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sábado, 4 de setembro de 2010

Suplemento literário: que falta ele faz!


Livro do mês:


      É consensual a relevância dos periódicos literários, como subsídio para a compreensão de uma época, além de documentar uma colaboração diversificada e multifacetada. A autora apresenta uma pesquisa informativa, uma visão panorâmica do Suplemento literário do Estadão. O enfoque é jornalístico, voltado para a elucidação de circunstâncias históricas, relacionadas à origem e contexto da criação do famoso caderno de cultura, que circulou encartado à edição de sábado de O Estado de São Paulo, durante dezoito anos (de 1956 a 1974). Desprovido de interesses comerciais, no âmbito de um ambicioso projeto cultural elaborado por Antônio Candido, seguido à risca, o caderno manteve um perfil erudito e reflexivo, como espaço de produção e debate de temas artísticos e literários, tornando-se referência no gênero. Dirigido inicialmente e durante dez anos por Décio de Almeida Prado, professor e crítico de teatro, mais tarde pelo jornalista Nilo Scalzo, o suplemento era o resultado de uma convergência de esforços entre a nata ilustrada da elite paulista e um grupo de intelectuais da USP. Na sua primeira fase, manteve estreitas relações com o grupo de Clima, revista literária dos anos 40, como comprovam os nomes constantes no expediente (Lourival Gomes Machado era o responsável pelas artes plásticas, Paulo Emílio Gomes pelo cinema) e o depoimento do primeiro editor: “Podemos dizer sem exagero que a essência do Clima, no que diz respeito a pessoas, passara de uma revista de jovens para as páginas de um grande jornal, que tinha outra penetração e responsabilidade perante o público” (p.29).

      Apesar de ligado a um jornal de direita, o Suplemento literário não discriminava colaboradores por questões ideológicas, pautando-se pelo critério de qualidade, numa “atmosfera de objetividade e largueza intelectual”, de acordo com a proposta de Candido. Sintomática a esse respeito, a longa apresentação do primeiro número, (de 6 de outubro de 1956), assinada por Décio de Almeida Prado, afirma: “(...) todos os seus artigos são assinados, nenhuma responsabilidade cabendo à redação; por outro lado, a sua natureza é, portanto, artística. Ora, não se compreende arte sem plena liberdade de expressão e criação pessoal. (...) Uma publicação que se intitula literária nunca poderia transigir com a preguiça mental, com a incapacidade de pensar, devendo partir, ao contrário, do princípio de que não há vida intelectual sem um mínimo de esforço e disciplina” (p.48). Apoiado pela estrutura financeira de um grande jornal, desenvolveu uma gestão editorial marcada pelo profissionalismo, com a mais alta remuneração paga por colaboração literária no país.

      A parte histórica, desenvolvida através da tentativa de relevar o significado do Estadão e do seu suplemento na cultura brasileira, com o resgate e análise do projeto de seu idealizador, configura a espinha dorsal do livro; nesse sentido, contribui para o estudo das relações entre a cultura e o jornalismo. O volume é fartamente ilustrado, com fotografias e reproduções de textos e ilustrações relevantes, acabamento gráfico de bom gosto. O capítulo dedicado às ilustrações estampadas no periódico, com o levantamento dos principais artistas plásticos envolvidos, cumpre exemplarmente sua finalidade. O mesmo não se pode afirmar da parte propriamente literária. São referidos alguns lançamentos, alguns autores são citados, sem uma análise abrangente do material pesquisado. Foi inteiramente descurada a apreciação da colaboração literária, ficou por ser feito um índice alfabético dos colaboradores, como era de se esperar em obra de tal natureza. O ensaio científico é um gênero absorvente, exige pesquisa exaustiva, densidade de argumentação e habilidade para manusear dados estatísticos. O objeto escolhido – a história de um suplemento literário – requer domínio de conceitos e sistemas específicos, além de metodologia adequada. Em obras desta natureza, são fundamentais o destaque ao levantamento da matéria, a formação na área, além de um balanço descritivo e sistemático da produção literária publicada no objeto da investigação.

LORENZOTTI, Elizabeth. Suplemento literário, que falta ele faz!: 1956-1974 do artístico ao jornalístico: vida e morte de um caderno cultural. São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.

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