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quarta-feira, 6 de abril de 2022

Gastão Cruz (1941-2022)

       Em homenagem ao poeta português Gastão Cruz, falecido recentemente (20 de março), divulgo parte de artigo sobre sua poesia. O artigo completo integra o meu livro de ensaios, Arquivo e rota das sombras (Lisboa: Aldeiabook, 2014).


       Gastão Cruz fez parte de poesia 61, a publicação coletiva que reuniu, além dele, Fiama H. Pais Brandão, Casimiro de Brito, Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge em torno de um projeto polêmico focado na fragmentação sintática e no distanciamento do sujeito. O poema busca em si mesmo uma densidade significativa, cujos suportes se firmam ora numa estrutura rígida de autorreferência, ora numa rede de ressonâncias contextuais. Uma das heranças dessa aprendizagem estética consiste precisamente no desenvolvimento de uma forte lucidez crítica diante dos excessos confessionais.

       Se em Campânula (1978) o compromisso metalinguístico é entranhado, gerando uma notável reflexão sobre os limites o os modos de organização da linguagem poética, a partir de Órgão de luzes (1981), desenvolve um percurso temático revelador de um certo afastamento do espaço público ou teórico, desaguando no domínio do próprio sujeito, com ênfase e acento nos desdobramentos da alteridade e da sexualidade. Autor de mais de vinte livros de poesia, com uma trajetória fundada na coerência e no rigor, Gastão Cruz também consolidou-se um competente crítico de literatura, tendo publicado em 1973 uma obra fundamental para o estudo da poesia portuguesa contemporânea – A poesia portuguesa hoje.

       Com As pedras negras, estamos diante de uma poética extremamente sofisticada e contida, em que a perturbadora obscuridade se torna um constante desafio. A brevidade dos poemas, a simplicidade dos títulos, em muitos casos retomando o diálogo cultural, não conseguem camuflar um sentido cada vez mais fugidio e disperso. Práticas poéticas como esta elegem seus leitores preferenciais – aqueles que a elas se entregam na perspectiva consciente de um entendimento facultado ao fim de um longo processo de concentração: “a idade lerá/ sobre um longo silêncio a palavra”. Uma visão de conjunto perceberá uma vasta constelação de motivos ou núcleos (embora não haja subdivisões explícitas) que se repetem de três a cinco vezes, de forma alternada e intensa: a série da cidade, geradora de amplas irradiações, inicia-se no segundo poema, de forma quase programática: “Ah, o olhar viaja/ nessas câmaras frágeis/ que interrogam o brilho das cidades”, disseminando-se em outros cinco poemas: “Outubro”, no qual lemos o fragmento há pouco citado; seguido de “Sons”, em que os vetores urbanos adquirem um contorno vago: “Os sons passam ao longe/ no seu interior como noutra cidade”. O cenário urbano prossegue ainda em outros textos, desenhando o amplo espectro da representação, sejam as “Grandes cidades afogadas em fumo...”, mencionadas em “Cidades” ou o ceticismo insinuado no poema “Nosso tempo”: “Não se pode escolher para o silêncio/ uma cidade ouvida quando os dias/ como estranhas fachadas se separam”, retornando um pouco adiante, em “After long silence”: “A cidade// voltará a chamar-me...”.

(...)

CRUZ, Gastão. As pedras negras. Lisboa: Relógio d’água, 1995.




(Revista do Centro de estudos portugueses. 31, Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2000, 365-367).



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