Livro do mês
De Milena, circo e sonhos, narrativa lírica de Antônio César Drumond Amorim, faturou o primeiro Prêmio Guimarães Rosa, do Governo do Estado de Minas Gerais, em 1975. Bastaria este prêmio, de alto montante, para torná-lo um livro representativo de toda uma década. Ilustrado por Gilberto Abreu, a quem se deve também a expressiva e ingênua capa, com vagas reminiscências dos desenhos de Exupèry, foi editado pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, no âmbito da cobiçada premiação. O próprio autor sentiu “o fardo”, como se observa na erudita apresentação, com preâmbulo em homenagem a Sartre: “Acabo de receber um prêmio muito importante, não discuto o valor objetivo da coisa. Sobrenado muito bem disposto, muito burguesmente instalado em toda essa situação. É terrível”. Algumas linhas depois, confessa: “Eu não poderia nunca me manifestar fazendo música, pintando, esculpindo. Literatura é a maneira mais completa de a gente se manifestar, dizer que está aí, contar que vive. Estou falando de mim”.
De Milena, circo e sonhos, narrativa lírica de Antônio César Drumond Amorim, faturou o primeiro Prêmio Guimarães Rosa, do Governo do Estado de Minas Gerais, em 1975. Bastaria este prêmio, de alto montante, para torná-lo um livro representativo de toda uma década. Ilustrado por Gilberto Abreu, a quem se deve também a expressiva e ingênua capa, com vagas reminiscências dos desenhos de Exupèry, foi editado pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, no âmbito da cobiçada premiação. O próprio autor sentiu “o fardo”, como se observa na erudita apresentação, com preâmbulo em homenagem a Sartre: “Acabo de receber um prêmio muito importante, não discuto o valor objetivo da coisa. Sobrenado muito bem disposto, muito burguesmente instalado em toda essa situação. É terrível”. Algumas linhas depois, confessa: “Eu não poderia nunca me manifestar fazendo música, pintando, esculpindo. Literatura é a maneira mais completa de a gente se manifestar, dizer que está aí, contar que vive. Estou falando de mim”.
O livro foi aquinhoado de tantos agrados oficiais que a crítica
considerou de bom alvitre silenciar a respeito. Por paradoxal que possa
parecer, diante de sua estrutura esgarçada e do distanciamento dos gêneros,
tudo coroado ao fim e ao cabo pelo prêmio, instalou-se uma tácita indiferença. A presença de posturas vanguardistas para a
época – pontuação pouco rigorosa, uso de minúsculas após o ponto final, excesso
de figuras de linguagem, - serviu para cercar o livro de uma cortina de olvido.
Poucos se deram ao trabalho de lê-lo,
esta a verdade. Isto é o que acabei
fazendo, nos últimos dias. Trata-se de um relato lírico, permeado de elementos
circenses e folclóricos. Recria situações amorosas entre um suposto Palhaço e a
idealização feminina. Milena corporifica o eterno feminino e agrega traços
constitutivos da amada etérea, impossível, distante.
“Na minha roupa recolhi estas estrelas. Eu as apliquei, mas não
renderam juros. Gastei a minha vida recolhendo estrelas, recontando flores.
Senhoras e
Senhores,
Estarei sendo irreverente? Por momentos as palavras reassumirão a sua autonomia bruta e a mente oca deste palhaço se encarregará de estraçalhar ideias” (AMORIM, 1975, 28).
Estarei sendo irreverente? Por momentos as palavras reassumirão a sua autonomia bruta e a mente oca deste palhaço se encarregará de estraçalhar ideias” (AMORIM, 1975, 28).
Há mais de quarenta anos, o
livro de Drumond Amorim projeta-se, como espaço de mistura de gêneros, na medida
em que abriga traços estruturais épicos e dramáticos, além dos elementos
líricos evidentes.
“Desmaiava em festas a cidade,
naquele tempo, bela-adormecida entre três montanhas e o mar. Não constava dos
livros de geografia, não constituía nem mesmo ponto em qualquer dos mapas
existentes nos mundos, rebrilhando ao sol para poucos.
Espero
justificar a ênfase com que distingo o dia de festas na destruída e já
soterrada cidade: - fora Milena a princesa que atraíra forasteiros, beijos e
olhares,
tão impressionista, em tom maior
esclarecerei: Milena firmara-se com relevância misteriosa, senhora encantada e
inconquistável” (AMORIM, 1975, 52).
Formado por Heráclio Salles,
José Guilherme Merquior e Rui Mourão, o júri destaca no Relatório alusivo à
escolha: “A sua estrutura se constrói por meio de pequenos segmentos poemáticos
– às vezes de um mero sintagma – que vão sendo dispostos sobre a página com
autonomia marcada pelo destaque dos espaços em branco mas que ao mesmo tempo se
interligam para constituir um fluxo contínuo, através de procedimentos
retóricos de grande eficiência e que acabam se tornando nos maiores
responsáveis pelo ritmo geral da composição”.
AMORIM,
Antônio César Drumond. De Milena, circo e
sonhos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1975.

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