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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A correspondência de Fradique Mendes



A correspondência de Fradique Mendes


Na multifacetada obra de Eça de Queirós, o título acima ocupa um lugar de destaque, apesar de ser um dos menos favorecidos pela fortuna crítica. Composto em forma de uma longa narrativa, a que se adicionam inúmeras cartas atribuídas a Fradique Mendes, o romance constitui um produto interessante, em termos de estrutura e construção, além de questionar aspectos fundamentais ligados à questão autoral. Entre a biografia e a ficção, sua estrutura acentua o entrelugar do narrador, indeciso entre a irrealidade dos fatos inventados e a possibilidade de comprovação histórica de muitos outros, alusivos à biografia do próprio Eça de Queirós ou à de Antero de Quental.
A personagem Fradique tem sua primeira aparição numa divertida invenção dos intelectuais integrantes das reuniões do Cenáculo, entre 1865/1880, num horizonte estético posterior à moldura naturalista, com um perfil tendente à modernidade, descrito de forma extremamente hábil, numa narrativa dialógica, que coloca sob suspeição a postura dogmática e autoritária do Realismo.
A correspondência de Fradique Mendes, mais do que constatar o abismo entre enunciado e enunciação, discute a questão da autoria literária. Carlos Reis aventa a hipótese da possibilidade de ser um heterônimo de Eça de Queirós. (A esse respeito, externei minha opinião em ensaio publicado no volume Romance histórico: recorrências e transformações, organizado por BOECHAT et alii. Belo Horizonte, FALE/UFMG, 2000.) Em mais de um momento, afirma o narrador que Fradique não tinha pretensões literárias e não tencionava ser um autor.

“Eu por mim, dum melhor e mais contínuo conhecimento de Fradique, concluo que ele não deixou um livro de Psicologia, nem uma Epopéia arqueológica (que certamente pareceria a Fradique uma culpada e vã ostentação de sabor pitoresco e fácil), nem Memórias – inexplicáveis num homem todo de ideia e de abstração, que escondia a sua vida com tão altivo recato. E afirmo afoitamente que nesse cofre de ferro, perdido num velho solar russo, não existe uma obra – porque Fradique nunca foi verdadeiramente um autor”. (QUEIRÓS, s/d, p. 102-103)

A citação é assaz esclarecedora do perfil cético e do caráter vago do protagonista. Apresentado como amigo e admirador de Theophile Gautier, Fradique, através do narrador, surge fascinado pela possibilidade de se deixar envolver pela “ação inefável do absolutamente belo”, adepto da crença num esteticismo radical.
A narrativa, até certo ponto fluida, no que diz respeito ao contexto histórico, não frustra a intenção de configurar uma determinada época. O tempo é uma categoria rígida no romance. Embora as cartas não sejam datadas com exatidão, o narrador separa com ênfase o ano de 1867, quando teria conhecido Fradique, bem como o ano de 1880, quando teria ocorrido sua intimidade com o protagonista. Apesar de reiterar, em várias passagens, que a amizade dos dois não ultrapassou “as funções da inteligência”, o narrador não consegue camuflar a forte atração que sente pelo amigo, entre pitadas de ironia e sutilezas (homo)eróticas. Embora seja um arremedo de heterônimo, uma vez que seu estilo não se afasta do estilo de Eça de Queirós, Fradique cumpre à perfeição seu papel na cena literária, ao possibilitar a escrita de um grande romance, que de certa forma inaugura alguns recursos (a mescla de realidade e ficção, entre outros) caros nos dias que correm, assinalando de forma soberba o providencial encontro de seu autor com a Modernidade.
QUEIRÓS, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. Porto: Lello & Irmão, s/d.

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