Caio Junqueira Maciel disponibiliza, em Um estranho no Minho (Viseu, 2020), uma novela de feição picaresca, integrada à rica tradição ibérica de literatura de viagem, cuja matriz se configura em Viagens na minha terra, de Almeida Garrett, aliando as andanças de um brasileiro por terras lusas ao conhecimento de costumes, tradições e cultura da região minhota. A obra representa também uma irônica imersão na linguagem regional, aspecto relevante na estrutura, responsável, dentre outros artifícios, por uma vertente arejada e fogosa, dada a presença marcante de expressões hilárias, com ênfase no erotismo. Não se trata de um narrador qualquer, mas um intelectual perito em forjar, com destreza, ambiguidade e trocadilhos, no uso da polissemia, em decorrência de extenso exercício poético a que se tem votado - “por estas plagas e bragas”, “… sou Roberto Mario Toledo Uchoa (embora muitos me chamem de ‘tolerdo à toa’)” (MACIEL, 2020, 80). As oscilações semânticas, como se vê, tendem a ser produtivas. A revoada de pesquisadores por terras estrangeiras, à cata de capacitação, nos recentes anos encarnados de economia aparentemente eufórica e certa miopia às negociatas, ensejou uma avalanche de alfarrábios recheados de notas preciosas e filigranas de linguagem:
“Vi passar um rapaz, que me pareceu ser o Raphael Ribeirinhas Couto. Comentei com Isabel e ela disse que sim, era mesmo ele, ‘aquele estudante gato que vimos no comboio’. Mas me vinguei, porque gata mesmo era uma das meninas sentadas com António no barzinho Rossio, junto à Sé. Havia várias pessoas, inclusive as irmãs Mogianas, do Espírito Santo. A menina gata era gaúcha, seu nome é Cecília. Na mesma hora tive vontade de escrever num guardanapo: pensei que as estrelas cintilam; em verdade, elas cecíliam” (MACIEL, 2020, 118).
Expressões regionais misturam-se a citações latinas ou de livros antigos, a lances de quimbundo africano, tornando por vezes a leitura penosa, exigindo a tradução para o português atual, daí o necessário e útil “Glossário”, (infelizmente incompleto), que antecede a narrativa. Esta, no entanto, prossegue, ágil, exuberante, sem perder a atmosfera afobada de escrita aglutinadora de raridades léxicas e situações divertidas, como as aparições fantasmáticas do velho Ortiz embrulhado num capote, as bengalas que pulam, os diálogos picantes de vizinhos, captados do outro lado das paredes, o registro reiterado de cópulas ruidosas, as alusões constantes a excitadas mulheres no “cachondeio” (no cio) e as investidas sedutoras do narrador, diante de belas moçoilas. O ambiente meio carnavalesco, propício às aldrabices (trapaças), favorece a intromissão do fantástico e de mudanças de identidade, ao sabor de conotações boêmias, denominado por uma variante intempestiva de cognomes, atribuídos ao narrador, tais como Roberto, Saltão, Macedo Barnabiças, Golpelha, Zaqueu.
E aqui chegados, até para organizar um pouco o discurso, urge convocar um sopro de seriedade. Desde E. M. Forster, (em Aspects of the Novel, 1949) sabemos que o estatuto do romance define-se por ser um gênero que conta uma história, nela tendo o seu eixo básico. O que é história? É a narração de um acontecimento em ordem cronológica: o jantar depois do almoço, a terça-feira depois da segunda-feira, assim por diante. A amplitude da matéria, no entanto, nos leva adiante. Temos, na vida cotidiana, muito mais eventos ou efemérides do que o Tempo, os valores que se instalam entre nós e as coisas, os quais não têm importância segundo os minutos e as horas. Nossa vida cotidiana bifurca-se em duas vidas, conforme o Tempo e conforme os valores, esses responsáveis pela intensidade. A obediência ao tempo é compulsória; a alternância temporal, no corpo do relato, fica evidente no formato estruturante: a forma de diário. Acontecimentos e ocorrências do mundo real mesclam-se a episódios e peripécias fictícios, embrulhados em digressões literárias. A matéria romanesca recobre as atividades e diligências de um cônjuge, acompanhante da esposa em processo de capacitação acadêmica em Braga, Portugal. À volta da cidade, há os monumentos e os habitantes, envolvidos em sua rotina, além de outras cidades merecedoras de serem desbravadas pelos atrativos turísticos e históricos. O assunto decorre propriamente, ainda, do processo de registrar os dias e as atividades, obviamente contaminadas por valores impalpáveis, o que envolve as leituras empreendidas (ou rememoradas), além de filmes assistidos.
“Mais passeios, agora pela Serra do Gerês e da Peneda. No carrinho Mini BMW do António, ao lado dele, de Isabel e de Soraia, fui de camisa do Vasco. Rodamos por essas serras e chegamos à Espanha, cruzando o rio Mao, na cidadezinha de Lobios, onde António comprou um carregador de telemóvel. Gostei da basílica da Nossa Senhora da Peneda. Fui também ao santuário do São Bento da Porta Aberta, nas Terras do Bouro. Em Soajo, há um monumento a um sabujo. E, num pátio, um sabujo adormecido em mim foi desperto por uma linda jovem, de shortinho, andando de bicicleta” (MACIEL, 2020, 45).
O interesse da ficção de Caio Junqueira, além de investidas eróticas e da resenha de leituras, reside no roteiro de viagens por lugares destacados de Portugal, Galícia e Espanha, com o acréscimo de expedientes inesperados, carregados de humor, episódios boêmios envolvendo bêbedos, iguarias exóticas, tudo matizado por fragmentos de poemas de Guerra Junqueiro, Rosalia de Castro, Cesário Verde, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Teixeira de Pascoaes.
MACIEL, Caio Junqueira. Um Estranho no Minho. Maringá: Viseu, 2020.

Maravilha. Uma aula de/sobre literatura. Obrigado professor.
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