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sexta-feira, 3 de março de 2017

Antônio César Drumond Amorim

Livro do mês


         De Milena, circo e sonhos, narrativa lírica de Antônio César Drumond Amorim, faturou o primeiro Prêmio Guimarães Rosa, do Governo do Estado de Minas Gerais, em 1975. Bastaria este prêmio, de alto montante, para torná-lo um livro representativo de toda uma década. Ilustrado por Gilberto Abreu, a quem se deve também a expressiva e ingênua capa, com vagas reminiscências dos desenhos de Exupèry, foi editado pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, no âmbito da cobiçada premiação. O próprio autor sentiu “o fardo”, como se observa na erudita apresentação, com preâmbulo em homenagem a Sartre: “Acabo de receber um prêmio muito importante, não discuto o valor objetivo da coisa. Sobrenado muito bem disposto, muito burguesmente instalado em toda essa situação. É terrível”.  Algumas linhas depois, confessa: “Eu não poderia nunca me manifestar fazendo música, pintando, esculpindo. Literatura é a maneira mais completa de a gente se manifestar, dizer que está aí, contar que vive. Estou falando de mim”.



O livro foi aquinhoado de tantos agrados oficiais que a crítica considerou de bom alvitre silenciar a respeito. Por paradoxal que possa parecer, diante de sua estrutura esgarçada e do distanciamento dos gêneros, tudo coroado ao fim e ao cabo pelo prêmio, instalou-se uma tácita indiferença.  A presença de posturas vanguardistas para a época – pontuação pouco rigorosa, uso de minúsculas após o ponto final, excesso de figuras de linguagem, - serviu para cercar o livro de uma cortina de olvido.  Poucos se deram ao trabalho de lê-lo, esta a verdade.  Isto é o que acabei fazendo, nos últimos dias. Trata-se de um relato lírico, permeado de elementos circenses e folclóricos. Recria situações amorosas entre um suposto Palhaço e a idealização feminina. Milena corporifica o eterno feminino e agrega traços constitutivos da amada etérea, impossível, distante.
“Na minha roupa recolhi estas estrelas. Eu as apliquei, mas não renderam juros. Gastei a minha vida recolhendo estrelas, recontando flores.
Senhoras e Senhores,
Estarei sendo irreverente? Por momentos as palavras reassumirão a sua autonomia bruta e a mente oca deste palhaço se encarregará de estraçalhar ideias” (AMORIM, 1975, 28).
           Há mais de quarenta anos, o livro de Drumond Amorim projeta-se, como espaço de mistura de gêneros, na medida em que abriga traços estruturais épicos e dramáticos, além dos elementos líricos evidentes.  
          “Desmaiava em festas a cidade, naquele tempo, bela-adormecida entre três montanhas e o mar. Não constava dos livros de geografia, não constituía nem mesmo ponto em qualquer dos mapas existentes nos mundos, rebrilhando ao sol para poucos.
Espero justificar a ênfase com que distingo o dia de festas na destruída e já soterrada cidade: - fora Milena a princesa que atraíra forasteiros, beijos e olhares,
         tão impressionista, em tom maior esclarecerei: Milena firmara-se com relevância misteriosa, senhora encantada e inconquistável” (AMORIM, 1975, 52).
          Formado por Heráclio Salles, José Guilherme Merquior e Rui Mourão, o júri destaca no Relatório alusivo à escolha: “A sua estrutura se constrói por meio de pequenos segmentos poemáticos – às vezes de um mero sintagma – que vão sendo dispostos sobre a página com autonomia marcada pelo destaque dos espaços em branco mas que ao mesmo tempo se interligam para constituir um fluxo contínuo, através de procedimentos retóricos de grande eficiência e que acabam se tornando nos maiores responsáveis pelo ritmo geral da composição”.

AMORIM, Antônio César Drumond. De Milena, circo e sonhos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1975.


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