Livro do mês:
Joaquim
Manuel Magalhães (Consequência
do lugar é
de 1974)
está
ligado à geração poética surgida em Portugal nos anos 70 e aos
jovens que em 1976 lançaram Cartucho
– Antônio
Franco Alexandre, Helder Moura Pereira, João Miguel Fernandes Jorge.
Esta experiência coletiva assinala um aspecto básico para a
compreensão de sua poesia, a companhia de outros, a elaboração
criativa a partir da leitura de outros autores. A dimensão de poeta
crítico pode ser delineada através
do percurso que vai de Os
dois crepúsculos (1981)
a Dylan
Thomas (1982),
de Um
pouco da morte (1989)
a Rima
pobre (1999).
A poesia de Cartucho
(poemas
amassados, à semelhança de bombons) mostra-se particularmente
voltada para a reabilitação da subjetividade e a expressão do
desejo. De acordo com sua
formulação,
a geração dos anos 70 assume “um discurso cuja tensão é menos
verbal do que explicitamente emocional” (Magalhães,
1981, 258).
Seu
poema subentende a
marca cética da linguagem: ainda quando emerge de sentidos
localizáveis, recusa quaisquer certezas ou paraísos e sobrevive,
sempre, no limiar da dúvida: “Não és real, eu não existo./
Raízes desertas do auriga.” (Magalhães, 1990, 14) Construída nas
bordas (e nas dobras) da realidade, transfere
para a espessura da linguagem a respiração vertiginosa da paisagem
urbana:
(…) Uma
vez
saí da cidade para a aldeia costeira.
Cantavam. Perguntou
o que era o jantar, apanhou canas,
com um golpe de rins soltou um ramo
da macieira. A lua recebe a luz
do seu corpo deitado. (Magalhães,
1990, 31)
O
cenário físico, com suas conotações específicas de luminosidade,
configura um recorte luminoso da experiência, estabelecendo uma
irradiação entre a natureza e o sujeito nela inserto:
Os
rilheiros dos cereais em rama
e os almenares de palha erguiam-se
na eira bem lavrada de travessia e de forcão.
Os melros entoam um canto de companhia
fugitivo, metálico sobre nós os dois. (Magalhães,
1990, 48)
O
poeta cria um simulacro da realidade, dela lhe chegam vestígios
indecisos que apontam para uma das funções da poesia: transfigurar
o real ou transformá-lo em antídoto:
Detesto
a poesia. Essa tarefa
debruada de troca social. (“Transvasamento”)
Detestar
a poesia por sabê-la espaço de transferência das utopias? A única
provável permanência? O terreno minado onde pulsam as ilusões da
representação? Um forma de diálogo impossível, uma vez que sempre
escapa alguma coisa na depuração da linguagem: do um apenas com
todos os outros?
Não confundir com o livro de título semelhante, Um toldo vermelho, de 2010, no qual o autor, infelizmente, procedeu a uma alteração radical e devastadora à totalidade de sua produção poética.
Não confundir com o livro de título semelhante, Um toldo vermelho, de 2010, no qual o autor, infelizmente, procedeu a uma alteração radical e devastadora à totalidade de sua produção poética.
MAGALHÃES,
Joaquim Manuel. Uma
luz com toldo vermelho. Lisboa:
Presença, 1990.

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