênio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Antônio Ramos Rosa, Egito Gonçalves. A década de 50 será assinalada pelos Cadernos do meio dia (1958-1960), com seus principais colaboradores, Carlos de Oliveira, Casais Monteiro, Raul de Carvalho, Mario Cesariny, Alexandre O’Neill, Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão. Seguiram-se o movimento de Poesia 61, encabeçado por Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge, e o grupo de Cartucho (1976), com João Miguel F. Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, Antônio Franco Alexandre e Helder Moura Pereira.
Alguns lançamentos, na década de 70 e 80, são marcantes, na guinada da produção poética portuguesa: Sob sobre voz (1971), de João Miguel F. Jorge; A noção do poema (1972), de Nuno Júdice; Área branca (1974), de Fiama Hasse Pais Brandão; Alguns círculos (1975), de João Miguel F. Jorge; Nos braços da exígua luz (1976), de Nuno Júdice; À procura do vento num jardim d’agosto (1977), de Al Berto; Despeço-me da terra da alegria (1978), de Ruy Belo; Os objectos principais (1979), de Antônio Franco Alexandre; Actus tragicus (1979), de João Miguel F. Jorge; Entre o deserto e a vertigem (1979), de Helder Moura Pereira; Técnicas de engate (1979), de Armando Silva Carvalho; Cidades indefesas (1980), de Fátima Maldonado; O último romântico (1981), de José Agostinho Baptista; Segredos, sebes, aluviões (1981), de Joaquim Manuel Magalhães; Poesia 1961-1981 (1981), de Gastão Cruz; Trabalhos do olhar (1982), de Al Berto; Visitação (1983), de Antônio Franco Alexandre; Sedução pelo inimigo (1983), de Helder Moura Pereira; Salsugem (1984), de Al Berto; Alguns livros reunidos (1987), de Joaquim M. Magalhães.
A análise da evolução da poesia portuguesa no fim do milênio, mantendo o foco no grupo de Cartucho, constitui o tema de meu livro Portugal, poetas do fim do milênio (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999).

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