Um dos últimos livros de João Ubaldo Ribeiro, O Albatroz Azul revela-se uma espécie de síntese refinada de uma obra que sempre zelou pela elegância de linguagem e pitoresco da fabulação. Juvenal, pai de Tertuliano, vive na casa da madrinha Iá Cencinha (mãe de Albina e Catarina). Um pouco mais novo que as filhas da madrinha, passa a ter relação sexual com as duas. O motivo de duas irmãs que transam com o mesmo homem, sem conflitos, não é original, - observa-se em Eva Luna, da chilena Isabel Allende. O romance de João Ubaldo reproduz os derradeiros dias do protagonista, após uma vida de sensualidade, atropelos familiares e sossegado convívio entre amigos. Tudo transcorrido em meio a silvas de aves assustadas, cheiros inusitados, filtrados pela maresia das praias baianas. Através da memória, atiçada pelos eventos recentes, o idoso vai se recordando de antigas vivências. O resto dos dias, Tertuliano passa-os em suave e reflexiva melancolia diante dos eventos, atropelados pelas crendices, pelo fatalismo e pelo nascimento abençoado de um neto que veio à luz da lua a barlavento, uma predestinação: “… Altina passou o menino ainda gosmento a seu avô, que o levantou com o traseirinho na direção da luz e assim o manteve enquanto rezava um padre-nosso e uma ave-maria, seu próprio rosto também voltado para o alto e muito sério, os olhos fechados e as mãos vibrando” (Ribeiro, 2009, 52). As diligências empreendidas diante do batizado, a escolha do padrinho e do nome tomam conta de inúmeras providências, a partir de então adotadas. Quando recorda o nascimento do neto, o narrador não consegue reprimir a emoção: “O nascituro viera à luz da vida com o uropígio voltado para Selene, satélite da esfera terráquea, que os vates tanto inspira (Ribeiro, 2009, 156)”, na linguagem empolada do barbeiro Nascimento, em atividade na Tricotomia Parnaso, onde são comuns as discussões metafísicas. Os ditados populares sucedem-se: “Conselho dado cedo é o que salva o vinhedo”, “Dito de criança e repente de mulher, aproveite quem quiser” (Ribeiro, 2009, 132); “Marido velho com mulher nova ou corno ou cova” (Ribeiro, 2009, 94); ”De casa de gato não sai farto o rato” (Ribeiro, 2009, 114)).
Custódio Xaréu, Ostinho Peru Leso, Pomerânio, Everaldo da Bica, Saturnino Bororo, Nestor Gato Preto, Natálio Queresene compõem o divertido magote de personagens desta saga. A linguagem colorida, as crenças populares, o contexto histórico recheado de superstições e magia, o lento desenrolar das horas, os desdobramentos retóricos dos nomes próprios, os sonhos estapafúrdios constituem elementos habilmente trabalhados pelo narrador.
RIBEIRO, João Ubaldo. O Albatroz Azul. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

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