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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

José Lins do Rego

       Releio Fogo morto, clássico da ficção brasileira. Décimo romance do autor, publicado em 1943, obra-prima indiscutível, coroamento de longo processo de maturação de técnica e fatura. Um estupendo narrador, reconhecido por Mário de Andrade, de forma exclamativa" "...e que obra-prima!" O ritmo ágil, a dimensão humana delineada, a naturalidade como os traços físicos vão se ajustando à análise psicológica, o equilíbrio entre a nota pitoresca e a espessura universal, tudo ali vem repassado de bom gosto e justeza. A visão de conjunto decorre de inúmeros fragmentos, a lanterna apontada num detalhe aparentemente excessivo. Três personagens agregam nítidos recortes sociais: o seleiro José Amaro, referência axial; o decadente coronel Lula de Holanda, com sua loucura; o capitão Vitorino da Cunha, com sua dramaticidade e ambiguidade, vagando nas tardes ensolaradas, sob cajazeiras copadas. A obra erige um intricado mural da sociedade nordestina, flagrada nos estertores da ruína, da nobreza aviltada e da decadência. O único reparo a ser feito incide no excesso de repetições.

      Álvaro Lins expande-se em ilações e comentários: "O Sr. José Lins do Rego é um romancista representativo do estado de espírito de um povo; a sua tristeza é o sentimento coletivo de um povo triste. Acrescente-se que em nenhum momento a sua tristeza foi mais pungente do que em Fogo morto. Grande parte do seu êxito estará na sua excepcional capacidade de comoção, nessa tristeza que o romancista salvou da sombria amargura pelos seus dons de simpatia e generosidade. A simpatia para compreender as figuras mais miseráveis, a generosidade para se irmanar com os seres vencidos e desgraçados. (...) Várias vezes o romancista volta a falar da estrada, deste pedaço de terra no qual se movimentam os personagens, como a fixar um contraste entre a natureza física e a natureza humana. A natureza física num esplendor de força e beleza que determina a alegria; a natureza humana dominada pela miséria, pela doença e pela tristeza" (LINS, 1963, 132-133)


LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.

REGO, José Lins do. Fogo morto. 51a. ed.  Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.

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