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terça-feira, 9 de novembro de 2021

Caio Junqueira Maciel

 

A evolução da atividade literária decorre da convergência de inúmeros fatores que envolvem atores variados, nem sempre conscientes de seu contributo. Dentre esses actantes avultam os poetas, esses intrépidos sobreviventes, empenhados no cultivo das palavras aladas (por vezes “palavras despenhadas/ sobre cactos e espinhos semeadas”, no dizer de Jorge de Lima) e no intercâmbio com as musas. Nesta cadeia, os glosadores portam-se como os fiéis cavaleiros medievais, seduzidos pelas sutilezas do ritual de uma vassalagem tácita, um tanto divididos entre o rigor da retórica e a livre circulação dos astrolábios. Pouco, ou quase nada, se falou do último livro de poemas de Caio Junqueira Maciel, Igrejinha do Rosário, dado a lume em data recente.

O interesse em apresentar uma visão de conjunto, um quadro completo, acaba por se esgarçar quando nos deparamos com um livro de poemas de temática tão extensa e diversificada, em seu aparente formato restrito. O escopo de inserção no panorama da moderna poesia brasileira evidencia-se nas primeiras páginas, em “soneto mineiro”: “a poesia… me acompanha noite e dia,/ como à cozinheira, o rádio de pilha,/ comigo estão Nise, Glaura, Marília...”. Cada poema reivindica sua autonomia, minando, de certa forma, o esforço de captar a ideia panorâmica. Resta, dessa forma, a tentativa de buscar juntar as pedras que sustentam o edifício, ciente de que os poemas “expressam tão somente o necessário,/ são concisos como a Igrejinha do Rosário”. Não seria, porém, desavisado, observar que o compromisso com o local, com o território e a cultura do contexto não significa desdém pelas trilhas das grandes coordenadas universais de “humanos seres serenos/ aflitos seres humanos”.

O recorte nacionalista agrega elos intertextuais, como ressaibos de um longo discurso penitente, em especial com a matriz romântica, ecoando dicções poéticas de Gonçalves Dias, seja no sentimento de despaisado ou no protesto telúrico em face da degradação ecológica: “Não permita Deus que morram/ Cabriúvas e jatobás, / Nem que desmatem perobas, / Pau-d’alhos, jequitibás, / Não triunfem as motosserras / Onde cantam os sabiás”. O labor produtivo a partir de obras canônicas, em que o legado da literatura tradicional (Machado, Érico Veríssimo, Drummond, Clarice Lispector) passa por um processo de releitura e gestação de novos frutos, assinala uma rica pegada pós-moderna, tendente à evocação de uma metapoesia. O descompasso, o desequilíbrio entre o sonho e a realidade volta a esboçar um grito de socorro diante da degradação a que a natureza se vê exposta, no contundente poema “Panorama visto da ponte”: “Ai águas mudadas no mais podre vinho / Amargando o rio em seu curso e foz, / Rio que capenga, aleijadinho, / Levando os pecados de todos nós”. A paixão pelo Vasco da Gama atesta uma dupla vertente, a importância do futebol na vida nacional e a natural disponibilidade às perdas: “Menino sem jeito, / Assumiu a caravela, / Alquebrado almirante, / Pronto pra qualquer naufrágio”.


MACIEL, Caio Junqueira. Igrejinha do Rosário. Bragança Paulista: Urutau, 2021.




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