Leio um livro de memórias, em forma de diário, no formato conhecido como diário intelectual, registro de reflexões em geral, acrescidas daquelas derivadas de leituras. Como se trata de um estudioso e discípulo de Vergílio Ferreira, o renomado romancista português, autor de ressonância internacional (Aparição, Manhã submersa, Alegria breve, Para sempre) além do caudaloso diário (denominado Conta-corrente), o leque temático abre-se a várias dimensões, o que abrange desde a filosofia à crítica literária, a literatura de viagens às impressões sobre questões políticas, sem excluir o esboço de perfis intelectuais. O catatau de 412 páginas traz o sugestivo título de As palavras e os dias – A memória do caminho. Quem o assina é José Rodrigues de Paiva, nome de referência no âmbito da pesquisa à roda de literatura portuguesa, autor de numerosos volumes de crítica e ensaios. Dirigiu instituições culturais, (Gabinete Português de Leitura do Recife, Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano), editou a revista Encontro, vinculada à UFPE, de estudos luso-brasileiros. Poeta da geração de 65, com meia dúzia de livros de versos, notabilizou-se como ensaísta e crítico literário atuante. Dos livros nesta área, destacam-se O espaço-limite no romance de Vergílio Ferreira (1984); O lugar de Vergílio Ferreira na literatura portuguesa do século XX (2006); Vergílio Ferreira: Para sempre, romance-sintese e última fronteira de um território ficcional (2007); Em nome da escrita. Estudos sobre Vergílio Ferreira (2011), títulos que lhe granjeiam, com larga desenvoltura e sem nenhum favor, o reconhecimento por ser o mais capacitado especialista sobre o autor de Aparição em atividade no país.
As discussões a respeito da utilidade/não utilidade da escrita memorialística dividem as atenções do autor, num roteiro que percorre os anos de 2007 a 2013: “Um professor vive em função do calendário escolar, contabilizando a carga horária dos dias que se vão frenéticos, escravo do cumprimento de programas, de avaliações frustrantes e de constatações e resultados desgastantes,” anota em 13 de junho de 2009. No bojo do projeto, dele decorrente, visto vincular-se à trajetória de um docente universitário, em mergulho no próprio universo teórico e vivencial, convivem passagens dedicadas a recobrir atividades acadêmicas, como congressos, publicações, uma série de eventos que possibilitam a aproximação entre pesquisadores. Vitrines de autopromoção, tais encontros acabam por desnudar também o ambiente competitivo, o conflito entre o alto e o baixo clero no âmbito das universidades, o jogo de interesses, o quebrar de alguns bibelôs de cristal, as exaustivas fogueiras de vaidades do métier. Dada a aderência do gênero ao cotidiano, à realidade, alguns eventos políticos regados a poluição comparecem, em notas perplexas e indignadas.
Na sua parte substancial, o livro desenvolve-se em dois grandes eixos, a descrição de viagens, pródiga em citações de restaurantes e hotéis, e as notas de leitura, em que nos deparamos com um crítico implacável, capaz de enunciar os autores prediletos e aqueles pelos quais não nutre simpatia. Num e noutro caso, enumera os argumentos em que se fundamenta. Além de Vergílio Ferreira, José Rodrigues de Paiva revela grande interesse por outros escritores, como Camus, Marguerite Yourcenar, Miguel Torga, Fernando Namora, José Régio, sobre os quais apresenta esboços densos e ricos. Noutra perspectiva, não perdoa livros, para ele deploráveis, nos quais o autor perdeu a mão, tais como o romance Caim, o último publicado por Saramago: “não se sustenta como romance nem como obra literária de qualquer gênero”, afirma a 25 de agosto de 2010. Estende sua indisposição em face da produção terminal de Tabucchi e da narrativa de Lobo Antunes, um “narciso cheio de exibicionismos e contradições”, a quem considera influenciado por Céline.
Estamos diante não apenas de um estudioso de temas lusos, mas de um refinado admirador de lugares da cultura, que expande exatas notas nas descrições de viagens e de patrimônios, como o Palácio da Pena - “o cruzamento de Oriente e de Ocidente, do real e do imaginário, a síntese de todos os contrários à procura do belo e do fantástico” (21 de out. 2009), ou a Oficina Cerâmica Brennand, - “um parque de esculturas de estranhas formas (fálicas, totêmicas, eróticas, primitivas) instalado ao ar livre e dominado por um templo dedicado à criação sobre o qual uma cúpula azul filtra a luz que aquece um imenso ovo de que poderá subitamente eclodir o mistério ...” (27 de dez. 2013). Revela-se minucioso ao detalhar aspectos arquitetônicos tanto de Lisboa como de Coimbra, mas também um viajante cosmopolita, que se deixa surpreender por outras paisagens e culturas, como a riqueza paisagística e humana dos Açores ou a liberalidade de costumes exibida ao longo dos canais de Amsterdã.
PAIVA, José Rodrigues. As palavras e os dias, A memória do caminho. Recife: Dédalo, 2021.
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