Pedro Rogério Moreira regressa ao mercado livreiro, com mais uma publicação, desta vez uma novela, O livro de Carlinhos Balzac (2021), selo Topbooks. Ambientada no Rio de Janeiro das últimas cinco décadas, desenvolve um relato fictício centrado no mundo dos livros, envolvendo o suposto autor de umas Memórias secretas, vitimado pela pandemia. Ao mergulhar no próprio passado, Carlos Antonio Meirelles F. Rocha, mais conhecido pelo codinome de Carlinhos Balzac, registra as “confissões mais recônditas sobre pessoas e acontecimentos em torno de sua vida, no mercado financeiro carioca”. Ou, como sintetiza o prefaciador, “dá-nos a conhecer o perfil humano do homem que deixou marcas indeléveis na geração que dos anos de 1970 a meados da década de 1990 trabalhou e viveu grande parte da vida, alegre ou triste, mas sempre agitada, no coração financeiro do Rio de Janeiro, do Obelisco à Praça Mauá”. O alcance do meticuloso e detalhista autor das memórias expande-se além desse marco, agregando aspectos e ocorrências de tempos anteriores e a atmosfera e os anos de corrupção política da primeira década do novo século. A narrativa, em linguagem coloquial, ligeira e despretensiosa, de adjetivação por vezes excessiva e preciosa, oscila das falcatruas do ramo das corretoras e de eventos condizentes ao difuso e laborioso contexto de pequenas gráficas, passando pelo roteiro banal do cotidiano da periferia carioca e o indiscriminado rodízio de relações amorosas subalternas. Avultam candidatos a escritores, malandros e uma plêiade de ruidosos diletantes, com o desfilar pitoresco de títulos de subliteratura, palpitantes peripécias associadas a episódios de caserna, garotas de programa, jogo de bicho e religiosidade popular. Outro ponto de sustentação do enredo firma-se no fabuloso conhecimento literário do narrador, o qual não perde oportunidade de resumir um romance de Camilo ou de Balzac, e na contradição entre a rasura de escrúpulos do apostadores e agentes do grupo financeiro e o canhestro senso de culpa, a ideia envergonhada de uma moral repressora. A descrição do centro antigo do Rio revela-se nítida e minuciosa, focando lugares conhecidos famosos. O narrador não oculta um farto repertório de mediana erudição, com informações e curiosidades a respeito de alguns livros e autores.
Para uma ideia do estilo, leia-se o final do cap. I:
“Humberto de Campos falava muito mal dos outros e fazia vista grossa àquela boutade de procedência francesa segundo a qual se todos soubessem o que uns falam dos outros, não haveria quatro amigos neste mundo. Seja como for, a inveja campeia no mundo. Não veem o Vitório? Inveja-me demais da conta! Em Campos, vivia me seguindo à sorrelfa, na livraria Ao Livro Verde (uma das mais antigas do Brasil), para saber qual romance de aventura da coleção Terramarear da Companhia Editora Nacional eu comprara para o meu deleite.
Uma desgraça, a inveja!”
MOREIRA, Pedro Rogério. O livro de Carlinhos Balzac. Rio de Janeiro: Topbooks, 2021.

Nenhum comentário:
Postar um comentário