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sábado, 9 de dezembro de 2017

Joaquim Manuel Magalhães

Livro do mês:     

      Joaquim Manuel Magalhães (Consequência do lugar é de 1974) está ligado à geração poética surgida em Portugal nos anos 70 e aos jovens que em 1976 lançaram Cartucho – Antônio Franco Alexandre, Helder Moura Pereira, João Miguel Fernandes Jorge. Esta experiência coletiva assinala um aspecto básico para a compreensão de sua poesia, a companhia de outros, a elaboração criativa a partir da leitura de outros autores. A dimensão de poeta crítico pode ser delineada através do percurso que vai de Os dois crepúsculos (1981) a Dylan Thomas (1982), de Um pouco da morte (1989) a Rima pobre (1999). A poesia de Cartucho (poemas amassados, à semelhança de bombons) mostra-se particularmente voltada para a reabilitação da subjetividade e a expressão do desejo. De acordo com sua formulação, a geração dos anos 70 assume “um discurso cuja tensão é menos verbal do que explicitamente emocional” (Magalhães, 1981, 258).



      Seu poema subentende a marca cética da linguagem: ainda quando emerge de sentidos localizáveis, recusa quaisquer certezas ou paraísos e sobrevive, sempre, no limiar da dúvida: “Não és real, eu não existo./ Raízes desertas do auriga.” (Magalhães, 1990, 14) Construída nas bordas (e nas dobras) da realidade, transfere para a espessura da linguagem a respiração vertiginosa da paisagem urbana:

         (…) Uma vez
         saí da cidade para a aldeia costeira.
         Cantavam. Perguntou
         o que era o jantar, apanhou canas,
         com um golpe de rins soltou um ramo
         da macieira. A lua recebe a luz
         do seu corpo deitado. (Magalhães, 1990, 31)

      O cenário físico, com suas conotações específicas de luminosidade, configura um recorte luminoso da experiência, estabelecendo uma irradiação entre a natureza e o sujeito nela inserto:

         Os rilheiros dos cereais em rama
         e os almenares de palha erguiam-se
         na eira bem lavrada de travessia e de forcão.
         Os melros entoam um canto de companhia
         fugitivo, metálico sobre nós os dois. (Magalhães, 1990, 48)

      O poeta cria um simulacro da realidade, dela lhe chegam vestígios indecisos que apontam para uma das funções da poesia: transfigurar o real ou transformá-lo em antídoto:

         Detesto a poesia. Essa tarefa
         debruada de troca social. (“Transvasamento”)

      Detestar a poesia por sabê-la espaço de transferência das utopias? A única provável permanência? O terreno minado onde pulsam as ilusões da representação? Um forma de diálogo impossível, uma vez que sempre escapa alguma coisa na depuração da linguagem: do um apenas com todos os outros?
      Não confundir com o livro de título semelhante, Um toldo vermelho, de 2010, no qual o autor, infelizmente, procedeu a uma alteração radical e devastadora à totalidade de sua produção poética.


MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Uma luz com toldo vermelho. Lisboa: Presença, 1990.



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