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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lúcio Cardoso

Livro do mês:

       Acabo de ler a novela O enfeitiçado, de Lúcio Cardoso. Mais um mergulho no exercício da ficção de tendência psicológica, experimentada em várias trilhas e matizes, através de exuberante fluxo verbal, dividido entre a reconstituição cuidadosa do cenário e a captação do universo interior das personagens, marca inconfundível do autor mineiro.


      Surpreende-me o final niilista, absolutamente desesperado, desesperançado. Após um longo percurso em busca do filho, o enigmático Rogério Palma, com o qual desfruta apenas breves momentos de abandono e fuga, em cenários decadentes, Inácio Palma confessa sua desistência, esquadrinhado num beco sem saída. Vê-se desprezado, relegado à sarjeta, pressionado a dar cabo da própria vida, sob a pérfida e implacável vigilância de um bandido, pago para exterminá-lo. “Mas isto era eu, unicamente eu, minha pobre matéria enganada e triste” (p.276). Em sua tumultuada demanda pelo reencontro com o filho, o protagonista não se constrange em pactuar com a mais descarada sordidez, nos arredores periféricos do submundo da prostituição. 
      Alguns críticos que se debruçaram sobre a obra polêmica do Autor usam a imagem do “poço sem fundo” para expressar o pessimismo nela presente e, sobretudo, a ousadia como desvenda as forças obscuras que dominam as personagens, atormentadas, incapazes de fugir de uma destinação trágica. Lúcio Cardoso denominou de “o mundo sem Deus” à trilogia formada por três novelas – Inácio, de 1944, O enfeitiçado, publicada em 1954 e Baltazar, que ficou inacabada. As páginas derradeiras exalam o gosto depressivo da degradação e da morte. 

CARDOSO, Lúcio. Inácio, O enfeitiçado e Baltazar. Rio de Janeiro: Record, 2002.




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