Além de sexagenário, o homem era calvo e introspectivo. Com a mulher vinte anos mais nova, estava contente: conhecia uma capital do nordeste, comemorava bodas de prata. Cansados do passeio à costa do Conde, no dia anterior, concordaram em ficar por ali, mais ou menos perto do hotel. E folgavam debaixo de um guarda-sol alugado, em Cabo Branco. Calor intenso, água morna, vento refrescante. E o básico em praia tropical: água de coco, cerveja em lata, amendoim torrado, banhos. O filho mais velho concordou em dar um tempo na areia, rumaram para o mar.
Ondas quebravam, às vezes traziam algas e tropeços. Dois garotos aproximaram-se, morenos e risonhos.
"Moça, encontrei um cavalo marinho". Disse a guria.
"Onde?" A mulher era mais comunicativa.
"Devolvi, pertence ao mar", falou, compenetrada, a guria.
"Garota bonita", comentou o homem com a mulher, em tom aparentemente mais baixo. Afastou-se, para local mais fundo. Acuado, ouviu a menina dizer que o tio, com quem morava, era sargento de polícia. Mais acuado, lembrou do cartaz no hall do hotel: "Turismo sexual é crime". A mulher perguntou à guria: "Qual seu nome?"
"Celma. Meu irmão é Tiago".
"Quantos anos você tem?"
"Ela tem doze, eu tenho dez", adiantou o irmãozinho.
A mulher saiu do mar, os garotos aproximaram-se do homem.
"Olha, ela não tem nem peitinho", gritou o menino, abraçando a menina pelas costas, os dois riam como se posassem para uma foto. O homem, interessado nas ondas, afastou-se outra vez, incomodado com o jeito buliçoso e insinuante da menina olhar para ele. Pegou uma onda mais forte, na volta quase esbarrou no menino, que o interpelou:" O senhor deu cinco reais para ela?"
Afastou-se definitivamente dos pestinhas, tão ingênuos quanto espertos.

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